

A necessidade de aceitar as diferenças religiosas e culturais marcou o primeiro discurso que o papa Francisco proferiu hoje, ao chegar ao Sri Lanka, naquele que é o início da sua sétima peregrinação internacional.
Nas palavras que pronunciou no aeroporto de Colombo, capital da ilha que foi chamada de Ceilão, Francisco frisou que é essencial «respeitar as legítimas diversidades e aprender a viver como uma única família».
«Quando as pessoas se ouvem humilde e francamente umas às outras, pouco a pouco vão aparecendo mais visivelmente os valores e aspirações comuns. A diversidade será vista, não já como uma ameaça, mas como uma fonte de enriquecimento. Divisa-se mais claramente a estrada para a justiça, a reconciliação e a harmonia social», apontou.
O papa qualificou de «tragédia contínua» o facto de o mundo continuar marcado «muitas comunidades» que estão «em guerra entre si» devido à «incapacidade de conciliar as diferenças e divergências, sejam elas antigas ou recentes».
Tendo como horizonte o conflito entre o governo central e a guerrilha tamil, que até 2009 causou, segundo estimativas, 70 mil mortos no Sri Lanka, Francisco apelou à consolidação da pacificação, ainda que não seja «tarefa fácil superar a amarga herança de injustiças, hostilidades e desconfiança deixada pelo conflito».
O reencontro e a paz só se podem conseguir «superando o mal com o bem e cultivando aquelas virtudes que promovem a reconciliação, a solidariedade e a paz», vincou o papa.
Após os mais de 25 anos de guerra civil têm ocorrido vários episódios de intolerância religiosa que opõem a tendência budista (70% dos 21,5 milhões de habitantes) às minorias, entre as quais a cristã, sobretudo católicos, com cerca de 7,5% da população.
Francisco manifestou a convicção de que «os seguidores das várias tradições religiosas», com cujos líderes se vai encontrar hoje, «têm um papel essencial a desempenhar no delicado processo de reconciliação e reconstrução em curso» no país.
«Para que tal processo tenha lugar, é preciso que todos os membros da sociedade trabalhem juntos; todos devem ter voz; devem ser livres de expressar as suas preocupações, as suas necessidades, as suas aspirações e os seus temores», acrescentou.
O principal objetivo da visita, que prossegue na quinta-feira com a viagem às Filipinas, é «encontrar e encorajar os católicos» do Sri Lanka e «rezar com eles», e ao mesmo tempo «expressar o amor e a solicitude da Igreja por todos os srilanqueses e confirmar o desejo da comunidade católica de participar ativamente» na vida da sociedade.
«Um ponto central desta visita será a canonização do Beato José Vaz, cujo exemplo de caridade cristã e de respeito por todos, sem distinção de etnia ou religião, continua a servir-nos de inspiração e lição ainda hoje», realçou.
A terminar, o papa fez votos para que a visita seja pontuada pela «amizade, diálogo e solidariedade», invocou as bênçãos de Deus sobre «a Pérola do Oceano Índico», e rezou para que a beleza da ilha «brilhe em todo o seu esplendor para bem da prosperidade e da paz de todos os seus habitantes».
Após a chegada, estava previsto o encontro do papa com os bispos do Sri Lanka no arquiepiscopado de Colombo, mas a reunião foi cancelada. A par do calor que se faz sentir na cidade, verificou-se o atraso de uma hora em relação ao horário previsto entre a cerimónia de boas-vindas e a deslocação para a capital.
A agenda de Francisco para hoje compreende a visita ao presidente da república, Maithripala Sirisena, eleito a 8 de janeiro, e um encontro inter-religioso.
Rui Jorge Martins