

Capa (det.) | D.R.Há um pequeno detalhe na biografia de Olivier Messiaen (1908-1992), aparentemente de pouca importância mas na realidade fundamental, que vale sempre a pena recordar quando se fala da sua produção instrumental: não obstante os compromissos derivados de um relevante e crescente sucesso, o maestro francês nunca abandonou a função de organista titular da igreja da Santíssima Trindade, em Paris, assegurando ininterruptamente, durante mais de meio século – 55 anos, para sermos precisos – os ofícios litúrgicos e as celebrações dominicais, acompanhando durante a semana missas, vésperas e, muitas vezes, também funerais e matrimónios.
A paixão pelo seu instrumento predileto impeliu Messiaen a escrever algumas das mais importantes obras-primas de toda a história musical do séc. XX, como “A Ascensão”, cuja versão original para orquestra foi concluída em 1933, enquanto que aquela para órgão foi terminada no ano seguinte, encontrando-se agora no núcleo do novo disco realizado por Tom Winpenny, ao lado de outras páginas célebres, como “O banquete celeste”, “Aparição da Igreja eterna” e “Oferenda ao Santíssimo Sacramento”.
Trata-se de um trabalho que pelo empenho, dimensões e duração representa um posterior progresso fundamental na trajetória criativa do autor, confiada a uma linguagem rica de referências simbólicas que pretende ilustrar os conteúdos teológicos da solenidade da Ascensão através de ritmos complexos e sonoridades apuradas.
A triunfar nesta nítida leitura oferecida por Winpenny está a solene majestosidade de uma música cuja luminosidade – por vezes ofuscante, outras vezes diluída em oásis de sereno misticismo - visa a afirmação de uma progressiva superação de qualquer dimensão espácio-temporal que parece sublimar-se no movimento final, “Oração de Cristo”, definido como o «pico emocional» da obra pelo próprio Messiaen; numa sucessão de harmonias rarefeitas que acompanham a lenta ascensão espiritual de Cristo para as esferas celestes.
Para quem procura uma porta de entrada no mundo sonoro único de Messiaen, este disco, gravado na catedral de Edimburgo, constitui uma boa escolha, dado que o “A ascensão” é um dos primeiros trabalhos em que o compositor estabeleceu os “seus” princípios harmónicos e ritmos, que na verdade nunca abandonou durante toda a vida.
Andrea Milanesi / Avvenire
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