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"Brotéria" analisa expulsão e restauração dos Jesuítas em Portugal

Imagem Aula da Esfera, coordenada pelos Jesuítas, em Lisboa | D.R.

"Brotéria" analisa expulsão e restauração dos Jesuítas em Portugal

«Inicialmente expulsa, começando por Portugal, mas no final extinta pelo próprio papa, pressionado pelas potências europeias de então, só em 1814 (51 anos depois) é que foi restaurada por outro Papa»: referimo-nos à Companhia de Jesus, cuja história deste período é revisitada no mais recente número da "Brotéria".

No editorial, assinado pelo diretor da revista publicada pelos Jesuítas portugueses desde 1902, é explicado que as causas daqueles acontecimentos «são múltiplas e não lineares», a começar pela «indiscutível e até agora inexplicada "viragem" nos sentimentos do todo-poderoso Marquês de Pombal» contra a congregação, apesar de ter sido esta a introduzi-lo na corte.

António Vaz Pinto avança ainda com outros motivos, como «o iluminismo, os interesses do colonialismo português no Brasil, o papel preponderante da Companhia de Jesus na educação e formação da juventude portuguesa» e «o valimento junto da corte», entre outros fatores. 

«O "absolutismo régio", tão típico do sé. XVIII, não podia aceitar qualquer contrapoder ou mesmo a partilha de poder», aponta o diretor, sublinhando que se assistiu a «um combate ideológico e panfletário, e muito concretamente se acusou a estagnação cultural e científica da Companhia de Jesus, nas suas universidades e colégios: atrasados, presos a Aristóteles, incapazes de compreender Galileu, avessos ao ensino científico e experimental».

Parte significativa «do grande trabalho científico e histórico de Henrique Leitão», eleito "Prémio Pessoa 2014", tem sido «o de "refazer" a história da ciência; não no sentido de a corrigir e embelezar, antes ultrapassando afirmações vazias e mitos instalados», possibilitando «outra visão, fundamentada, do papel da investigação e da ciência em Portugal e na Companhia de Jesus, até agora silenciado», aponta o editorial.

No primeiro estudo da revista, "Portugal e a restauração da Companhia de Jesus", Nuno da Silva Gonçalves, SJ descreve seis etapas fundamentais na história dos Jesuítas no que diz respeito à sua restauração em Portugal e no Oriente, 200 anos após a revogação pontifícia de a suprimir.

"O que celebram os Jesuítas em 2014?", "Da expulsão pombalina de 1759 à supressão da Companhia de Jesus em 1773", "O relatório do embaixador D. Alexandre de Souza e Holstein (1803)", "A reação portuguesa à restauração universal da Companhia de Jesus", "A primeira tentativa de restauração da Companhia de Jesus em Portugal" e "A restauração que vem até aos nossos dias" constituem as secções do artigo.

Por seu lado, António Júlio Trigueiros, SJ centra-se na "Expulsão, exílio e supressão dos Jesuítas na Assistência Lusitana", descrevendo «todo o gigantesco processo de desmantelamento da Assistência de Portugal da Companhia de Jesus, composta por sete províncias (Portugal, Brasil, Maranhão, Goa, Malabar, China e Japão), resultante da lei de 3 de setembro de 1759 que expulsou os Jesuítas de Portugal e dos territórios ultramarinos».

«Após a aplicação das três grandes medidas implementadas pela política pombalina com vista ao extermínio da Companhia de Jesus em Portugal (prisões, secularização e desterro), procuraremos reconstruir sumariamente o longo périplo geográfico e humano efetuado pelos mais de um milhar de exilados portugueses, ao longo da segunda metade do século XVIII pelos territórios do Estado Pontifício», explica o autor.

"Quatro príncipes japoneses de visita a Lisboa" é o tema do artigo de António Maria Marques Henriques, aventura que constitui «um marco histórico no processo de relacionamento entre os dois países».

Em 1582, o padre Alexandre Valignano, que se deslocara ao Japão como enviado do superior geral, «tomou a decisão de organizar uma embaixada à Europa de representantes dos senhores feudais de Kyushu, na intenção de dar a conhecer pessoalmente aos jovens os principais países da Europa cristã, de modo a atraírem mais missionários e ajudas peara o Japão».

Francisca Branco Veiga analisa "O breve regresso da Companhia de Jesus no reinado de D. Miguel (1829-1834), monarca que «vai reforçar a união entre o Trono e o Altar usando os eclesiásticos para fortalecer a sua causa partidária», tendo sido nesse quadro que se deu a reentrada dos Jesuítas em Portugal.

No estudo "Da extinção à restauração dos Jesuítas: construção e reprodução do mito dos Jesuítas de matriz pombalina no século XIX", José Eduardo Franco salienta que «mesmo depois da queda do Marquês de Pombal em 1777 e com a morte de D. José I, a maioria dos colaboradores próximos de Pombal mantiveram-se fiéis ao seu ideário e continuaram a contribuir para a reprodução da ideologia anti-jesuítica».

Nesta corrente encontram-se algumas figuras ligadas à Igreja católica, como o intelectual oratoriano Pereira de Figueiredo, e «Frei Manuel do Cenáculo, outro ideólogo e colaborador de primeira água do Marquês de Pombal e da consignação escrita de textos paradigmáticos do seu antijesuitísmo sistemático».

Francisco Malta Romeiras analisa "A ciência da Companhia de Jesus nos séculos XIX e XX em Portugal", partindo da «acusação de que os Jesuítas teriam sido os principais responsáveis pelo "geral idiotismo"» no país, argumento que «alcançou uma longevidade, uma transversalidade e uma influência absolutamente invulgares».

O investigador lembra que a congregação procurou «rebater as críticas relacionadas com a educação e com a prática das ciências», e por isso promoveu «o ensino experimental das ciências naturais nos seus colégios», tendo fundado a "Brotéria", que se revelou «central para o desenvolvimento» em Portugal de «áreas científicas como a botânica, a zoologia, a bioquímica e a genética molecular».

Hermínio Rico, SJ perspetiva "A presença da Companhia de Jesus em Portugal hoje: desafios da contemporaneidade", começando por situar a congregação nos âmbitos da "Fé e justiça", "Cultura e diálogo inter-religioso", "Descentramento de si mesma", "Colaboração", "Referência ecológica e missão de reconciliação", "Atividade missionária com espiritualidade missionária" e "Fronteiras".

A segunda e terceira partes do artigo incidem nos temas "Continuidade e criatividade" e "Presença em Portugal", com o religioso a defender que «a aposta na colaboração entre jesuítas e não-jesuítas é o caminho».

Este número da "Brotéria", referente aos meses de novembro-dezembro de 2014, inclui o catálogo da exposição bibliográfica que acompanhou o simpósio "Restauração da Companhia de Jesus em Portugal e no Oriente, 1814-2014", realizado em Lisboa no passado mês de junho, e de onde foram extraídas as conferências apresentadas neste volume.

 

Rui Jorge Martins
Publicado em 27.01.2015

 

 

 
Imagem Aula da Esfera, coordenada pelos Jesuítas, em Lisboa | D.R.
Parte do trabalho científico e histórico de Henrique Leitão, "Prémio Pessoa 2014", tem sido «o de "refazer" a história da ciência; não no sentido de a corrigir e embelezar, antes ultrapassando afirmações vazias e mitos instalados», possibilitando «outra visão, fundamentada, do papel da investigação e da ciência em Portugal e na Companhia de Jesus, até agora silenciado»
António Júlio Trigueiros, SJ centra-se na "Expulsão, exílio e supressão dos Jesuítas na Assistência Lusitana", descrevendo «todo o gigantesco processo de desmantelamento da Assistência de Portugal da Companhia de Jesus, composta por sete províncias (Portugal, Brasil, Maranhão, Goa, Malabar, China e Japão)
A congregação procurou «rebater as críticas relacionadas com a educação e com a prática das ciências», e por isso promoveu «o ensino experimental das ciências naturais nos seus colégios», tendo fundado a "Brotéria", que se revelou «central para o desenvolvimento» em Portugal de «áreas científicas como a botânica, a zoologia, a bioquímica e a genética molecular»
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