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Atentados à espiritualidade cristã

Ressoa agora como um adágio frequente a denúncia do fim das religiões tradicionais, e da própria ideia de religião, e a paralela imposição, sobretudo nas nossas terras do Ocidente, da espiritualidade ou das espiritualidades, no plural.

Não é difícil constatar que, enquanto se esvaziam as igrejas e diminui a pertença a uma instituição religiosa, cresce em todo o lado, e de modo transversal, das gerações mais antigas às mais jovens, o interesse por caminhos de interioridade inspirados em diferentes tradições espirituais. Mesmo a própria indústria livreira testemunha esta tendência: os “bestsellers” religiosos não são, geralmente, nem bíblicos nem teológicos, e muito menos inspirados pela grande tradição patrística ocidental ou oriental, mas são os denominados “livros de espiritualidade”, que intercetam uma necessidade psíquica de espiritualidade, coisa bem diferente da fé.

Sigo desde sempre com muita atenção a produção destes livros, e constato como é difícil encontrar neles uma verdadeira inspiração, um primado, uma hegemonia da Palavra de Deus e, sobretudo, do Evangelho. Em poucas décadas os caminhos da tradição espiritual cristã foram negligenciados, ao passo que os novos percursos mostram-se-me quase todos orientados para uma espiritualidade do bem-estar individual, na qual talvez ainda se nomeie Deus, reduzido, porém, a uma energia cósmica, a uma impessoal representação do outro…

Trata-se de uma espiritualidade sem dimensão comunitária e muito menos eclesial, sem exigências de relações concretas e compromissos fraternos, que em vez disso se alimenta de experiências subjetivas privadas de rosto, privilegiando uma busca interior narcisista. Também o papa Francisco, na “Evangelii gaudium”, sentiu a necessidade de denunciar esta deriva, por ele descrita como busca de «energias harmonizadoras» (n. 90).



A vida cristã reduz-se a um comportamento moral que, em vez de anunciar, denuncia; em vez de dar a boa notícia, oferece uma má comunicação. O Evangelho é novamente reduzido a lei, e deixa de ser vida



É significativo que o mandamento dirigido por Deus a Abraão, do qual tem origem a história da salvação - «sai da tua terra, da tua parentela e da casa do teu pai» (Génesis 12,1), o famoso “lekh lekha” hebraico –, seja hoje compreendido e pregado como «vai para ti próprio», segundo a interpretação de alguns rabinos. Esquece-se, no entanto, que a Palavra de Deus dirigida a Abraão pede-lhe para sair, para ir, para deixar tudo o que está à sua volta, para rumar para outras terras, outros horizontes; e nesta saída, inclusive de si próprio, ele é chamado a andar entre as gentes da terra, para levar a todos a bênção. O movimento centrípeto da viagem interior tem, ao contrário, acabado por absorver e neutralizar a mensagem decisiva: «Vai, sai de ti próprio».

É por isso que esta interioridade, ainda que necessária, se é fim em si própria e se se confina a um conhecimento de si, é narcisista, individualista, contradizendo desta forma toda a mensagem bíblica, segundo a qual busca-se Deus se se busca o homem, crê-se em Deus se se crê também nos outros, ama-se aquele Deus que não se vê se se amam também os outros que se veem (cf. 1 João 4,20).

Esta espiritualidade, devo confessá-lo com muita tristeza, está agora presente na própria pregação, sobretudo na homilia dominical. Em muitos aspetos regressou-se ao velho vício pré-conciliar: o da “prédica” de um estilo oratório que quer transmitir lições aos ouvintes. Trata-se, é verdade, de uma prédica hoje renovada com muitas contribuições das ciências humanas, especialmente da antropologia ou da psicologia, mas essencialmente moralista. Um falar que não contém nenhuma profundidade teológica, nenhuma revelação, nenhum mistério, nenhuma boa notícia, mas só um chamamento aos valores, à vida perfeita.

Assim, a vida cristã reduz-se a um comportamento moral que, em vez de anunciar, denuncia; em vez de dar a boa notícia, oferece uma má comunicação. O Evangelho é novamente reduzido a lei, e deixa de ser vida. Também Jesus, nesta visão, é reduzido a alguém que ensina como viver neste mundo, ao passo que já não há nem força nem fé para dizer que Jesus Cristo é a vida (cf. João 14,6): não é um mestre de espiritualidade em concorrência com outros caminhos, mas é a vida! É preciso, portanto, a coragem de sublinhar: se é verdade que Jesus Cristo é o Evangelho, e o Evangelho é Jesus Cristo, então o Evangelho não se ensina a viver, mas faz-nos viver. Jesus Cristo, o Evangelho, é a vida!


 

Enzo Bianchi
In Monastero di Bose
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: MediaWhalestock/Bigstock.com
Publicado em 06.01.2020

 

 
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