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Como pôde acontecer?

Foi-me pedido para evocar o Holocausto e as suas implicações para o século XXI. Para mim isso representa uma tarefa urgente, e todavia impossível. Apesar de tudo o que foi escrito, e apesar daquilo que eu próprio pude dizer nos meus testemunhos, trata-se de um acontecimento que concerne o indizível. Semelhante ao “Shem Hameforash”, o “Nome inefável”, envolvemo-lo em silêncio para melhor dele nos compenetrarmos.

É verdade que graças às importantes publicações de alguns grandes historiadores, teólogos, pensadores e literatos, conhecemos os factos salientes: as datas, os números, as estatísticas. Mas Auschwitz situa-se acima dos factos; Treblinka desafia tanto o conhecimento quanto a linguagem. Indubitavelmente sabemos aquilo que os assassinos fizeram às suas vítimas, mas nunca saberemos aquilo que as vítimas experimentaram nas trevas que precederam a sua morte. Entre as verdades nascidas deste acontecimento, há aquelas que os mortos levaram para o céu, tornado o seu cemitério. E os mortos calam. E ninguém tem o direito de falar no seu nome. Digo bem: ninguém. Quer seja por razões políticas, ou económicas, ou judaicas, ou ainda outras. Os mortos calam: respeitemos o seu silêncio.

Como o profeta Jeremias, alguns de nós não cessam de repetir: “Anì ha-ghever” («Eu sou o homem que viu a aflição», Lamentações 3,1). Nós estávamos lá, no coração das chamas noturnas, e no entanto não conseguimos compreender o que tinha sucedido. Como pôde acontecer que um povo civilizado, culto e orgulhoso dos seus pensadores, dos seus poetas, dos seus artistas, dos seus músicos, tenha podido produzir um sistema integralmente dedicado ao culto do poder e da morte? Como pôde ter sido possível um Hitler? Como é que Auschwitz pôde irromper na História até se tornar um monstruoso buraco negro, uma criação paralela à do mundo exterior, um lugar onde os assassinos foram para matar e as vítimas para morrer?

Leio tudo aquilo que é publicado sobre o Holocausto, e quanto mais leio, menos compreendo. Não compreendo os assassinos, e não compreendo também as suas vítimas. As duas categorias manifestavam uma demência quase absoluta. Que significa a lógica escura, dura e implacável dos velhos melancólicos que murmuravam orações ardentes que Deus não escutava? E aquelas crianças aterrorizadas que já nem sequer choravam? E aquelas mulheres jovens e belas que sacudiam a cabeça como que a dizer não à vida? Loucos e príncipes de ar perdido que formavam cortejos mudos, sob um céu de chumbo, para um altar em chamas – quem ousaria dizer «eu compreendo»?

Alguns documentos, redigidos pelos próprios assassinos, insistem na sua própria incapacidade de compreender. Porque é que aqueles judeus não se desesperam? Porque é que não se deram à fuga, mesmo ao preço de se fazerem-massacrar nas estradas e entre os campos? Porque é que iam morrer com tanta resignação? Em Babi Yar, onde estive, vi… Babi Yar – durante algum tempo convenci-me – devia estar longe, muito longe de Kiev. Mas não é assim. Babi Yar era em Kiev. Havia uma estrada que conduzia àquela ravina, e trinta e três mil homens, mulheres, crianças, em setembro de 41, pouco tempo após a chegada dos alemães, trinta e três mil pessoas que formavam uma espécie de procissão infinita percorreram aquela estrada. Ora, havia gente que habitava nas casas naquela estrada. E quando cheguei a Kiev, coloquei a pergunta ao presidente da Ucrânia: «Diga-me se uma só porta se abriu para fazer entrar uma criança, dizendo-lhe: “Depressa!”.

Ouviam-se então as metralhadoras crepitar, ouviam-se, às vezes, os gritos, e também o silêncio. E no entanto, salvo algumas raras exceções, os condenados foram para lá. Foram para lá. Foram para lá. E eu li um documento em que um dos assassinos afirmava que estava a enlouquecer. Ele tornava-se louco. É possível que os judeus de Babi Yar e de Ponar e de Treblinka e de Minsk e de Pinsk e de onde fosse tivessem simplesmente querido exprimir o seu desdém, o seu desprezo pela sociedade, como se tivessem querido declarar: «Escutai, gente corajosa, se este é o vosso mundo, nós não o queremos»? Ao tempo não sabíamos. Não sabíamos que o mundo livre sabia. De outra forma, acreditai-me, não teríamos conseguido resistir.


 

Elie Wiesel (1928-2016)
Sobrevivente ao Holocausto
In “"Il mondo sapeva. La Shoah e il nuovo Millennio" (O mundo sabia. A ‘Shoah’ e o novo milénio) (Avvenire)
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: D.R.
Publicado em 25.01.2019

 

 
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