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As palavras do papa sobre as pessoas homossexuais e a atenção com que devem ser lidas

Quando o papa fala, escuto-o com atenção. Sem segundas intenções, sem pensar em como “usá-lo”. Mas, sobretudo, escuto-o com serenidade. E, seguramente, sem a ânsia de fazer um “processo” sobre aquilo que diz e como o diz, mas compreendendo o sentido e a força das palavras que emprega para todos e para mim. Faço-o porque sou católico e, portanto, sigo Cristo, e, como dizia o P. Primo Mazzolari, «quero bem ao papa». Mas faço-o também porque o papa, hoje papa Francisco, diz coisas importantes e preciosas não só para a minha fé e a minha Igreja, mas para o mundo.

E dou-me conta, como cronista, que para fazer bem o meu ofício não posso não escutar o papa, que é desde sempre uma das máximas autoridades religiosas e morais à face da Terra, e que hoje, no tempo da confusão e dos medos, graças ao especial carisma de Francisco, é, talvez, a voz mais alta e universalmente reconhecida. Procuro também recordar-me, ter memória, daquilo que o papa diz no tempo, encontrando as palavras para falar ao tempo em que oferece o seu testemunho que se faz ensinamento.

Esta premissa serve-me para acolher as cartas (…) que chegaram à redação após o clamor suscitado pelas palavras do papa Francisco sobre dois temas indubitavelmente ligados, mas distintos, e que a simplificação mediática (…) tornou coincidentes: o primeiro tema diz respeito ao direito a «estar em família» das pessoas homossexuais, referido aos filhos e filhas desta orientação, que nem sempre são aceites; o segundo tema é o da “cobertura legal” para os casais homossexuais. (…)



Tenho vontade de dizer que esta palavra do papa não é, de facto, uma legitimação da maternidade de substituição, mas pura e simples atitude de acolhimento em relação a três crianças que existem e são filhas de Deus, como quaisquer outras, seja como for que tenham sido postas no mundo



Dando por adquirido (ainda que adquirido, infelizmente, é para muitos, mas não para todos) a atitude clara, respeitosa e acolhedora indicada pelo Catecismo de S. João Paulo II relativamente às pessoas homossexuais, dela sublinho um aspeto (…). É justo dar cobertura legal aos casais homossexuais. Conheço este conceito do papa Francisco desde quando era a posição do arcebispo de Buenos Aires, cardeal Jorge Mario Bergoglio, que exprimia o civil dissenso em relação à hipótese de introduzir na Argentina o «matrimónio igualitário» para as pessoas homossexuais, e, infelizmente não escutado, indicava precisamente a alternativa de uma forma de tutela distinta e específica. Por isso, o papa, no trecho da entrevista inserido no documentário, diz «bati-me sempre por isto…», expressão que recolhe as suas palavras de hoje na batalha de ideias de ontem.

É verdade que as afirmações de um bispo são todas e sempre importantes, mas as do papa são-no ainda mais. E nenhum papa tinha alguma vez dito tão claramente sim a uma forma de “cobertura legal” diversa do matrimónio (…) que “justamente” acompanhe a convivência de pessoas do mesmo sexo.

A questão da maternidade de substituição (…) não foi tocada pelo papa nas filmagens escolhidas pelo realizador que construiu o documentário “Francesco” (que não é um tratado e não tem a ambição de o ser). Emerge, no entanto, indiretamente, porque nesta obra encontram espaço as vozes de dois homossexuais crentes que, através da prática da maternidade de substituição, obtiveram os três filhos, e que conversaram com o papa a propósito de os enviar ou não à catequese na paróquia.

O papa Francisco, descreveram, encorajou-os a não excluir as crianças da vida da comunidade cristã. Tenho vontade de dizer que esta palavra do papa não é, de facto, uma legitimação da maternidade de substituição, mas pura e simples atitude de acolhimento em relação a três crianças que existem e são filhas de Deus, como quaisquer outras, seja como for que tenham sido postas no mundo. Penso também que a questão do não à maternidade de substituição não é um dogma de fé, mas uma objeção civil à coisificação das mulheres e dos filhos que põem no mundo. Uma objeção poderosa e perfeitamente compreensível a cada pessoa que na fé cristã e católica encontra luz e motivações profundas, mas que cada mulher e homem pode, laicamente, fazer sua. Espero, confiadamente, escutar uma palavra específica do papa também sobre isto.


 

Marco Tarquinio
Diretor do Avvenire (Conferência Episcopal Italiana)
In Avvenire
Trad. / edição: Rui Jorge Martins
Imagem: Papa Francisco | D.R.
Publicado em 23.10.2020

 

 
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