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Dachau, o primeiro campo dos indesejáveis

A memória do horror está no meio das casas, a um passo do centro habitado da pequena cidade de Dachau, agora como então. Os muros do campo de concentração correm ao longo da estrada principal que em pouco mais de 20 minutos conduzem a Munique.

O trilho que percorremos a pé é o mesmo sobre o qual eram empurrados os deportados à chegada, a Lagerstrasse, ao fundo da qual se encontro o “Jourhaus”, o edifício de entrada principal que albergava os departamentos administrativos e de comando do campo.

Ultrapassado o grande portão em ferro forjado com a famigerada frase “Arbeit macht frei”, acede-se à gigantesca praça onde diariamente, de manhã e ao cair da noite, era feita a contagem e se decidia o destino dos prisioneiros.

O campo de concentração de Dachau foi o primeiro do nazismo, o único que existiu ao longo dos 12 anos do Terceiro Reich. Heinrich Himmler, ao tempo comandante da secção de Munique das SS, inaugurou-o a 22 de março de 1933, apenas dois meses após a nomeação de Adolf Hitler como chanceler. Para o efeito, bastou reconverter os espaços de uma antiga fábrica de munições da primeira guerra mundial entretanto desativada, instalar torreões de controlo, instalar metros e metros de arame farpado.

Desde os alvores da ditadura que Dachau se tornou o modelo e o centro de treinamento para todos os outros campos de extermínio nazis. Entre 1936 e 1938, explorando a mão-de-obra dos próprios prisioneiros, o campo foi ampliado até assumir a forma definitiva. No seu interior transitaram cerca de 200 mil pessoas, mais de 20% das quais – segundo os dados do museu de Dachau – aí perderam a vida.



A partir do fim de 1940 chegaram em massa religiosos cristãos: para o campo foram deportados 2579 pessoas entre padres, seminaristas e frades católicos, juntamente com 141 pastores protestantes e padres ortodoxos. O Vaticano não conseguiu impedir a sua deportação, mas pelo menos conseguiu que fossem enviados todos juntos para Dachau



As histórias de quem foi obrigado a viver e a morrer em Dachau entre 1933 e 1945 retomam forma no grande museu instalado no interior do antigo edifício do economato, uma construção baixa e longa ao lado da praça. As suas paredes internas permaneceram intactas, como se o tempo tivesse parado.

Longas filas de visitantes e estudantes percorrem as salas diariamente, confrontando-se com o horror, à procura de uma explicação que continua por encontrar dentro do contexto da racionalidade humana. Os primeiros a chegar ao campo foram os opositores políticos, seguidos por austríacos detidos após a anexação do seu país.

Depois foram presos os judeus, os povos rom e sinti, as pessoas com deficiência, homossexuais e todos aqueles que o regime considerava sujeitos indesejáveis.

Mas a partir do fim de 1940 chegaram em massa religiosos cristãos: para o campo foram deportados 2579 pessoas entre padres, seminaristas e frades católicos, juntamente com 141 pastores protestantes e padres ortodoxos. O Vaticano não conseguiu impedir a sua deportação, mas pelo menos conseguiu que fossem enviados todos juntos para Dachau. Mais de metade eram polacos, os restantes provinham da França, Checoslováquia, Bélgica, Holanda, Luxemburgo e Itália, além de centenas de alemães e austríacos.

Os nazis prenderam-nos porque se opunham ao programa de eutanásia, porque tinham integrado a Resistência ou eram apenas suspeitos de ter contribuído, de alguma forma, para a luta antinazista. Muitos foram deportados simplesmente porque tinham ousado condenar o regime a partir dos púlpitos. Foram desde logo isolados dos outros prisioneiros e alojados na barraca 26, o denominado “Pfarrerblock” (bloco dos padres), que hoje já não existe.



Em Dachau ocorreu também a ordenação clandestina de um seminarista prestes a morrer. O alemão Karl Leisner recebeu o sacramento do bispo francês de Clermont-Ferrand, D. Gabriel Piguet



Só duas das 34 barracas que compunham o campo permaneceram como testemunhas, fielmente reconstruídas, em frente ao edifício do museu. As outras foram removidas, deixando, todavia, bem visível o seu perímetro na terra.

O próprio Primo Levi reconheceu nas sua obras a enorme estatura moral dos padres deportados para Dachau, que procuraram de todos os modos reforçar a sua fé, não perdendo a esperança, e dedicando-se à ajuda e assistência espiritual aos doentes e moribundos.

As pressões do Vaticano conseguiram com que se abrisse uma pequena capela no interior do bloco 26, onde a 21 de janeiro de 1941 foi celebrada a primeira missa no campo. O sacrário foi construído, às escondidas, na oficina dos carpinteiros, mas o padre era obrigado a celebrar sozinho. Aos detidos era proibido participar, e a Comunhão era distribuída secretamente, ao preço de graves riscos.

Em Dachau ocorreu também a ordenação clandestina de um seminarista prestes a morrer. O alemão Karl Leisner recebeu o sacramento do bispo francês de Clermont-Ferrand, D. Gabriel Piguet.

Submetidos ao mesmo tratamento desumano de todos os outros prisioneiros, 1034 religiosos católicos não saíram vivos do campo, morrendo de fome, de exaustão, de prostração e de doenças. Em muitos deles foram igualmente realizadas experiências médicas fatais. Foi um lento martírio que recordou as perseguições sofridas pela Igreja dos primeiros séculos, e transformou o campo bávaro no maior cemitério de sacerdotes católicos do mundo.



Os registos do museu testemunham o encarniçamento dos nazis em relação aos religiosos polacos, muitos dos quais se recusaram a aceitar a cidadania alemã que lhes teria garantido um tratamento especial. Num só dia, 5 de maio de 1942, foram mortos 22 padres polacos



Entre os muitos rostos que comparecem no museu de Dachau está o do dominicano Giuseppe Girotti, que morreu no dia de Páscoa de 1945, poucos dias antes da chegada dos Aliados. Ficou junto dos doentes do campo até ao fim, mas depois também ele colapsou: foi transferido para a enfermaria, onde foi morto com uma injeção letal administrada pelos nazis. O museu do Yad Vashem de Jerusalém reconheceu-o como “Justo entre as Nações”, porque antes da sua detenção conseguiu salvar a vida de muitos judeus.

Para Dachau foi também deportado Michal Kozal, bispo da cidade polaca de Wloclawek. À sua chegada, em 1941, recebeu o número 24544, e um uniforme às riscas com um triângulo vermelho que o identificava como prisioneiro político. Quando morreu de tifo, dois anos depois, o comandante do campo opôs-se à sua sepultura no cemitério de Dachau, e determinou que o seu corpo devia acabar no forno crematório.

Os registos do museu testemunham o encarniçamento dos nazis em relação aos religiosos polacos, muitos dos quais se recusaram a aceitar a cidadania alemã que lhes teria garantido um tratamento especial. Num só dia, 5 de maio de 1942, foram mortos 22 padres polacos.

No fundo do longo vale que em tempos era orlado pelas barracas dos prisioneiros eleva-se a capela da Agonia Mortal de Cristo. Inaugurada por ocasião do Congresso Eucarístico Mundial de 1960, foi o primeiro monumento religioso erigido no antigo campo de concentração. Na capela, uma placa recorda o martírio dos sacerdotes polacos. À volta, a pouca distância da área onde são conservadas as câmaras de gás e o grande crematório, encontram-se o memorial judaico, a igreja protestante e a capela russo-ortodoxa.

Pode parecer estranho, mas a primeira visita histórica de um chefe de governo alemão a Dachau ocorreu há poucos anos, em 2013. Nessa ocasião, a chanceler Merkel não deixou de ligar o horror do passado aos ressurgimentos extremistas do presente.


 

Riccardo Michelucci
In Avvenire
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: D.R.
Publicado em 27.01.2020

 

 
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