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Cardeal-patriarca elogia «resiliência» do Estado e sublinha «urgência» da «contemplação»

D. Manuel Clemente elogiou hoje a «resiliência» do Estado durante a pandemia, criticou as conceções que defendem o enfraquecimento dos serviços estatais, acentuou a «urgência» de educar para a «contemplação» como «antídoto» para o consumismo, mostrou-se otimista quanto à recuperação do país e revelou que, com o confinamento, a Igreja chegou a quem antes não a via e escutava.

Na iniciativa “O mundo de amanhã”, por ocasião dos 31 anos do “Público”, o cardeal-patriarca concordou com o primeiro-ministro, António Costa, que ao jornal afirmou que a crise foi «o maior atestado do falhanço das visões neoliberais», considerou que o Estado «superou muita expetativa negativa» e foi «notável», especialmente no Serviço Nacional de Saúde e no sistema educativo, tendo-se mostrado de «enorme valor para que ninguém fique de fora».

«A sobrevivência económica» de pessoas e famílias está «em primeiríssimo lugar», assim que for «encaminhado» o problema sanitário - sem esquecer a dimensão mental -, seguindo-se a reabilitação do sistema escolar, são, no entender do prelado, algumas das prioridades do país, que, além suporte do Estado, tem contado com a «enorme força» proveniente da «espontaneidade social» e da conjugação entre os setores público e privado.

O cardeal-patriarca está convicto de que a pandemia vai alterar estilos de trabalho e de vida - «vamos ter mais cautela nos contactos», por exemplo nas «expressões afetivas» - e defendeu que a vacinação tem de ser universal, não só pelo motivo basilar da «filantropia», mas também porque é essencial para a retoma da atividade económica, em particular do turismo - «ou o problema se resolve em todo o lado, ou não se resolve em lado nenhum».



De maneira a superar «o consumismo e a sua violência», que arrasta consigo o menosprezo do valor das coisas e sobretudo «das pessoas, mas também a criação artística e cientifica», torna-se fundamental a contemplação, para o desenvolvimento, desde criança, de «capacidades que não têm a haver com o consumo no sentido materialista do termo



Para D. Manuel Clemente, a Igreja soube adaptar-se às limitações impostas pela suspensão das celebrações litúrgicas públicas, «não esmoreceu, antes encontrou outra forma de se manifestar» através de um número «incontável» de iniciativas, com as paróquias a desenvolverem significativamente a dimensão digital, que «não tem comparação» com o que havia há um ano.

«Chegámos a muita gente a quem não chegávamos», afirmou, dando o exemplo da Semana Santa do ano passado, quando cerca de 30 mil pessoas assistiram, pela internet, às celebrações a que presidiu, número inalcançável num espaço com a sé de Lisboa, num contexto sanitário que favoreceu o crescimento da «procura interior».

Referindo-se aos tratamentos médicos que foram colocados em segundo plano para dar prioridade ao combate à pandemia, o cardeal-patriarca defendeu que se não conseguir deter o contágio do Covid-19 também não se conseguem resolver outros problemas de saúde.

Na intervenção que começou por se centrar na espiritualidade, D. Manuel Clemente aprofundou quatro números da encíclica “Laudato si’”, do papa Francisco, tendo referido o «problema fundamental» da ausência de sensibilidade para a aprendizagem da contemplação, que se tornou especialmente patente durante os confinamentos.



«O consumo é natural», mas «quando vale só por si» torna-se «muito violento», e não acontece sem colocar em perigo «a existência dos outros», defendeu o cardeal-patriarca, que apontou o Iraque, nestes dias visitado pelo papa Francisco, como «caso típico» em que o consumismo «foi contra o que devia ser respeitado em termos de direitos humanos»



De maneira a superar «o consumismo e a sua violência», que arrasta consigo o menosprezo do valor das coisas e sobretudo «das pessoas, mas também a criação artística e cientifica», torna-se fundamental a contemplação, para o desenvolvimento, desde criança, de «capacidades que não têm a haver com o consumo no sentido materialista do termo».

«O consumo é natural», mas «quando vale só por si» torna-se «muito violento», e não acontece sem colocar em perigo «a existência dos outros», defendeu o cardeal-patriarca, que apontou o Iraque, nestes dias visitado pelo papa Francisco, como «caso típico» em que o consumismo «foi contra o que devia ser respeitado em termos de direitos humanos» e «tem originado violências sobre violências».

Referindo-se aos números 202, 204, 215 e 225, D. Manuel Clemente sublinhou que é «muito importante reter» a origem comum dos seres humanos, conceito que «nem sempre foi entendido» e que é objeto de «atentados», explícitos uns, subtis outros.

Desta perceção emergem a noção «recíproca pertença» dos seres humanos, «cada vez mais evidente» pelo facto de nada se resolver unicamente dentro de fronteiras, a visão de um «futuro partilhado por todos», a «questão ecológica» - «o ambiente, como a espiritualidade, não tem fronteiras» - e o cuidado pelo «bem comum».









 

Rui Jorge Martins
Imagem: D.R.
Publicado em 05.03.2021

 

 
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