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Cinema

Delicado corpo da voz: "O Novo Testamento de Jesu Christo segundo S. João"

A voz é um fenómeno. Manifesta-se subtilmente como um sopro discreto, vital. Por vezes subversivo! É um fenómeno antigo quanto o sopro generativo das origens. Desde sempre que é um elemento fundamental na arte narrativa e fundativa dos mythos da humanidade. O que é a Odisseia de Homero, protagonizada pelo célebre Ulisses, agarrado ao mastro da caravela, que deseja escutar a voz do canto das sereias sem ser seduzido, senão essa presença originária da sonoridade? Ou o grito cortante de Zaratustra de Nietzsche: «deverei começar por lhes rebentar os tímpanos para que aprendam a ouvir com os olhos? Deverei tocar címbalos e bramir com os pregadores na Quaresma? Ou será que apenas acreditam nas palavras dos gagos? […] Não me compreendem, não sou a boca que convém a estes ouvidos»! Do sublime ao subversivo a voz está-aí como «ser-no-mundo».

A voz invoca, toca e revela. A palavra faz-se voz: «palavra vivente, espiritualidade do sopro como phonè» (Derrida). Predispõe a agir. A voz é condição de vir a Si, à consciência de Si, de se reconhecer reconhecido no reconhecimento de uma Outra voz latente. Voz que convoca o logos para um afeto responsorial. A voz, parafraseando o grande pensador jesuíta Michel de Certeau, é a condição de ser "não mais sem o outro". Não apenas voz física-sonora mas essencialmente voz fenómeno, «animação intencional que transforma o corpo da palavra em carne» (Derrida).

Fenómeno imperativo sacro: «escuta»» e «presta atenção»! O reconhecimento de alguém ou de algo dá-se pelo timbre in-visível da sua voz. É prodigiosa a expressão do livro Cântico dos Cânticos: «Eis a voz do meu amado! […] mostra-me o teu rosto, deixa-me ouvir a tua voz. A tua voz é suave e o teu rosto é encantador». A voz é um fenómeno inimitável e singular. O som, o timbre, a palavra e o significado com-põem esse fenómeno absoluto de habitar o mundo. A sensualidade diz a autenticidade do chamamento de sopro invisível, que se entre-abre à relação, e faz girar corpo-rosto na direção de quem mechama. Mas nem sempre é-aí, é-noutro! A voz desperta o sensível para a descoberta e alegria do reencontro. Fenómeno do reconhecimento e do desejo, de abertura e de mistério, de presença e ausência, de afetos e pensamentos, a voz é transversal a todas as culturas e manifestações artísticas. Essencial à revelação cristã (Mt 3,17; Jo 10,4; Mc 15,34), a voz tem permanecido no cristianismo na sombra das suas potencialidades!

É na reescritura do corpo da voz através do corpo das imagens que se inscreve O Novo Testamento de Jesu Christo segundo S. João. Traduzido em portuguez, da Vulgata latina, por Antonio Pereira de Figueiredo, obra cinematográfica de Joaquim Pinto e Nuno Leonel, estreou no Festival de Cinema de Roma 2013, e exibido recentemente no festival internacional de cinema IndieLisboa 2014. Luís Miguel Cintra dá voz à narrativa bíblica. Um narrar não pelo movimento das imagens, essência clássica do cinema, mas pelo movimento tímbrico e ressonante da corpo-vocal presente, dilatação possível do conceito de cinema.

Aqui é a semântica do logos teológico qualifica o modus operandi da registração cinematográfica. É o sémen da intercorporeidade, voz- contexto-ação. Uma imponente interpretação crente, de incorporação e metamorfose da materialidade em vida-outra. De ultrapassamento! Este filme é essencialmente um fenómeno de voz, de desvelação do invisível ao sensível. Voz que dá corpo ao Logos, como expressão profunda do significado do corpo envolvido pela manifestação de um dos textos mais brilhantes da Escritura e da “literatura mundial”, no pensar de Luís Cintra. Na valorização da voz como presença de, modo de existir, se coloca o rabino Pinchas Lapide, que evoca a passagem da teofania no monte Horeb: «Deus estava naquela delicada voz do silêncio».

O esquecimento das variações timbricas da voz entorpece a diferença dos corpos. É por isso incompreensível a dobragem ou substituição das vozes originais de um filme por outras que não correspondem ao autor em ato. A voz identifica mas também diferencia e distingue. A presença narrante da voz é precedida por uma antecâmara do espaço silente, do campo de trigo aberto, dos grãos prontos a ser colhidos. É invocativo o fim da parábola sinóptica do semeador: «Aquele que tem ouvidos para ouvir, ouça!». O ato de escuta é o princípio de um novo ethos humano, não obstante às dificuldades subjacentes ao ato de escuta.

Uma narrativa nada fácil para quem pretende positivar Deus no culto, na natureza ou nas estruturas. Este filme não é para ver mas para escutar, para "aprender a ouvir com os olhos"! O aparato multimedial é quase nulo. O mínimo dispensável para ser visível. A sonoridade é mínima, essencialmente de respiros humanos ora dramáticos ora sussurrados, de ritmo infalível, de cenário único e de um só tempo, do amanhecer ao entardecer. Um campo entre-aberto atravessada pela voz da palavra semeada. É o intenso eterno num instante fluido. Da incarnação à Ressurreição, da vida nascente à Transfiguração, da finitude à sua metamorfose. Voz silente, eloquente e senciente, essencialmente. Presença de claro-escuro atravessado por um feixe de luz caravaggiano: «Eu sou a luz do mundo, quem me segue não anda nas trevas, mas terá a luz da vida» (Jo 8,12).

Esta narração agápica da vida é uma de-moração. Não há pressa em terminar esta liturgia do corpo senciente. É um corpo habitável, a-morável. A dificuldade em escutar este filme poderá residir mais em fatores externos do que internos ao próprio filme. Por um lado, a endémica e geral desafeição à escuta timbrica da voz, e por outro o desinteresse em participar no eros do corpo agápico reescrito na carne do Verbo. Esta narração fílmica é um ato litúrgico que a voz celebra e faz mover a atenção de quem escuta o Verbo. A palavra, o texto, pela voz se incarna e faz-se contexto no ouvinte. Um "novo" evangelho a voz humana anuncia nas suas variações e gradações agradavelmente audíveis. Mas esta voz é também expressão de um corpo noturno, abissal, pronto a ser transfigurado pelo corpo da Vida.

O Verbo, Logos da vida, sopro vital que continuamente recria novos e antigos laços humanos, incorporando-os/assumindo-os em si. Delicada voz de um homem que dá corpo à voz do Verbo. O corpo-voz de Luís Miguel Cintra, no seu corpo timbrado, ressoa a vida do Logos, o mistério da ultrapassagem de Cristo, na transfiguração da carne humana. Da máxima de Píndaro (522 a.C.- 443 a.C) «torna-te aquilo que és» à voz pascal do Verbo “sê aquilo em que te tornas” incorporado no dito paulino fides ex auditu (Rm 10,7) – a fé vem da escuta! Como diria Nietzsche, «aquele que tem ainda ouvidos para ouvir o inaudito», que oiça mesmo aquém ou além do ver!

Sobre isto e outras coisas, o imemorial cineasta russo Andrei Tarkovski, numa das suas últimas entrevistas, escrevia: «se queremos atrair as massas não se esperem grandes obras de engenho poético»!

 

João Paulo Costa
© SNPC | 14.05.14

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FotogramaLuís Miguel Cintra
"O Novo Testamento de
Jesu Christo segundo S. João"
Foto: D.R.

 

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