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Bibliotecas, hospitais da alma

Imagem Biblioteca do Palácio Nacional de Mafra | D.R.

Bibliotecas, hospitais da alma

Reinava então no Egito Ptolemeu I Sóter (323-285 a.C.), general de Alexandre Magno. Da Grécia, e mais precisamente de Abdera, na Trácia, tinha partido para visitar o Egito um historiador, Hecateu. Havia subido o Nilo até Tebas, a antiga capital faraónica das cem portas, cada uma, segundo Homero, tão ampla que permitia a passagem simultânea de 200 armadas com os seus carros e cavalos.

Mas o sonho de Hecateu, que teria narrado a sua aventura nas suas “Histórias do Egito”, era o de transpor o umbral do “Ramesseum”, célebre mausoléu de Ramsés II, o faraó que tinha triunfalmente ocupado com a sua história quase todo o século XIII a.C.

Hecateu tinha transposto esse portal de 60 metros de comprimento e 20 de altura, tinha passado peristilos, salas, quartos, câmaras e passagens, e até encontrou o sarcófago faraónico, marcado por uma inscrição sibilina: «Se alguém quer conhecer o quão grande sou e onde me encontro, supere uma das minhas obras».

Mas no fim o historiador de Abdera deteve-se, aturdido, diante de um portal sobre o qual se destacava um escrito que ele traduziu assim para grego: “psychès iatreion”, “lugar de cura da alma”. O que era essa “clínica do espírito”? A resposta, Hecateu teve-a quando nela entrou: era a biblioteca sagrada de Ramsés.

Naturalmente hoje nada resta daquela sala e dos seus conteúdos. Não nos restaria também nada das “Histórias do Egito” se não fosse, dois séculos e meio depois, Diodoro Siculo, que visitou o “Ramesseum” tendo na mão aquela espécie de “guia” escrito por Hecateu, transcrevendo-o nos pontos mais significativos.

É verdade que há também o risco de aquela “clínica” poder não curar, mas produzir patologias da alma. Há, com efeito, formas de bibliofilia que podem decair em bibliomania. Aquelas nunca geram cultura, no máximo erudição; não enriquecem, mas enfraquecem o espírito.

A biblioteca, realmente, pode também ser sede de dispersão, bem tipificada pela “Biblioteca de Babel”, conto da recolha “Ficções”, de Jorge Luis Borges. Já o redator final do livro bíblico de Qohélet [Eclesiastes] advertia que «se fazem livros e livros sem fim» (12,12). E a 5 de fevereiro de 1828, o poeta Giacomo Leopardi, no seu “Zibaldone”, anotava que «se pode dizer em verdade, máxima em Itália, que é maior o número de escritores do que o de leitores (já que grande parte dos escritores não lê, ou lê menos do que escreve)».

Mas, felizmente, a biblioteca pode ser sobretudo sede do espírito, na sua forma mais alta e mais nobre. É por isso que é preciso bater-se para a tornar cada vez mais viva, funcional, aberta, capaz de transmitir aquela respiração da alma que durante séculos teve a tarefa de comunicar. Não é por acaso que Frederico, o Grande, em 1780, no frontão da Biblioteca Real de Berlim tenha inscrito o título “Nutrimentus spiritus”.

Certamente que há um aspeto também “técnico” a considerar. Ele manifesta-se agora com a chegada da civilização informática, que deu origem não só a novos modelos de catalogação, mas a uma verdadeira e inédita biblioteconomia, com acessos diretos e imediatos aos livros guardados nas bibliotecas mais díspares do mundo, sem ser preciso viajar para ir ao seu encontro.

Mas é sobretudo o espírito que nas bibliotecas celebra a sua liturgia. Entre parêntesis, não se deve esquecer que os mosteiros – e “O nome da rosa”, de Umberto Eco, recordou-o ao grande público – acolhiam bibliotecas extraordinárias. Um aforisma medieval não hesitava em afirmar que “claustrum sine armario, quasi castrum sine armamentario” - «um mosteiro sem estantes é como uma praça-forte sem armamento». E a rainha das bibliotecas não está numa corte imperial nem numa metrópole histórica, mas no Vaticano!

Ligada à Biblioteca do Vaticano está a Biblioteca Joseph Ratzinger, onde se respira a presença de Bento XVI. E é precisamente a ele que queremos dar a palavra com uma sua curiosa “confissão”, testemunhada durante a sua visita à Biblioteca Apostólica do Vaticano, em 25 de junho de 2007:

«Confesso que quando fiz 70 anos, tinha desejado muito que o amado João Paulo II me concedesse poder dedicar-me ao estudo e à investigação de documentos interessantes e peças por vós cuidadosamente guardados, verdadeiras obras-primas que nos ajudam a percorrer a história da humanidade e do cristianismo. Nos seus desígnios providenciais, o Senhor estabeleceu outros programas para a minha pessoa, e eis-me aqui hoje, entre vós, não como estudioso apaixonado de textos antigos, mas como pastor».

Na verdade, mesmo como pastor da Igreja universal, Bento XVI não cessou de guardar em si a alma de cultor da palavra e do livro, mesmo sem residir e passar os seus dias na «acolhedora casa de ciência, de cultura e de humanidade, que abre as portas a estudiosos provenientes de todos os cantos do mundo, sem distinção de proveniências, religião e cultura», como aos seus olhos era a Biblioteca do Vaticano.

A atual coletânea dos escritos dele e sobre ela atesta o seu extraordinário currículo de estudioso, teólogo, leitor. É surpreendente, com efeito, entrever em filigrana nas suas páginas não só o aparato imponente das suas leituras patrísticas, exegéticas, teológicas e filosóficas, mas também as incursões na literatura e cultura “laicas”: por exemplo, na sua conhecidíssima “Introdução ao cristianismo” entreveem-se, junto aos clássicos da teologia, autores como Bernanos, Buber, Camus, Hölderlin, Lucrécio, Nietzsche, Sartre, entre outros.

Mas, como dizia, também no seu ministério petrino Bento XVI não cessou de guardar o seu amor pela palavra e pelo livro, convicto – como dirá noutra mensagem dirigida ao Bibliotecário da Santa Igreja Romana, o cardeal Raffaele Farina, a 9 de novembro de 2010 – de que «a abertura, verdadeiramente católica, universal, a tudo o que de belo, de bom, de nobre, de digno (cf. Fil 4,8) que a humanidade produziu no curso dos séculos» deve ser sempre acolhida, porque «nada de quanto é verdadeiramente humano é estranho à Igreja».

Escutemos o célebre discurso ao mundo da cultura no Colégio dos Bernardinos de Paris, a 12 de setembro de 2008: «A procura de Deus requer por exigência intrínseca, uma cultura da palavra (…). Escatologia e gramática estão intimamente conexas uma com a outra. O desejo de Deus inclui o amor pelas letras, o amor pela palavra». A esta luz «tornam-se importantes as ciências profanas que nos indicam as vias rumo à língua. Uma vez que a procura de Deus exigia a cultura da palavra, faz parte do mosteiro a biblioteca que indica as vias rumo à palavra».

Esta comunhão com a Palavra repete-se de cada vez que a “lectio” [leitura] se transforma em escuta e em intimidade com Deus, mesmo nos momentos mais árduos e extremos, quase como um viático.

É o que recorda Romano Guardini, autor querido de Bento XVI e do papa Francisco, no seu “Elogio do livro”, em que descreve um episódio bélico trágico para um grupo de soldados bloqueados numa trincheira, cercados de inimigos e votados à morte:

«O capelão militar, sentindo que não tinha mais nada aceitável para dizer naquela hora, tirou do bolso o próprio Novo Testamento, arrancou-lhe as páginas e deu uma a cada soldado».

Cumpria-se, assim, uma espécie de extrema comunhão “sacramental” com a Palavra.

 

Card. Gianfranco Ravasi
Presidente do Pontifício Conselho da Cultura
Inauguração da Biblioteca Joseph Ratzinger, Vaticano
In "Avvenire"
Trad.: Rui Jorge Martins
Publicado em 19.11.2015

 

 
Imagem Biblioteca do Palácio Nacional de Mafra | D.R.
A biblioteca pode ser sobretudo sede do espírito, na sua forma mais alta e mais nobre. É por isso que é preciso bater-se para a tornar cada vez mais viva, funcional, aberta, capaz de transmitir aquela respiração da alma que durante séculos teve a tarefa de comunicar
É surpreendente, com efeito, entrever em filigrana nas páginas de Bento XVI não só o aparato imponente das suas leituras patrísticas, exegéticas, teológicas e filosóficas, mas também as incursões na literatura e cultura “laicas”
Esta comunhão com a Palavra repete-se de cada vez que a “lectio” [leitura] se transforma em escuta e em intimidade com Deus, mesmo nos momentos mais árduos e extremos, quase como um viático
«O capelão militar, sentindo que não tinha mais nada aceitável para dizer naquela hora, tirou do bolso o próprio Novo Testamento, arrancou-lhe as páginas e deu uma a cada soldado»
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