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Como pode a Igreja responder ao avanço da ordem iliberal internacional?

A Igreja pode «provocar uma mudança social» da atual «ordem mundial iliberal», mas antes é preciso saber que resposta é que o catolicismo vai dar aos desafios que estão a ser colocados à sua doutrina social «nos bastiões católicos tradicionais, como a Polónia, Itália, Áustria e Alemanha», sem esquecer a emergência de autocracias na Europa centro-oriental. E é também preciso questionar se a Conferência Episcopal dos EUA «conseguirá exercer uma liderança em linha com aquela que foi testemunhada por João Paulo II, e mais recentemente por Francisco, propositiva e aberta ao mundo».

Estes questionamentos são colocados pelo padre norte-americano Drew Christiansen na mais recente edição da revista italiana “La Civiltà Cattolica”, onde acentua que «o desafio fundamental que a Igreja deverá apoiar é o de defender a dignidade da pessoa humana e a integridade da criação, num ambiente de chauvinismo, xenofobia e desprezo pelo outro».

A Igreja «não estará só neste esforço, tendo em conta a ordem liberal deu origem a muitas instituições, grupos de voluntariado e movimentos, que por seu lado podem agir em nome do bem comum», e encontrará recursos «na sua doutrina social, na prática do ministério social e, sobretudo, nas fontes espirituais da qual se recolhe a esperança nos tempos mais sombrios», escreve o religioso jesuíta.

O “distinguished professor” da universidade de Georgetown recorda que «ao longo da história o catolicismo já soube iluminar o caminho para superar tempos escuros», e mostra-se convicto de «saberá voltar a fazê-lo».

«Em que se tornarão a doutrina social e o ministério pastoral da Igreja perante uma política mundial iliberal, em que crescem autocratas e tiranos, são pisados e negados os direitos humanos universais, a riqueza económica torna-se cada vez mais iníqua, os acordos não são respeitados e o Estado de direito é ignorado?»



Christiansen parte da consideração de que «no tempo a seguir ao concílio Vaticano II, o catolicismo social, que se inspira na doutrina social da Igreja, entrecruzou-se com os movimentos e instituições que tinham contribuído para constituir a ordem mundial liberal».

«Uma vez que o concílio Vaticano II, seguindo as diretivas de João XXIII na encíclica “Pacem in terris”, superou o antimodernismo, a Igreja tornou-se um dos principais promotores dos valores associados ao ordenamento liberal, defendendo os direitos humanos, apoiando a democracia, favorecendo um desenvolvimento socioeconómico equitativo, e assumindo a iniciativa, quer no diálogo ecuménico, quer no inter-religioso», assinala.

Esta é a história recente; será suficiente para inspirar a atualidade? «Hoje, é preciso perguntar: em que se tornarão a doutrina social e o ministério pastoral da Igreja perante uma política mundial iliberal, em que crescem autocratas e tiranos, são pisados e negados os direitos humanos universais, a riqueza económica torna-se cada vez mais iníqua, os acordos não são respeitados e o Estado de direito é ignorado, os refugiados e os migrantes económicos tonam-se um subproletariado sem direito de cidadania, as religiões são invocadas para propósitos nacionalistas e as exigências essenciais da justiça são desprezadas?».

A «decomposição da ordem mundial liberal está em curso há uma década, mas nos últimos dois anos sofreu uma aceleração brusca em muitos países europeus, e não só», como é o caso do “America first” do presidente dos EUA, Donald Trump.

Os bispos da Europa centro-oriental serão capazes de dar à autocracia nativista o mesmo género de resposta unitária que deram ao “império” comunista em 1980? E os bispos dos países em vias de desenvolvimento, serão capazes de guiar as suas nações na defesa dos direitos humanos e da democracia, como fizeram nos anos 80 e 90?



«Como pode responder o catolicismo ao avançar da ordem mundial iliberal? O exemplo pessoal do papa em relação às migrações e ao cuidado pelos sem-abrigo conquistou a admiração do mundo, assim como as suas iniciativas sobre as alterações climáticas e sobre o desarmamento nuclear derem impulso a posições amplamente partilhadas por movimentos populares, pela sociedade civil e por governos de todo o planeta», aponta.

Porém, nos tempos recentes, os católicos têm olhado mais para si do que para fora: «A atenção da Igreja está agora distraída pela necessidade de purificação interna e pela sua reforma, em resposta à crise dos abusos sexuais do clero. Mas quando essa reforma ficar completa, a Igreja estará pronta para enfrentar os desafios à sua doutrina social que lhe chegam de tantas fontes?».

Logo depois, o autor especifica a interrogação: «Qual será a sua resposta na Europa, sobretudo nos bastiões católicos tradicionais como a Polónia, Itália, Áustria e Alemanha? Os bispos da Europa centro-oriental serão capazes de dar à autocracia nativista o mesmo género de resposta unitária que deram ao “império” comunista em 1980? E os bispos dos países em vias de desenvolvimento, serão capazes de guiar as suas nações na defesa dos direitos humanos e da democracia, como fizeram nos anos 80 e 90? A Conferência Episcopal dos EUA conseguirá exercer uma liderança em linha com a testemunhada por João Paulo II, e mais recentemente por Francisco, propositiva e aberta ao mundo?».

O investigador considera que «as tensões iliberais e populistas estão a inverter os modos habituais de agir em muitas frentes. Após o “Brexit”, o Reino Unido, e talvez também a Europa, estarão provavelmente pior do ponto de vista económico. A experiência do “Brexit” provocou uma crise política sem precedentes. A Itália, após 10 anos de estagnação económica, teve de aderir aos limites financeiros europeus para manter de pé o seu governo. Na Hungria, o governo não descansou enquanto não deu vida a uma lei que permite às empresas pedir aos empregados até 400 horas extraordinárias. Depois das derrotas eleitorais nas eleições estaduais, a própria Alemanha, que durante décadas foi a potência-guia na Europa, parece em dificuldade».

«O modelo profético, da convocação e o do serviço são compatíveis entre si e propõem estratégias sobreponíveis, que podem ser utilizadas – e de facto já o são – para enfrentar a ordem mundial iliberal»



O autor propõe, de seguida, três vias para que a Igreja possa «provocar uma mudança», começando pelo «modelo do serviço», que a conduz a defender os direitos humanos, promover a unidade da família humana e assumir o cuidado pelas pessoas carenciadas, as vítimas da exploração e aquelas que vivem à margem da sociedade.

Depois, «o modelo de convocação», isto é, o facto de que, «enquanto organismo público, a Igreja tem a particular vantagem de abraçar uma vasta gama de grupos, por vezes em conflito entre eles, e os bispos, como guias das comunidades, têm a capacidade de as congregar para discutir problemas públicos. O modelo da convocação interpela a Igreja através dos bispos, as dioceses, as conferências episcopais, a cúria romana e o próprio papa: todos acolhem instâncias diferentes por amor do bem comum». Por fim, o «modelo profético», mostrado por João Paulo II ou, «com as suas viagens a Lampedusa e a Lesbos», pelo papa Francisco.

«Os modelos aqui propostos não se excluem: representam diversos aspetos da Igreja e várias estratégias para a prática sociopastoral», explica o P. Christiansen. «O modelo profético, da convocação e o do serviço são compatíveis entre si e propõem estratégias sobreponíveis, que podem ser utilizadas – e de facto já o são – para enfrentar a ordem mundial iliberal», salienta.

 

Iacopo Scaramuzzi
In Vatican Insider
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: DmyTo/Bigstock.com
Publicado em 14.03.2019

 

 
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