

Ruy Cinatti | D.R.A Casa Fernando Pessoa, em Lisboa, realiza esta segunda-feira, 30 de março, um colóquio para evocar a figura do poeta Ruy Cinatti, de quem se assinala em 2015 o centenário do nascimento.
O debate tem como intervenientes Fernando Martinho, professor aposentado da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, e o padre Peter Stilwell, reitor da Universidade de S. José, em Macau.
Peter Stilwell é o autor da obra "A condição humana em Ruy Cinatti (Editorial Presença, 1995), que se baseia na tese de doutoramento do poeta português que morreu em 1986.
Neste volume, que o presidente do Centro Nacional de Cultura, Guilherme d'Oliveira Martins, classifica de «fundamental» para compreender o percurso de Cinatti, Peter Stilwell analisa escritos autobiográficos, então inéditos, articulando-os com diferentes dimensões da obra publicada
«Fui desmontando essas arcas e preparando a documentação toda para ser entregue na biblioteca da Universidade Católica e vi que havia uma caminhada espiritual feita no meio da sua vida profissional e pessoal; estava em luta consigo próprio e com as grandes questões da época: o desenvolvimento, o colonialismo», explicou o autor em entrevista ao "Jornal Tribuna de Macau".
Ruy Cinatti «faz um discernimento utilizando a linguagem religiosa como fermento e não como alienação da realidade. Ele era um cientista com um sentido de objetividade, por um lado, mas por outro com consciência que essa leitura objectiva da realidade é só uma parte, depois há a dimensão ética», sublinhou o teólogo.
Em Timor, território a que ficou profundamente ligado, Ruy Cinatti foi secretário da Agricultura, e nesse cargo uniu o saber científico à ética e à espiritualidade, exemplificou o reitor da instituição ligada à Universidade Católica Portuguesa.
«Nas suas histórias [Cinatti] mostra a sabedoria acumulada durante séculos que não é científica, no termo ocidental da palavra, mas que parte da experiência e da relação como a realidade mais ampla que é o universo e o sentido da vida humana», acrescentou Peter Stilwell.
«Timor foi para mim a poesia personificada durante os anos que lá permaneci, repare-se que eu pouco escrevi enquanto em Timor. Eu não necessitava de criar poesia porque ela existia ali à mão, oferecendo-se gratuita, generosa e fácil, fonte de alegria e consoladora de tristeza», escreveu Ruy Cinatti.
A sessão na Casa Fernando Pessoa, com entrada livre, está marcada para as 19h00.
Tau
Ruy Cinatti
O tempo passa tão devagarinho
quando Tu passas, meu Deus,
e quando a velocidade é repentina
eu fico alucinado, perdido de todo,
ruído de barracas de feira, de comícios de partido,
de qualquer coisa, enfim, o hino nacional,
um cântico religioso, um blue,
Harry Belafonte, Ella Fitzgerald, outros e outras,
bêbedos, drogados, sim ou não, inoculados, imunizados quando te honram nos seus spirituals,
tanto se me importa...
Eu quero é ouvir invocar o Teu nome, ó Senhor meu, em nome coletivo e também só meu
e adormeço sossegado, humilde e consciente
de que Te amo muito mais do que a mim
aos Outros que desconheço e de quem gosto muito, ó indivíduo Emmanuel.
O Poder e a Glória, esses Teus atributos,
e eu, Ruy Cinatti, agradecido cão,
que olha líquido pró olhar do Dono, ó Coisa inefável!...
um trilo pastoril de flauta na Serra da Estrela, Marão ou no Suajo - transumância, eu quero mudar de vida! -
ou em Timor-Ocússi... Atóni, Atóni... chamam por ti, homem, tantos homens te procuram
ó desgraçado Mau Bére... ó Timor meu Amigo.
Ó Pastor, procura-a, não deixes que se perca a Tua ranhosa ovelhinha...
A palavra cala-se, a boca fede, o silêncio é de oiro
O silêncio é de oiro, a palavra cala-se, a boca sorri
e depois, ó maravilha de delicadeza, Tu salvas a nossa Vida!
Edição: Rui Jorge Martins
Ruy CInatti | D.R.
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