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"Corrupção e pecado", seguido de "Sobre a acusação de si mesmo": Um livro que podia ser do papa

Imagem Cardeal Jorge Bergoglio (papa Francisco) | D.R.

"Corrupção e pecado", seguido de "Sobre a acusação de si mesmo": Um livro que podia ser do papa

Depois do que temos visto, ouvido e lido do Papa Francisco, este livro, ou melhor estes dois pequenos livros, “Corrupção e Pecado - “Sobre a acusação de si mesmo” , num único volume, parecem a repescagem de textos que dificilmente superarão o muito que temos lido e ouvido do Papa.

Ele surpreende-nos todas as manhãs com a sua reflexão pessoal, com a alma que põe nas palavras, a capacidade de síntese e clareza e o dom de dizer discursos teoricamente longos em muitas poucas palavras.. Parece que estudou numa escola de jornalismo, oratória, marketing, publicidade. Junta com a mesma naturalidade história, filosofia, teologia, moral, ascética e mística, para não falar duma abertura de alma e coração, e da proximidade que estabelece com os seus paroquianos, estejam à distância a que estiverem do seu púlpito.

E mais aquele jeito de se fazer entender aos que falam uma língua diferente em conceitos de vida, conceções políticas, linhas éticas, experiências religiosas, detentores de conceitos e preconceitos sobre a Igreja; os zangados com a historia e com a fé e os azedos com a vida.

Este homem com a sua história pessoal, a sua esperança e a sua missão, com um tom de ingenuidade, chega ao mais fundo e definitivo do ser humano.

Santo Agostinho, Santo Inácio, Padres do Deserto, místicos da história, teólogos do Concilio Vaticano II, o povo, seu grande mestre - andam escondidos nos seus discursos e escritos, a dizer no século XXI o que parece uma linguagem arcaica de ritos espiritualistas ou discursos moralizantes .Ainda há pouco, referindo-se à queda do muro de Berlim, citou um monge eremita do século VI, ao dizer que «é mais importante construir pontes que muros».

Por isso é difícil por vezes identificar as arcas novas e velhas que este homem visita e como que nos coloca à mesa o fruto da sua inteligência, investigação - tudo isso trabalhado, daí a sua perene actualidade - pelo coração.

Não sei quantas páginas se exigem a um volume para que possa tomar o nome de livro. Mas este "Sobre a corrupção"  e "A acusação de si mesmo", contém dois textos, ou melhor, três: um sobre a corrupção e pecado, de 2005, preparado para uma assembleia diocesana, outro sobre a acusação de si mesmo (também de 2005), com recortes de Doroteu de Gaza (século VI), destinado a jovens religiosos, e repescado do Boletim de Espiritualidade dos Jesuítas da Argentina em 1984.

Que diz este homem de significativo de forma a ser traduzido para português e transformado num quase livro de bolso integrado pela "Gradiva" com "Breve"? Está certa a colecção. É breve.

O prefácio de Paulo de Morais cinge-se praticamente à primeira parte e sintetiza os seus pontos mais vigorosos que podem resumir-se nisto: «oo pecado perdoa-se, a corrupção não».

E é aqui que Bergoglio se detém, partindo da corrupção como realidade esmagadora do nosso tempo. De todos os tempos. E lembra Catamarca na Argentina. Aqui nada há de especial a demonstrar.

Em Portugal, sobretudo nos últimos tempos, todos os dias é ela, a corrupção, que nos abre as portas para as outras notícias, inspira investigações, vem de longe e de perto, faz do mundo mais que uma aldeia, é como o relâmpago e o trovão com a luz e o estrondo vindos não se sabe bem donde, que deixa a comunidade estonteada, surpreendida, perplexa, impotente, em estado de choque, a remexer nos bolsos a ver quanto lhe roubaram, a ouvir profetas da política, ou economia que mais parecem charlatães, deixando a sociedade num estado de inquietação e por vezes choque. Ou conformada, entristecida por não saber a verdade sobre quase nada, criar a suspeita e transformar-se em a vítima muitas vezes de modo cruel e errada.

«A corrupção - diz Bergoglio - é um processo de morte; quando a vida morre há corrupção. Frequentemente noto que se identifica corrupção com pecado. Na verdade não é bem assim .Situação de pecado e estado de corrupção são duas realidades distintas, embora intimamente ligadas entre si» (pag. 14). «Pecador sim, corrupto não.» O pecador experimenta e aceita a misericórdia do Pai que nos ama e espera sempre. A Bíblia está cheia destas histórias com a festa do encontro e do perdão. «Mas, - diz - quão difícil é que o vigor profético abra um coração corrupto… Está tão fechado na satisfação da sua auto-suficiência que não permite nenhum questionamento».

O problema é ter um coração corrupto. O coração não é a última instância do homem. Refere-se sempre a outra coisa: «onde estiver o teu tesouro, aí estará o teu coração». Mas o coração é o autor e o conservador da corrupção. E do coração passa-se ao tesouro.

Bergoglio anota que a corrupção também atinge o religioso, em tom menor, venialmente, isto é, parcialmente. A palavra corrupção está carregada de sentidos.

Não menos importante é a reflexão sobre a imanência e transcendência. «Poderíamos dizer que o pecado se perdoa mas a corrupção não pode ser perdoada, simplesmente porque na base de toda a atitude corrupta há um cansaço de transcendência perante o Deus que não se cansa de perdoar. O corrupto ergue-se como suficiente: cansa-se de pedir perdão, tranquiliza e engana como escravo do tesouro.»

«O corrupto não se apercebe da sua corrupção. Acontece o mesmo com o mau hálito: quem tem mau hálito dificilmente se apercebe… São os outros que se apercebem que lho devem dizer.» A corrupção mais que perdoada deve ser curada. Ela sabe esconder-se, disfarçar-se.

E no livro surgem diversos exemplos bíblicos que parecem escritos para ilustrar estas histórias: sepulcros caiados de branco, o fariseu e o publicano, etc.

Por exemplo: o discurso do fariseu é um tratado sobre a atitude do corrupto. Até ao considerar-se a medida certa do cumprimento da lei. A corrupção conduz à perda do pudor, da verdade, da bondade, da beleza, da unidade do ser, sob uma capa de desfaçatez pudica.

Com Henri de Lubac, Bergoglio usa uma expressão que irá retomar na exortação Apostólica "Evangelli Gaudium", a «mundanidade espiritual»,um triunfalismo, ou um humanismo pagão, atenuado num sentido comum cristão. O corrupto autoembriaga-se numa antecipação da escatologia, como é o triunfalismo.

«Quando um corrupto está no exercício do poder implica sempre outros na sua própria corrupção. E não deixa crescer em liberdade nem conhece a fraternidade ou a amizade… E é um prosélito, um apóstolo ou militante da sua causa. Convoca, faz doutrina.»

O trabalho do Arcebispo de Buenos Aires faz uma análise das corrupções de Herodes, o Velho, Herodes Filho, Pilatos, fariseus, saduceus, essénios e zelotas, cada qual no seu grau e nas suas funções. E sabe distingui-los de Zaqueu, Mateus, a Samaritana, e Nicodemos, o Bom ladrão, que tinham algo no coração que os salvou da corrupção. Estavam abertos ao perdão.

«A corrupção não é um ato mas um estado pessoal e social, em que nos habituamos a viver. Transforma-se numa cultura. É um caminho pelo qual se vai escorregando.» 

Fico por aqui. De contrário este pequeno texto poderia ficar maior que o livro, que tem uma excelente tradução de Inês Espada Vieira.

 

Cón. António Rego
Apresentação do livro "Corrupção e Pecado, seguido de Sobre a Acusação de Si Mesmo"
Publicado em 16.11.2014

 

Título: Corrupção e Pecado, seguido de Sobre a Acusação de Si Mesmo
Autor: Card. Jorge Bergoglio
Editora: Gradiva
Páginas: 112
Preço: 7,20 €
ISBN: 978-989-616-587-1

 

 
Imagem Capa | D.R.
Em Portugal, sobretudo nos últimos tempos, todos os dias é ela, a corrupção, que nos abre as portas para as outras notícias, inspira investigações, vem de longe e de perto, faz do mundo mais que uma aldeia, é como o relâmpago e o trovão com a luz e o estrondo vindos não se sabe bem donde, que deixa a comunidade estonteada, surpreendida, perplexa, impotente, em estado de choque
A corrupção conduz à perda do pudor, da verdade, da bondade, da beleza, da unidade do ser, sob uma capa de desfaçatez pudica
«Quando um corrupto está no exercício do poder implica sempre outros na sua própria corrupção. E não deixa crescer em liberdade nem conhece a fraternidade ou a amizade… E é um prosélito, um apóstolo ou militante da sua causa. Convoca, faz doutrina.»
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