

Buda deparou-se com um criminoso que o queria matar e pediu-lhe apenas para satisfazer um último desejo: «Corta um ramo desta árvore!». O bandido fez-lhe a vontade e perguntou-lhe: «E agora?». «Torna a uni-lo», retorquiu Buda. O criminoso escarneceu: «És louco por pedires isso». «Não, tu é que és: matar e fazer mal é coisa de criança, e não um sinal de poder. Poder é criar e curar».
O poder dos exércitos mede-se pela sua capacidade de fogo e de aniquilamento. A força de uma pessoa exprime-se nos bíceps que sabem esmagar quem acabe por estar à mercê. É a lógica da morte que sutilmente se entranha na nossa sociedade: assassínios, estupros, violências como soluções engolidas sob a dilatação da paixão, atos instantâneos e “eficazes” que, todavia, são irremediáveis e irreversíveis.
Um sabor de morte que se insinua também quando se confrontam questões delicadas e complexas respeitantes à vida: pensemos no aborto ou na eutanásia, adotadas como soluções mais fáceis.
A lição de Buda, no apólogo indiano por nós evocado, mostra a penosa imaturidade de quem opta pela lógica da eliminação e não da solução, da prevaricação e não do respeito, da destruição e não da criação. Todos têm a força bruta para premir um gatilho e eliminar uma vida; ninguém sabe recriá-la porque é uma obra única e superior.
Devemos, por isso, reconstruir nas mentes e nos corações o amor por toda a criatura viva como única e insubstituível. O contraste entre a extrema fragilidade e a suprema grandeza da vida era expresso de modo lapidar pelo escritor e político francês André Malraux, no seu romance “Os conquistadores” (1928): «Aprendi que uma vida não vale nada e que nada vale uma vida».
Card. GIanfranco Ravasi