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Bob Dylan: A canção é a mais alta forma de oração

«A Bíblia atravessa toda a vida dos Estados Unidos, quer as pessoas o saibam ou não. É o livro fundador. O livro fundador dos pais, em todo o caso. Não se pode fugir dela. Para onde quer que se vá, não se pode fugir dela.»

Palavras de Bob Dylan, cantautor distinguido com o prémio Nobel, que há mais de 50 anos incarna o sentido da sua afirmação. De facto, é difícil encontrar uma canção, entre as centenas escritas por Dylan, privada de uma referência, ainda que indireta, à grande arca de imagens, figuras, temas e sugestões contidas no texto bíblico.

Desta relação ocupou-se o investigador Renato Giovannoli, que publicou uma obra em três volumes, “A Bíblia de Bob Dylan” (ed. Ancora, 2017-2018), texto que é considerado o guia mais completo para a Bíblia segundo Bob Dylan, ou para Bob Dylan segundo a Bíblia, porque muitas são as introduções possíveis a Dylan: musicais, poéticas, sociológicas, políticas. Mas a Bíblia é o acesso privilegiado.

Partindo de 1961, a obra termina em 2012, isto é, em “Tempest”, o último álbum com textos originais de Dylan, passando pela décadas de 1978-1988, intitulada “O período ‘cristão’ e a crise espiritual”).

Dylan, que atuou em Portugal este ano, em maio, no Porto, teve sempre consciência da dívida para com a Sagrada Escritura, não só e não tanto com a Bíblia hebraica, como se poderia pensar dada a origem semita de Robert Allen Zimmerman, nascido de Abraham e Betty em Duluth a 24 de maio de 1941, mas sobretudo com a Bíblia cristã, mais precisamente a versão “King James”, o “grande códice da literatura ocidental”.



É “fácil” falar do período 1962-1978, “idade de ouro” da música de Dylan: para os fãs nostálgicos há muito pouco para além dos anos 70; e é ainda mais fácil, para uma investigação de fundo bíblico, encarar a década seguinte, o período denominado “cristão”, riquíssimo de citações, mas os últimos 30 anos são um terreno difícil, e todavia repleto de surpresas



A 27 de dezembro de 1967, Dylan publica o álbum “John Wesley Harding”, o «primeiro disco de rock bíblico», segundo a definição que o próprio cantautor dará a este álbum de música country, que inclui, entre outras, uma faixa clássica e imortal como “All along the watchower”, que se deve ler tendo ao lado o capítulo 21 de Isaías.

Trinta anos depois, na noite de 30 de setembro de 1997, em Bolonha, um Bob Dylan mais rouco do que habitualmente canta três músicas suas clássicas na presença de João Paulo II. Não canta “Blowin’ in the wind”, mas o idoso pontífice, erguendo-se e saudando os artistas e a multidão que tinha acorrido ao evento, toma a palavra e comenta precisamente aquela canção emblemática de toda a obra de Dylan, e exclama: «Aquele vento que sopra de que fala a canção, é o Espírito!».

Na manhã desse mesmo dia tinha saído, em todo o mundo, o 30.º álbum do cantor do Minnesota, “Time out of mind”, multipremiado, e por muitos considerado o melhor das últimas décadas, um álbum que, observa Giovannoli com precisão, é «privado de qualquer alegria, e com pouquíssimos acenos de esperança, principalmente dirigida ao além. Mas, precisamente, como acontece em muitas páginas bíblicas, a dor não exclui a fé».

A “Time out of mind” é dedicada a parte principal do terceiro volume, de alguma forma o mais interessante dos três. Com efeito, é “fácil” falar do período 1962-1978, “idade de ouro” da música de Dylan: para os fãs nostálgicos (um contrassenso, dada a aversão do autor a este sentimento) há muito pouco para além dos anos 70; e é ainda mais fácil, para uma investigação de fundo bíblico, encarar a década seguinte, o período denominado “cristão”, riquíssimo de citações, mas os últimos 30 anos são um terreno difícil, e todavia repleto de surpresas.

É sobretudo a partir precisamente do álbum de 1997 que o acesso à Bíblia se torna “mediado”, isto é, passa através do filtro da tradição popular, como se Dylan quisesse «compor a sua enciclopédia da música e da poesia popular americana».

Afirma Dylan numa entrevista naquele mesmo ano: «Eu encontro a religiosidade e a filosofia na música. (…) Estas velhas canções são o meu vocabulário e o meu livro de orações». Canções como orações, lembra uma frase de Dylan, em 1976: «A mais alta forma de canção é a oração: a do rei David e de Salomão, o lamento do coiote, o rumor da terra».

Aqui poder-se-ia reabrir a velha questão da relação entre canção, poesia e oração, que deve permanecer aberta em obséquio ao caráter inquietante da arte em geral e da arte de Dylan em particular. Podemos só observar que a última estrofe de “Roll on John”, última canção escrita por Dylan (faz sete anos que não sai um álbum seu de originais, uma eternidade para um autor tão prolífico), é uma oração que cita de um só penada William Blake, a “Odisseia” e o Salmo 25, ao ponto de que emerge a suspeita que o John a que é dedicada a canção talvez não seja apenas John Lennon, mas também o quarto evangelista, de todos o mais misterioso.


 

Andrea Monda
In L'Osservatore Romano
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: D.R.
Publicado em 24.07.2019

 

 
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