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Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto: A lista de Pio XII

As mentiras têm, proverbialmente, as pernas curtas, e após o sprint inicial têm sempre de render-se ao invencível passo da maratona dos factos e dos documentos. Esta sabedoria popular pode aplicar-se ao papa Pio XII, tantas vezes acusado de silêncio e inação perante as atrocidades cometidas pelo regime nazi em relação aos judeus. A abertura do Arquivo Apostólico do Vaticano aos arquivos relativos ao pontificado de Eugenio Pacelli contribuirá para dar luz ao que até agora era do desconhecimento geral. Até que se leiam os resultados das averiguações dos historiadores, o público pode contar desde já com a revelação de uma fonte mantida até agora “sub secreto”.

Trata-se do livro “Pio XII e gli Ebrei” (Pio XII e os judeus) (ed. Rizzoli, 409 pp.), assinado por Johan Ickx, que na qualidade de diretor do Arquivo da Secção para as Relações com os Estados (na prática, o “Ministério dos Negócios Estrangeiros”) da Secretaria de Estado da Santa Sé, pôde consultar e estudar documentação inédita nunca antes publicada, e reconstruir assim a intensa atividade realizada por Pio XII e pelos seus mais estreitos colaboradores para procurar salvar milhares de pessoas de origem judaica das deportações nazistas.

O volume é um fresco de proporções à medida de Miguel Ângelo, que sai para as livrarias no contexto do Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto, que se assinala a 27 de janeiro. A escrita do autor evoca uma câmara de cinema, ora com panorâmicas sobre cenários dramáticos, como, por exemplo, as violações do território da Santa Sé perpetradas pelas SS em S. Paulo Extra Muros e Santa Maria Maior, em 1944 (a resposta firme do papa foi conduzida sempre com o método que se mostrou ganhador da “diplomacia suave”, executada, de resto, em relação a todas as potências em campo); ora fechando o plano em acontecimentos vividos por indivíduos e famílias que buscavam um caminho de fuga à loucura hitleriana.



Pio XII «organizou uma rede de vias de fuga para as pessoas em perigo e supervisionava uma rede de sacerdotes que operava em toda a Europa com um único objetivo: salvar vidas onde fosse possível»



Emergem casos como o do casal Oskar e Maria Gerda Ferenczy, católicos austríacos de origem judaica, emigrados após a anexação do país. Em seu favor a Santa Sé, sob impulso pessoal de Pio XII, intervém várias vezes inclusive com um subsídio de 800 liras, e até quando no Rio de Janeiro o chefe de família foi impedido de desembarcar, mas sobretudo obtendo para toda a família o visto para o Brasil, onde podiam refazer a vida. Não teve a mesma sorte a pequena Maja Lang, menina jugoslava a quem a Secretaria de Estado assegurou a reunião com um irmão maior que se encontrava em Itália. Depois, no entanto, foi deportada para Auschwitz, tal como o intermediário - Mario Finzi, que conseguiu sobreviver ao campo de concentração -, o qual tinha escrito ao papa, obtendo o seu interesse.

Ickx reconstrói tudo com precisão, não omitindo sequer o envolvimento de alguns homens da Igreja, infelizmente cúmplices dos nazis. É o caso do presidente eslovaco Jozef Tiso, sacerdote, que em combinação com o fanático primeiro-ministro Tuka avalizou a deportação de judeus da sua nação (em especial as jovens que eram enviadas para a frente dos combates e obrigadas a prostituir-se para os soldados), revendo depois, parcialmente, as suas atitudes, perante as duras e inequívocas tomadas de posição do encarregado de assuntos com o exterior do Vaticano, D. Burzio, de acordo com ordens expressas do papa Pacelli. Desta forma, foi possível a deportação de mais vinte mil pessoas.

De grande valor é igualmente o capitulo dedicado quer à amizade pessoal entre o pontífice e o presidente dos EUA, Franklin Delano Roosevelt - que tentaram de todas as maneiras impedir a entrada da Itália na guerra, infelizmente sem o conseguir -, quer às relações nem sempre fáceis da Santa Sé com os ingleses, graças às quais a quase totalidade de Roma foi poupada aos bombardeamentos.

O livro é o espelho da mole de intervenções ordenadas por Pio XII, coordenadas pelo secretário de Estado, cardeal Luigi Maglione, e concretizadas por altos prelados, como o astuto e irónico Domenico Tardini e o reflexivo Giovanni Battista Montini (futuro Paulo VI), com todos os outros membros daquele que o autor chama o "Bureau" (em substância a Secretaria de Estado). «Os documentos inéditos de Pio XII contrariam a falsa narração aceite precedentemente por muitos», escreve Ickx. O papa, com efeito, «organizou uma rede de vias de fuga para as pessoas em perigo e supervisionava uma rede de sacerdotes que operava em toda a Europa com um único objetivo: salvar vidas onde fosse possível».

É a denominada lista de Pio XII, isto é, a "série Judeus" do Arquivo histórico da Secretaria de Estado. Uma série particular logo desde o sue nome (as outras têm os títulos de países específicos), que contém cerca de 2800 pedidos de intervenção ou de ajuda, e que atesta o quanto a sorte daquela pobre gente estava no coração do papa. A série mostra um relance do destino de mais de 4000 judeus, alguns batizados católicos mas de origem judaica (mas a partir de determinado momento nem o Batismo impediu as deportações). Os pedidos abarcam o arco temporal que vai de 1938 a 1944, intensificando-se nos anos cruciais da guerra. Nem sempre foi possível salvar todos, mas a "série Judeus" «demonstra para além de qualquer dúvida razoável - afirma Icks - que Pio XII e os seus colaboradores fizeram todo o possível para oferecer assistência inclusive àqueles que professavam a fé judaica».


 

Mimmo Muolo
In Avvenire
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: Pio XII | D.R.
Publicado em 27.01.2021

 

 

 
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