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Bach, umbral da fé

«Entrar em certas atmosferas musicais ajuda a reencontrar a fé; uma música ou sinfonia pode funcionar como um João Batista musical, um prenúncio, uma antecâmara. A frequência sonora de certas peças é porventura a frequência mais parecida à emoção que sentimos naqueles momentos em que temos a certeza que Ele está ali ao nosso lado. E aqui a música clássica é imbatível, sobretudo Bach.»

É um «convertido tardio», a sua fé «é uma adolescente insegura», mas tanto amigos como desconhecidos pedem-lhe «conselhos sobre a fé»; e apesar de se «sentir ridículo», o escritor e comentador Henrique Raposo vai «dando conselhos na medida do possível»; um deles relaciona-se com a música, como explica em texto publicado na página da Renascença.

«Nem toda a música clássica tem esta respiração teológica», mas «Bach é diferente», porque «o barroco remete para um tempo mais calmo, para um tempo não histórico, um tempo que não é bem o tempo tal como nós, homens modernos, o concebemos».

«A música de Bach é um eco da eternidade onde não existe essa urgência de direção; é uma música que fica ali a flutuar noutro tempo, um tempo que não tem pressa de ir a sítios; é uma música que está, que é, tem uma gramática de esperança eterna, imutável e circular e não a gramática retilínea da razão que quer completar, fechar, atingir. Sim, Bach ajuda a encontrar a sintaxe do Reino», aponta Henrique Raposo.

Já o presidente do Conselho Pontifício da Cultura lembrava que Albert Schweitzer, importante teólogo e filantropo, «mas também um excelente organista, no seu ensaio sobre Bach citava esta instrução que aquele sumo compositor endereçava aos alunos sobre a maneira de executar o baixo contínuo, ou seja, a linha mais grave da composição, destinada a reger os acordes dos instrumentos mais "polifónicos":

“Deve-se produzir uma harmonia eufónica para a glória de Deus ou para o deleite da mente. Como para toda a música, o fim e a causa final deverão ser a glória de Deus e a recriação da mente”. É evidente como Bach liga o louvor do culto (no topo das suas partituras colocava a sigla SDG, isto é, Soli Deo Gloria) e o prazer estético cultural», ele que defendia que «a música é a máxima expressão da glória a Deus, mas deve ao mesmo tempo causar deleite e recriação da mente».

Para o cardeal Gianfranco Ravasi, esta foi «uma intuição forte» da parte do compositor que nasceu na atual Alemanha em 1685, mas que foi algumas vezes «desatendida no interior da experiência da cultura contemporânea».

«Porque de um lado apenas havia a preocupação com a denominada espiritualidade, portanto pela glória de Deus, e assim [a música] ficava confinada ao devocional; ou apenas havia o interesse pelas composições de qualidade técnica e de qualidade cultural relevante, e então produzia-se música que, substancialmente, não obstante fosse religiosa e até litúrgica, era de concerto», assinalou o prelado italiano.

Ter em consideração ambos os elementos «é uma realidade necessária, decisiva, mas também extremamente delicada», porque é preciso colocar a par «a qualidade estética musical» e a dimensão «de transcendência, de tensão para o culto e para Deus e o seu Cristo».

Para Gianfranco Ravasi, Bach convida «a reencontrar a harmonia como sinal teológico e humano», e a música «pode abrir uma janela para o divino e para o mistério, e pode transfigurar a mente e o coração».


 

Rui Jorge Martins
Fonte (texto de Henrique Raposo): Renascença
Publicado em 23.03.2019

 

 
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