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Covid-19: Padres que morreram são imagem viva do Bom Samaritano, rosto da Igreja próxima e solidária

«Porque desejas tornar-te padre? O que te impele a seguir os passos de Jesus até ao sacrifício extremo? Estás pronto a acolher os dramas e as feridas de ti próprio e das comunidades às quais serás confiado, e a levá-las ao altar do sacrifício diário?» Quantas vezes dirigi estas perguntas aos seminaristas que se preparavam para o sacerdócio. Muitos deles são hoje padres. O que sempre me fez refletir é a resposta da maioria às minhas perguntas, voluntariamente provocatórias, precisamente para perscrutar na profundidade dos corações: «Quero ser reflexo do amor de Deus no meio da comunidade cristã, um sinal visível no mundo de todos os dias».

Nos meses da pandemia de Covid-19 voltei muitas vezes com a memória aos encontros que tive a felicidade de viver com os futuros padres. Sobretudo nas semanas de recuperação, porque também eu doente de Covid, os “encontros” com as minhas experiências passadas tornaram-se frequentes. Aliás, num quarto de cuidados intensivos, é favorecida esta espécie de instrospeção. Pensei muito no nosso darmo-nos como sacerdotes; no amor recebido e dado; em todas as oportunidasdaes de fazer o bem não aproveitadas. Rezei por todos os doentes, invoquei o perdão por todas as vezes que não estive à altura. Repeti muitas vezes dentro de mim: «Senhor, sou teu». Precisamente como no dia da minha ordenação presbiteral. E assim imagino que tenham feito todos os sacerdotes que viveram o seu serviço no meio do povo de Deus, até ao extremo sacrifício de si próprios.

O sacerdote, escrevia o P. Primo Mazzolari, «é o “viator” não apenas por causa da inquietação do eterno, que possui em comum com cada ser humano, mas por vocação e oferta. Deve-se tudo a todos, e nunca se pode abandonar inteiramente a nenhuma criatura. É um pão de comunhão que todos podem comer, mas de que ninguém tem o exclusivo». São palavras que encontrei incarnadas nos padres que morreram. Foram peregrinos, como dizia o P. Mazzolari, «por vocação e oferta».



«Coloquemos nas mãos feridas do Senhor, como oferta santa, a nossa fragilidade, a fragilidade do nosso povo, de toda a humanidade. O Senhor é quem nos transforma, que se serve de nós como do pão, toma a nossa vida nas suas mãos, abençoa-nos, parte-nos e partilha-nos e dá-nos ao seu povo»



Muitos deles estavam ainda em serviço, outros eram idosos; eram párocos, figuras de referência para as nossas comunidades, que contribuíram para construir ao longo dos anos. Este peregrinar na história do seu ministério cruza o desenvolvimento social, civil e cultural do nosso país. Muitas vezes tem-se pouca consciência da capilaridade das nossas Igrejas locais, nas grandes áreas urbanas, mas sobretudo nos pequenos centros. Numas e noutros, a peregrinação de muitos sacerdotes detém-se nos acontecimentos felizes e sofridos dos homens e das mulheres, até se tornar seu tecido conectivo. É o fio da memória que se renova na humanidade. Percorrendo as histórias destes homens, notei como tantos mortos foram párocos ou vigários durante décadas no mesmo lugar, numa existência marcada pela “normalidade” do sacerdócio. Que dor por aqueles que faleceram em casas de assistência ou devido a complicações de doenças já existentes. Que testemunho em quem morreu para ficar junto do povo, junto dos últimos.

«Como sacerdotes, filhos e membros de um povo sacerdotal», escreveu o papa Francisco numa carta dirigida ao clero de Roma a 31 de maio de 2020, «cabe-nos assumir a responsabilidade pelo futuro e projetá-lo como irmãos. Coloquemos nas mãos feridas do Senhor, como oferta santa, a nossa fragilidade, a fragilidade do nosso povo, de toda a humanidade. O Senhor é quem nos transforma, que se serve de nós como do pão, toma a nossa vida nas suas mãos, abençoa-nos, parte-nos e partilha-nos e dá-nos ao seu povo».

No tempo da pandemia, os sacerdotes expressaram verdadeiramente o rosto belo da Igreja amiga, que assume o cuidado do próximo. Deram um exemplo autêntico de solidariedade com todos. Foram a imagem viva do Bom Samaritano, contribuindo não pouco para tornar a Igreja credível.

No dia da ordenação assumimos um compromisso. «Queres estar cada vez mais estreitamente unido a Cristo, Sumo Sacerdote, que como vítima pura se ofereceu ao Pai por nós, consagrando-te a ti mesmo a Deus, juntamente com Ele, para a salvação de todos os homens?»

«Sim, quero, com a ajuda de Deus», foi a resposta de todos estes sacerdotes, que a souberam tornar autêntica e concreta com o testemunho da sua vida.


 

A partir de texto de D. Gualtiero Bassetti
Arcebispo de Perugia-Città della Pieve, presidente da Conferência Episcopal Italiana
In SIR
Trad./adapt.: Rui Jorge Martins
Imagem: Siciliani/Gennari-SIR
Publicado em 03.03.2021

 

 
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