

Johann Sebastian Bach morreu aos 65 anos na noite de 28 de julho de 1750. Nessa manhã, da sua cama, ditou ao seu genro e aluno Johann Christoph Altnickol, também ele organista e compositor, a harmonização de um coral, cujo texto tinha sido escrito por Paul Eber, cerca do ano 1560. Na versão original tratava-se e continua a ser um canto destinado à liturgia protestante do tempo quaresmal. O moribundo Bach, profundamente religioso, aplicou-lhe o título de um outro coral, “Diante do teu trono me apresento”, fazendo dele o seu testamento espiritual.
A poesia de Eber baseia-se num texto latino, composto em 1546 pelo humanista Joachim Camerarius, e musicado depois pelo compositor francês Guillaume Franc (1505-1570), por sua vez coautor das melodias do Saltério Genebrino.
O canto é um hino à confiança em Deus; à penitência há apenas um aceno. Nas sete quadras rimadas em que se compõe é delineada a situação do ser humano, que nos maiores sofrimentos já não sabe onde «procurar ajuda e conselho». Então, só um caminho se abre: «Pedir a Deus a salvação de todo o medo e sofrimento».
É aqui que se enxerta a temática penitencial, porque devemos «levantar para Ele o olhar e o coração com verdadeiro arrependimento e dor, pedindo perdão pelos nossos pecados». A misericórdia de Deus é certa: se nós, abandonados por todos, nos voltarmos para Ele, Ele não olhará para os nossos pecados, mas «em virtude da sua graça está junto de nós em toda a miséria, e libertar-nos-á do mal». A certeza da proximidade divina ao ser humano será, depois, um elemento de fundo no pensamento de muitos teólogos protestantes.
A melodia original, composta por Johann Baptista Serranus (1540-1600) em Sol maior é simples e fica no ouvido. O polifonista Michael Praetorius (1571-1621) elaborou-a para coro a três vozes, enquanto Bach dela fez uma versão para órgão e coro. Seguidamente, também Johannes Brahms (1835-1897) a retomou, em forma de moteto a três vozes.
O canto na versão original depressa entrou igualmente no uso católico, e hoje encontra merecido lugar no repertório oficial “Gotteslob”.
«Ó homem, chora grandemente os teus pecados» é o início do coral que conclui a primeira parte da “Paixão segundo S. Mateus” de Bach. Composto por Sebald Heyden em torno a 1530, e musicado por Matthias Greitter (1495-1550), este canto na sua forma simples tem desde há muito lugar na liturgia quaresmal, quer protestante quer católica.
O texto consta de 23 estrofes, cada uma de 12 versos rimados. À exortação inicial segue-se a afirmação de fundo: «Por isso Cristo abandonou o ventre do Pai e veio à Terra, nascendo de uma virgem terna e pura». Nas estrofes seguintes narra-se detalhadamente a paixão de Cristo, da última Ceia à ressurreição. Na conclusão da longa narrativa exorta-se o ser humano a manter-se longe do pecado, mostrando amor a cada um, de acordo com o exemplo que Criso deu com a sua paixão e morte.
A melodia original em Dó maior é enfática; no exórdio do sétimo e do oitavo verso em Dó agudo confere-lhe uma certa grandiosidade. Na liturgia executam-se normalmente a primeira e última estrofe do longo texto.
Os dois textos quinhentistas associam a temática quaresmal à confiança na presença de Deus junto do ser humano, inclusive nos momentos mais obscuros da vida, e à exortação para o exercício da caridade fraterna segundo o exemplo de Cristo.
É um espírito muito diferente daquele que apenas dois séculos antes animava os flagelantes alemães, que cantavam «ó nós pobres pecadores, as nossas iniquidades submeteram-nos à morte eterna». O mundo era então visto como estando submergido pelo mal, segundo a obra de Lúcifer, e o cristão só podia evitar ser contagiado refugiando-se na penitência e mortificando duramente os seus sentidos.
Uma propagação do espírito renascentista tinha chegado também à Alemanha, e sob o seu influxo a fé e a caridade sobrepuseram-se à dura contrição, excessivamente fechada em si mesma e pouco aberta à esperança.