
Simone Weil - Amor à beleza do mundo
O amor à ordem do mundo, à beleza do mundo, é assim o complemento do amor ao próximo.
Ele procede da mesma renúncia, imagem da renúncia criadora de Deus. Deus faz existir este universo ao consentir em não o dominar, muito embora possua poder para tal, e ao deixar reinar em seu lugar, por um lado, a necessidade mecânica ligada à matéria, incluída a matéria psíquica da alma, por outro lado, a autonomia essencial às pessoas pensantes.
Pelo amor ao próximo, imitamos o amor divino que nos criou, a nós como a todos os nossos semelhantes. Pelo amor à ordem do mundo, imitamos o amor divino que criou este universo de que fazemos parte.
O homem não tem que renunciar a dominar a matéria e as almas, pois não possui tal poder. Mas Deus concedeu-lhe uma imagem imaginária desse poder, uma divindade imaginária, a fim de que também ele possa, sendo muito embora uma criatura, esvaziar-se da sua divindade.
Como Deus, que estando fora do universo é em simultâneo e realmente o seu centro, também cada homem se situa imaginariamente no centro do mundo. A ilusão de perspectiva situa-o no centro do espaço; uma ilusão idêntica falsifica nele o sentido do tempo; e ainda uma outra idêntica ilusão dispõe ao seu redor toda a hierarquia de valores. Esta ilusão estende-se mesmo ao sentimento da existência, por causa da ligação íntima, em nós, do sentimento do valor e do sentimento do ser; o ser parece-nos cada vez menos denso à medida que se afasta de nós.
Nós baixamos ao seu nível, ao nível da imaginação enganadora, a forma espacial dessa imaginação. Somos obrigados a isso; de outra forma não nos aperceberíamos de um único objecto, não nos governaríamos sequer o bastante para saber dar um único passo de modo consciente. Deus fornece-nos assim o modelo da operação que deve transformar toda a nossa alma. Tal como aprendemos, ainda crianças, a baixar, a reprimir essa ilusão no sentimento do espaço, assim devemos fazer em relação ao sentimento do tempo, do valor, do ser. De outra forma, seremos incapazes, no que toca a todos os outros aspectos para além do espaço, de reger um único passo.
Encontramo-nos na irrealidade, no sonho. Renunciar à nossa situação central imaginária, renunciar a ela não apenas pela inteligência mas também na parte imaginativa da alma, é acordar para o real, para o eterno, ver a verdadeira luz, escutar o verdadeiro silêncio. Opera-se então uma transformação na própria raiz da sensibilidade, na maneira imediata de receber as impressões sensíveis e as impressões psicológicas. Uma transformação análoga àquela que se produz quando, à noite, numa estrada, no lugar onde julgámos avistar um homem sentado, divisamos, de repente, uma árvore; ou quando, depois de termos acreditado ouvir um cochicho, distinguimos um restolhar de folhas. Vemos as mesmas cores, escutamos os mesmos sons, mas não da mesma maneira.
Esvaziar-se da sua falsa divindade, negar-se a si mesmo, renunciar a ser na imaginação o centro do mundo, distinguir todos os pontos do mundo como centros a título idêntico e o verdadeiro centro como exterior ao mundo, é consentir no reino da necessidade mecânica na matéria e do livre arbítrio no centro de cada alma. Este consentimento é amor. A face deste amor voltada para as pessoas pensantes é caridade para com o próximo; a face voltada para a matéria é amor à ordem do mundo, ou, o que é a mesma coisa, amor à beleza do mundo.
Na Antiguidade, o amor à beleza do mundo ocupava um lugar muito grande nos pensamentos e revestia toda a vida de uma maravilhosa poesia. Assim foi com todos os povos, na China, na Índia, na Grécia. O estoicismo grego, que foi algo de maravilhoso e do qual o cristianismo primitivo estava infinitamente próximo, sobretudo o pensamento de S. João, era quase exclusivamente amor à beleza do mundo. Quanto a Israel, certas passagens do Antigo Testamento, nos Salmos, no livro de Job, em Isaías, nos livros sapienciais, encerram uma expressão incomparável da beleza do mundo.
O exemplo de S. Francisco mostra o lugar que a beleza do mundo pode ocupar num pensamento cristão. Não só o seu poema é poesia perfeita, mas toda a sua vida foi poesia perfeita em acção. Por exemplo, a sua escolha de lugares para os retiros solitários ou para a fundação de conventos era, por si mesma, a mais bela poesia em acto. A vagabundagem, a pobreza eram poesia nele; ele pôs-se nu para se pôr em contacto imediato com a beleza do mundo.
Em S. João da Cruz encontram-se também alguns formosos versos sobre a beleza do mundo. Mas, de uma maneira geral, fazendo as reservas convenientes para os tesouros desconhecidos ou talvez pouco conhecidos e enterrados entre as coisas olvidadas da Idade Média, pode dizer-se que a beleza do mundo está quase ausente da tradição cristã. Isto é estranho. A causa é de difícil compreensão. É uma lacuna terrível. Como terá o cristianismo direito a dizer-se católico se o próprio universo lhe é ausente?
É verdade que pouco se trata da beleza do mundo no Evangelho. Mas nesse texto tão conciso que, como diz S. João, está muito longe de encerrar todos os ensinamentos de Cristo, os discípulos julgaram, sem dúvida, inútil incluir o que respeitava a um sentimento tão difundido por toda a parte.
No entanto, dele se trata por duas vezes. A certo passo, Cristo prescreve a contemplação e a imitação dos lírios e dos pássaros pela sua indiferença em relação ao futuro, pela sua docilidade em relação ao destino; noutro, a contemplação e a imitação da distribuição indiscriminada da chuva e da luz do sol.
O Renascimento quis crer que renovava os vínculos espirituais com a Antiguidade passando por cima do cristianismo, mas pouco mais tomou à Antiguidade do que os produtos secundários da sua inspiração, a arte, a ciência e a curiosidade pelas coisas humanas; mal lhe aflorou a inspiração central. Não recuperou o contacto com a beleza do mundo.
Nos séculos XI e XII houve o princípio de um renascimento que teria sido o verdadeiro se tivesse podido dar frutos; ele começou a germinar especialmente no Languedoc. Certos versos dos trovadores sobre a Primavera fazem pensar que a inspiração cristã e o amor à beleza do mundo talvez não tivessem sido separados. Por outro lado, o espírito occitânico imprime a sua marca em Itália e talvez não tenha sido estranho à inspiração franciscana. Mas, coincidência ou mais provavelmente ligação de causa a efeito, estes germes não sobreviveram em parte alguma à guerra dos Albigenses, a não ser como vestígios.
Hoje em dia, poder-se-ia acreditar que a raça branca quase perdeu a sensibilidade à beleza do mundo, e que assumiu como tarefa a de a fazer desaparecer em todos os continentes aos quais levou as suas guerras, o seu comércio e a sua religião. Como dizia Cristo aos fariseus: «Malditos sejais! Levastes a chave do conhecimento; não entrais nem deixais entrar os outros.»
E contudo, na nossa época, nos países de raça branca, a beleza do mundo é quase a única via pela qual se pode deixar penetrar Deus. Porque estamos ainda muito mais afastados das outras duas. O amor e o respeito verdadeiros às práticas religiosas é raro mesmo naqueles que lhes são assíduos, e quase nunca se encontram nos outros. A maioria não concebe sequer a sua possibilidade. No que respeita ao uso sobrenatural da infelicidade, a compaixão e a gratidão são, não apenas coisas raras, mas, hoje em dia, para quase todos, coisas quase ininteligíveis. A própria ideia quase desapareceu, a própria significação das palavras se fez baixa.
Ao passo que o sentimento do belo, embora mutilado, deformado e sujo, permanece irredutivelmente no coração do homem como um poderoso móbil. Ele está presente em todas as preocupações da vida profana. Se se fizesse autêntico e puro, transportaria em bloco toda a vida profana aos pés de Deus, tornaria possível a incarnação total da fé.
Por outro lado, de maneira geral, a beleza do mundo é a via mais comum, mais fácil, a mais natural.
Assim como Deus se precipita em toda a alma, logo que esta se entreabre, para amar e servir, através dela, os infelizes, da mesma forma se precipita nela para, através dela, amar e admirar a beleza sensível da sua própria criação.
Mas o contrário é ainda mais verdadeiro. A inclinação natural da alma para amar a beleza é a cilada mais frequente de que se serve Deus para a abrir ao sopro do alto.
É a cilada em que foi apanhada Core. O perfume do narciso fazia sorrir todo o céu, a terra inteira e toda a amplidão do mar. Mal a pobre rapariga estendeu a mão, foi apanhada na cilada. Caiu nas mãos do Deus vivo. Quando daí saiu, tinha comido o grão de mostarda que a ligava para sempre. Já não era mais virgem, era a esposa de Deus.
A beleza do mundo é o orifício do labirinto. O imprudente que, tendo entrado, dá alguns passos, torna-se depois de algum tempo incapaz de reencontrar o orifício. Exausto, sem nada para comer ou beber, mergulhado nas trevas, separado dos seus semelhantes, de tudo o que ama, de tudo o que conhece, caminha sem nada saber, sem esperança, incapaz mesmo de se dar conta se caminha verdadeiramente ou se anda à roda sobre o mesmo lugar. Mas essa infelicidade nada é ao pé do perigo que o ameaça. Porque se ele não perde a coragem, se continua a caminhar, é absolutamente certo que chegará finalmente ao centro do labirinto. E aí, Deus espera-o para o devorar. Mais tarde voltará a sair, mas mudado, feito outro, tendo sido comido e digerido por Deus. Ele colocar-se-á então à beira do orifício para empurrar docemente na sua direcção aqueles que dele se aproximam.
A beleza do mundo não é um atributo da matéria em si mesma. É uma relação do mundo com a nossa sensibilidade, essa sensibilidade que se liga à estrutura do nosso corpo e da nossa alma. O Micromegas de Voltaire, um infusório pensante, não teria qualquer acesso à beleza de que nós nos alimentamos no universo. Caso tais seres existissem, devemos acreditar que o mundo seria belo também para eles; mas tratar-se-ia de uma outra beleza. De todo o modo, é necessário crer que o universo é belo a todas as escalas; e, mais em geral, que ele possui a plenitude da beleza em relação à estrutura corporal e psíquica de cada um dos seres pensantes que existem de facto e de todos os seres pensantes possíveis. É mesmo esta concordância de uma infinidade de belezas perfeitas que constitui o carácter transcendente da beleza do mundo. Todavia, o que nós experimentamos dessa beleza foi destinado à nossa sensibilidade humana.
A beleza do mundo é a cooperação da Sabedoria divina com a criação. «Zeus acabou todas as coisas», diz um verso órfico, «e Baco rematou-as.» O remate é a criação da beleza. Deus criou o universo e o seu Filho, nosso irmão primogénito, criou nele a beleza para nós. A beleza do mundo é o sorriso de ternura de Cristo por nós através da matéria. Ele está realmente presente na beleza universal. O amor a esta beleza procede de Deus, que desceu até à nossa alma, e dirige-se a Deus presente no universo. É também algo como um sacramento.
Não é assim senão com a beleza universal. Mas, excepto Deus, apenas o universo inteiro pode, com inteira propriedade, ser chamado belo. Tudo o que se encontra no universo e é menos do que o universo apenas pode ser chamado belo se se entender esta palavra com um sentido para além da sua significação rigorosa, um sentido extensível às coisas que têm indirectamente parte na beleza, que são imitações suas.
Todas estas belezas secundárias são de um valor infinito como aberturas para a beleza universal. Mas se nelas nos detemos, elas constituem, pelo contrário, véus; são então corruptoras. Todas encerram, em maior ou menor grau, esta tentação, mas há graus muito diversos.
Há também uma quantidade de factores de sedução completamente estranhos à beleza, mas devido aos quais, por falta de discernimento, se chama belas às coisas onde residem. Porque eles atraem o amor de modo fraudulento, e todos os homens chamam belo ao que amam. Todos os homens, mesmo os mais ignorantes, mesmo os mais vis, sabem que só a beleza tem direito ao nosso amor. Os mais autenticamente grandes também o sabem. Nenhum homem está acima ou abaixo da beleza. As palavras que exprimem a beleza assomam aos lábios de todos os que querem louvar o que amam. Eles sabem tão somente distingui-la melhor ou pior.
A beleza é a única finalidade neste mundo. Como Kant bem disse, é uma finalidade que não contém qualquer fim. Uma coisa bela não contém qualquer bem senão ela mesma na sua totalidade, tal como nos surge. Nós dirigimo-nos para ela sem saber o que lhe pedir. Ela oferece-nos a sua própria existência. Nós não desejamos outra coisa, possuímo-la, e contudo desejamos ainda. Ignoramos completamente o quê. Gostaríamos de atingir o que se encontra por detrás da beleza, mas ela não é senão superfície. É como um espelho que nos devolve o nosso próprio desejo do bem. Ela é uma esfinge, um enigma, um mistério dolorosamente irritante. Gostaríamos de nos alimentar dela, mas ela não é senão objecto de contemplação, não surge senão a uma certa distância. A grande dor da vida humana é que olhar e comer sejam duas operações distintas. Só do outro lado do céu, no país habitado por Deus, são uma e a mesma operação. Já as crianças, quando olham durante muito tempo um doce para finalmente o pegarem, quase com arrependimento, a fim de o comer, sem contudo o conseguirem impedir, experimentam esta dor. Talvez os vícios, as depravações e os crimes sejam quase sempre, ou mesmo sempre, na sua essência, tentativas para comer a beleza, comer o que é necessário olhar apenas. Eva marcou o começo. Se ela perdeu a humanidade ao comer um fruto, a atitude inversa, olhar um fruto sem o comer, deve ser o que salva. «Dois companheiros alados – diz uma Upanishad – dois pássaros encontram-se no ramo de uma árvore. Um come os frutos, o outro olha-os.» Estes dois pássaros são as duas partes da nossa alma.
É porque a beleza não contém qualquer fim que ela constitui a única finalidade neste mundo. Porque neste mundo não há, de todo, quaisquer fins. Todas essas coisas que tomamos como fins são meios. É essa uma verdade evidente. O dinheiro é um meio de compra, o poder, um meio de domínio. É assim, de modo mais ou menos visível, com tudo aquilo a que chamamos bens.
Só a beleza não é um meio para outra coisa. Só ela é boa em si mesma, mas sem que nela encontremos qualquer bem. Ela parece ser ela mesma uma promessa e não um bem. Mas nada oferece senão ela própria, não oferece nunca outra coisa.
E no entanto, como é a única finalidade, está presente em todas as buscas humanas. Ainda que todas persigam apenas meios, porque tudo o que existe neste mundo é apenas meio, a beleza confere-lhes um brilho que as tinge de finalidade. De outro modo não poderia existir desejo, nem consequentemente energia na busca.
Para o avaro do tipo Harpagon, toda a beleza do mundo se encerra no ouro. E realmente o ouro, matéria pura e brilhante, tem qualquer coisa de belo. O desaparecimento do ouro como moeda parece ter também feito desaparecer este género de avareza. Hoje em dia, aqueles que acumulam sem gastar buscam poder.
A maior parte daqueles que buscam a riqueza acrescenta-lhe o pensamento do luxo. O luxo é a finalidade da riqueza. E o luxo é a própria beleza para toda uma espécie de homens. Ele constitui o único enquadramento no qual conseguem sentir vagamente que o universo é belo; da mesma forma que S. Francisco, para sentir que o universo é belo, necessitava de ser vagabundo e mendigo. Um e outro meio seriam igualmente legítimos se num e noutro caso a beleza do mundo fosse experimentada de modo igualmente directo, puro e pleno; mas, felizmente, Deus quis que assim não fosse. A pobreza é um privilégio. Encontra-se aí uma disposição providencial sem a qual o amor à beleza do mundo estaria facilmente em contradição com o amor ao próximo. Todavia o horror à pobreza – e toda a diminuição de riqueza pode ser sentida como pobreza, até mesmo a não acumulação – é essencialmente horror à fealdade. A alma que as circunstâncias impedem de sentir, ainda que confusamente, ainda que através da mentira, algo da beleza do mundo é invadida, até ao âmago, por uma espécie de horror.
O amor ao poder brota do desejo de estabelecer uma ordem entre os homens e as coisas ao redor de si, num quadro pequeno ou grande, e essa ordem é apetecível por efeito do sentimento do belo. Neste caso, como no do luxo, trata-se de imprimir a um certo meio finito, mas que amiúde se deseja expandir continuamente, um arranjo que reproduza a beleza universal. A insatisfação, o desejo de expansão, têm precisamente por causa o facto de se desejar o contacto com a beleza universal, quando o meio que se organiza não é o universo. Não é o universo e esconde-o. Todo o universo em redor é como um cenário de teatro.
Valéry, no poema intitulado Sémiramis, faz sentir muito bem o vínculo entre o exercício da tirania e o amor ao belo. Luís XIV, fora da guerra, instrumento de aumento do poder, não se interessava senão por festas e pela arquitectura. A própria guerra, aliás, sobretudo tal como era outrora, toca de maneira viva e pungente a sensibilidade ao belo.
A arte é uma tentativa para transpor numa quantidade finita de matéria modelada pelo homem uma imagem da beleza infinita de todo o universo. Se a tentativa é bem sucedida, essa porção de matéria não deve esconder o universo, mas, pelo contrário, revelar toda a realidade que a cerca.
As obras de arte que não são reflexos justos e puros da beleza do mundo, aberturas directas sobre ela, não são propriamente belas; não são de primeira ordem; os seus autores podem ter muito talento, mas não autêntico génio. É o caso de muitas obras de arte entre as mais célebres e as mais gabadas. Todo o verdadeiro artista teve um contacto real, directo, imediato com a beleza do mundo, contacto que é algo como um sacramento. Deus inspirou toda a obra de arte de primeira ordem, por mais profano que seja o assunto; não inspirou nenhuma das outras. Em contrapartida, entre as outras, o brilho da beleza que cobre algumas pode muito bem ser um brilho diabólico.
A ciência tem por objecto o estudo e a reconstrução teórica da ordem do mundo. A ordem do mundo em relação com a estrutura mental, psíquica e corporal do homem; contrariamente às ingénuas ilusões de alguns sábios, nem o emprego de telescópios e microscópios, nem a utilização das fórmulas algébricas mais singulares, nem mesmo o desprezo pelo princípio de não contradição permitem sair dos limites desta estrutura. O que, aliás, não é desejável. O objecto da ciência é a presença no universo da Sabedoria de que somos irmãos, a presença de Cristo através da matéria que constitui o mundo.
Reconstruímos a ordem do mundo como uma imagem, a partir de dados limitados, inventariáveis, rigorosamente definidos. Entre esses termos abstractos, e, por isso, manipuláveis, estabelecemos as relações e os nexos. Podemos assim contemplar numa imagem – imagem cuja própria existência está suspensa no acto da nossa atenção – a necessidade que é a própria substância do universo, mas que, como tal, não se nos manifesta senão de forma descontínua.
Não se contempla sem algum amor. A contemplação desta imagem da ordem do mundo constitui um certo contacto com a beleza do mundo. A beleza do mundo é a ordem do mundo amado.
O trabalho físico constitui um contacto específico com a beleza do mundo, e mesmo, nos melhores momentos, um contacto de uma plenitude tal que não se consegue encontrar nenhum equivalente. O artista, o sábio, o pensador, o contemplativo, devem, para admirar realmente o universo, perfurar essa película de irrealidade que o oculta e que cria, para quase todos os homens, em quase todos os momentos das suas vidas, um sonho ou um cenário de teatro. Eles devem-no, mas o mais frequente é não o poderem. Aquele que tem os membros quebrados de cansaço por causa do esforço de uma jornada de trabalho, quer dizer, de uma jornada na qual se submeteu à matéria, transporta na sua carne, como um espinho, a realidade do universo. Para ele a dificuldade é a de olhar e amar; se o consegue, ama o real.
Este é o imenso privilégio que Deus reservou aos seus pobres. Mas eles não o sabem quase nunca. Não se lho diz. O excesso de cansaço, a preocupação torturante com o dinheiro e a falta de verdadeira cultura impedem-nos de se aperceberem disso. Bastaria mudar pouco na sua condição para lhes abrir o acesso a um tesouro. É dilacerante ver quão fácil seria aos homens, em tantos casos, alcançarem um tesouro aos seus semelhantes e como deixam passar os séculos sem se darem sequer a esse cuidado.
Na época em que havia uma civilização popular, da qual coleccionamos hoje as migalhas como peças de museu sob o nome de folclore, o povo tinha, sem dúvida, acesso a esse tesouro. Também a mitologia, que é uma parente muito próxima do folclore, é disso testemunha, se lhe deciframos a poesia.
O amor carnal sob todas as suas formas, da mais alta, verdadeiro matrimónio ou amor platónico, até à mais baixa, até ao deboche, tem por objecto a beleza do mundo. O amor que se dirige ao espectáculo dos céus, das planícies, do mar, das montanhas, ao silêncio da natureza feito sensível nos seus mil leves ruídos, ao sopro dos ventos, ao calor do sol, esse amor que todo o ser humano pressente por um momento, ao menos vagamente, é um amor incompleto, doloroso, porque se dirige a coisas incapazes de responder, à matéria. Os homens desejam remeter esse mesmo amor a um ser que seja seu semelhante, capaz de responder ao amor, de dizer sim, de se entregar. O sentimento de beleza, por vezes ligado ao aspecto de um ser humano, torna essa transferência possível, pelo menos de uma forma ilusória. Mas é para a beleza do mundo, a beleza universal, que se dirige o desejo.
É essa espécie de transferência que exprime toda a literatura que rodeia o amor, desde as metáforas e as comparações mais antigas, as mais usuais em poesia, até às análises subtis de Proust.
O desejo de amar a beleza do mundo num ser humano é essencialmente desejo da Incarnação. É por erro que alguém crê ser outra coisa. Só a Incarnação pode satisfazê-lo. É também muito injusto que se censure, por vezes, aos místicos o emprego da linguagem amorosa. São eles os seus legítimos proprietários. Os outros não têm direito senão a tomá-la de empréstimo.
Se o amor carnal, a todos os níveis, se dirige, em maior ou menor grau, para a beleza – e as excepções talvez não sejam senão aparentes – é porque a beleza de um ser humano faz dele, para a imaginação, algo como um equivalente da ordem do mundo.
É por isso que os pecados neste domínio são graves. Eles constituem uma ofensa a Deus pelo próprio facto de a alma estar, inconscientemente, à procura de Deus. Aliás, resumem-se todos a um único que consiste em querer passar, de forma mais ou menos pronunciada, ao largo do consentimento. Querer passar, por completo, ao largo do consentimento é, de entre todos os crimes humanos, de longe o mais terrível. Que há de mais horrível que não respeitar o consentimento de um ser em quem se procura, ainda que sem se saber, um equivalente de Deus?
É ainda um crime, embora menos grave, contentar-se com um consentimento procedente de uma região baixa ou superficial da alma. Haja ou não união carnal, a troca de amor é ilegítima se, de uma e outra parte, o consentimento não procede desse ponto central da alma no qual o sim não pode ser senão eterno. A obrigação matrimonial, que hoje em dia tão frequentemente se olha como uma simples convenção social, está inscrita na própria natureza do pensamento humano pela afinidade entre o amor carnal e a beleza. Tudo o que tem alguma relação com a beleza deve ser subtraído ao decurso do tempo. A beleza é a eternidade neste mundo.
Não é surpreendente que o homem tenha tantas vezes, na tentação, o sentimento de um absoluto que o ultrapassa infinitamente, ao qual não é possível resistir. O absoluto está realmente aí. Mas enganamo-nos ao crer que reside no prazer.
O erro é efeito desse transporte da imaginação que é o mecanismo capital do pensamento humano. O escravo de que fala Job, que na morte deixará de ouvir a voz do seu amo, julga que essa voz lhe faz mal. Nada de mais verdadeiro. A voz não lhe faz senão muito mal. E, no entanto, engana-se. A voz, por si mesma, não é dolorosa. Se ele não fosse escravo, ela não lhe causaria qualquer tormento. Mas porque ele é escravo, a dor e a brutalidade das chicotadas entram com a voz pelo ouvido e penetram até ao fundo da alma. Ele não pode impedi-lo. A infelicidade estabeleceu esse vínculo.
Do mesmo modo, o homem que se crê dominado pelo prazer é, na realidade, dominado pelo absoluto que aí alojou. Esse absoluto está para o prazer como as chicotadas para a voz do amo; mas a ligação não é aqui efeito da infelicidade, é efeito de um crime inicial, um crime de idolatria. S. Paulo assinalou o parentesco entre o vício e a idolatria.
Aquele que alojou o absoluto no prazer não pode deixar de ser por ele dominado. O homem não luta contra o absoluto. Aquele que soube alojar o absoluto fora do prazer possui a perfeição da temperança.
As diferentes espécies de vícios, o uso de estupefacientes no sentido literal ou metafórico do termo, tudo isso constitui a busca de um estado no qual a beleza do mundo seja sensível. O erro consiste precisamente na busca de um estado especial. A falsa mística também é uma configuração deste erro. Se o erro está suficientemente cravado na alma, o homem não pode senão sucumbir-lhe.
De um modo geral, todos os gostos dos homens, dos mais culpáveis aos mais inocentes, dos mais comuns aos mais singulares, se relacionam com um conjunto de circunstâncias, com um meio no qual lhes parece terem acesso à beleza do mundo. O privilégio deste ou daquele conjunto de circunstâncias deve-se ao temperamento, às marcas da vida passada, a causas o mais das vezes impossíveis de conhecer.
Não há senão um caso, aliás frequente, no qual a atracção pelo prazer sensível não é a do contacto com a beleza; é quando se procura, pelo contrário, um refúgio contra ela.
A alma não busca senão o contacto com a beleza do mundo, ou, a um nível ainda mais elevado, com Deus; mas ao mesmo tempo foge-lhe. Quando a alma foge de qualquer coisa, ela foge continuamente, seja do horror à fealdade, seja do contacto com o que é verdadeiramente puro. Porque tudo o que é medíocre foge da luz; e em todas as almas, excepto naquelas que estão próximas da perfeição, há uma grande parte medíocre. Esta parte entra em pânico sempre que surge um pouco de belo puro, de bem puro; ela esconde-se atrás da carne, toma-a como véu. Tal como um povo belicoso, para ser bem sucedido nas suas empresas de conquista, tem uma real necessidade de cobrir a sua agressão com um pretexto qualquer, sendo a qualidade do pretexto, aliás, completamente indiferente, também a parte medíocre da alma precisa de um pequeno pretexto para fugir da luz. A atracção do prazer, o receio da dor, fornecem esse pretexto. Também aí, de novo, não é o prazer, é o absoluto que domina a alma, mas como objecto de repulsa e não como objecto de atracção. Também muito frequentemente, na busca do prazer carnal, se combinam os dois movimentos, o movimento de correr para a beleza pura e o movimento de fugir para longe dela, num emaranhado indestrinçável.
De qualquer modo, nas ocupações humanas, sejam elas quais forem, a preocupação com a beleza do mundo, percebida em imagens mais ou menos deformadas ou sujas, nunca está ausente. Por conseguinte, não há, na vida humana, região que seja domínio da natureza. O sobrenatural está presente por toda a parte em segredo; sob mil e uma formas diversas, a graça e o pecado mortal estão por toda a parte.
Entre Deus e estas buscas parciais, inconscientes, por vezes criminosas, da beleza, a única mediação é a beleza do mundo. O cristianismo não se incarnará enquanto não chamar a si o pensamento estóico, a piedade filial pela cidade do mundo, por esta pátria que é o universo. No dia em que, por efeito de um mal entendido, hoje bem difícil de compreender, o cristianismo se separou do estoicismo, condenou-se a uma existência abstracta e à parte.
Mesmo as realizações mais elevadas da busca da beleza, na arte ou na ciência, por exemplo, não são realmente belas. A única beleza real, a única beleza que é presença real de Deus, é a beleza do universo. Nada de mais pequeno que o universo é belo.
O universo é belo como seria bela uma obra de arte perfeita, caso pudesse existir uma que merecesse tal nome. Ele também não contém nada que possa constituir um fim ou um bem. Ele não contém nenhuma finalidade fora da beleza universal em si mesma. Esta é a verdade essencial a conhecer no que respeita a este universo, que ele é absolutamente destituído de finalidade. Nenhum nexo de finalidade se lhe aplica, a não ser por falsificação ou por erro.
Num poema, se nos perguntamos porque é que tal palavra está em tal sítio, e se há uma resposta, ou o poema não é de primeira ordem, ou o leitor nada compreendeu. Se podemos legitimamente dizer que a palavra está ali para exprimir tal ideia, ou para a ligação gramatical, ou para a rima, ou para uma aliteração, ou para preencher o verso, ou para uma certa coloração, ou mesmo por vários motivos desse género ao mesmo tempo, houve busca de efeito na composição do poema, não houve verdadeira inspiração. Para um poema verdadeiramente belo, a única resposta é que a palavra está ali porque convinha que estivesse. A prova dessa conveniência é que ela está ali e o poema é belo. O poema é belo, quer dizer que o leitor não deseja que seja outro.
É assim que a arte imita a beleza do mundo. A conveniência das coisas, dos seres, dos acontecimentos consiste apenas nisto, que eles existem e que não devemos desejar que não existam ou que tivessem sido outros. Um tal desejo é impiedade para com a nossa pátria universal, uma falta para com o amor estóico ao universo. Nós somos constituídos de forma tal que este amor é realmente possível; e é esta possibilidade que tem por nome beleza do mundo.
A questão de Beaumarchais: «Porquê estas coisas e não outras?» jamais tem resposta, porque o universo é destituído de finalidade. A ausência de finalidade é o reino da necessidade. As coisas têm causas e não fins. Aqueles que crêem decifrar os desígnios particulares da Providência assemelham-se aos professores que à custa de um belo poema se entregam àquilo a que chamam a explicação do texto.
O equivalente na arte a esse reino da necessidade é a resistência da matéria e as regras arbitrárias. A rima impõe ao poeta, na escolha das palavras, uma direcção absolutamente sem relação com a sequência de ideias. Ela tem na poesia uma função talvez análoga à da infelicidade na vida. A infelicidade obriga a sentir, com toda a alma, a ausência de finalidade.
Se a orientação da alma é o amor, quanto mais contemplamos a necessidade, quanto mais estreitamos contra nós mesmos, contra a nossa própria carne, a sua dureza e frio metálicos, mais nos aproximamos da beleza do mundo. É isso que experimenta Job. É porque foi tão honesto no sofrimento, porque não admitiu nele mesmo qualquer pensamento susceptível de lhe alterar a verdade, que Deus desceu sobre ele para lhe revelar a beleza do mundo.
É porque a ausência de finalidade, a ausência de intenção é a essência da beleza do mundo que Cristo nos prescreveu que observássemos como a chuva e a luz do sol se derramam indiscriminadamente sobre justos e perversos. Isto traz à memória o grito derradeiro de Prometeu: «Céu através do qual a luz comum circula para todos.» Cristo manda-nos imitar esta beleza. Platão, no Timeu, também nos aconselha fazermo-nos, à força de contemplação, semelhantes à beleza do mundo, semelhantes à harmonia dos movimentos circulares que determinam a sucessão e o retorno dos dias e das noites, dos meses, das estações, dos anos. Também nestes movimentos circulares, na sua combinação, a ausência de intenção e de finalidade é manifesta; e a beleza pura resplandece aí.
É porque ele pode ser amado por nós, é porque ele é belo, que o universo é uma pátria. É a nossa única pátria neste mundo. Este pensamento é a essência da sabedoria dos estóicos. Nós temos uma pátria celeste. Mas, de certa forma, é muito difícil amá-la, porque não a conhecemos; sobretudo, de certa forma, é demasiado fácil amá-la, porque podemos imaginá-la como nos aprouver. Arriscamo-nos a amar, sob esse nome, uma ficção. Se o amor dessa ficção é suficientemente forte, ele torna toda a virtude fácil, mas também de pouco valor. Amemos antes a pátria deste mundo. Ela é real; resiste ao amor. Foi ela que Deus nos deu para amar. Ele quis que fosse difícil e, no entanto, possível amá-la.
Sentimo-nos estrangeiros neste mundo, desenraizados, no exílio. Também Ulisses, a quem alguns marinheiros haviam transportado durante o sono, ao acordar num país desconhecido, desejava Ítaca com um desejo que lhe dilacerava a alma. De repente, Atena abriu-lhe os olhos e ele percebeu que estava em Ítaca. Da mesma forma, todo o homem que deseja infatigavelmente a sua pátria, que não é distraído do seu desejo nem por Calipso nem pelas Sereias, percebe um dia, repentinamente, que se encontra na sua pátria.
A imitação da beleza do mundo, a resposta à ausência de finalidade, de intenção, de discriminação, é a ausência de intenção em nós, é a renúncia à vontade própria. Ser perfeitamente obediente, é ser perfeito como o nosso Pai celeste é perfeito.
Entre os homens, um escravo não se torna semelhante ao seu amo obedecendo-lhe. Pelo contrário, quanto mais submetido, maior é a distância entre ele e aquele que manda.
Com o homem em relação a Deus é diferente. Uma criatura racional torna-se, ao mesmo tempo que lhe pertence, imagem perfeita do Todo-Poderoso se é absolutamente obediente.
Aquilo que no homem é imagem de Deus é algo que, em nós, se liga ao facto de se ser uma pessoa, mas não é esse facto nele mesmo. É a faculdade de renunciar à pessoa. É a obediência.
De todas as vezes que um homem se eleva a um grau de excelência que faz dele, por participação, um ser divino, aparece nele algo de impessoal, de anónimo. A sua voz reveste-se de silêncio. Isto é manifesto nas grandes obras de arte e do pensamento, nos grandes actos dos santos e nas suas palavras.
É, por conseguinte, verdadeiro, de certa forma, que é necessário conceber Deus como impessoal, no sentido de que Ele é o modelo divino de uma pessoa que se transcende ao renunciar-se. Concebê-Lo como uma pessoa toda-poderosa, ou ainda, sob o nome de Cristo, como uma pessoa humana, é excluir-se do verdadeiro amor a Deus. Por isso, é necessário amar a perfeição do Pai celeste na difusão igual da luz do sol. O modelo divino, absoluto, dessa renúncia em nós que é a obediência, esse é o princípio criador e organizador do universo, essa é a plenitude do ser.
É porque a renúncia a ser uma pessoa faz do homem o reflexo de Deus, que é tão terrível reduzir os homens ao estado de matéria inerte ao precipitá-los na infelicidade. Com a qualidade de pessoa humana tira-se-lhes a possibilidade de a ela renunciar, exceptuando aqueles que estão já suficientemente preparados. Assim como Deus criou a nossa autonomia para que tivéssemos a possibilidade de a ela renunciar por amor, pela mesma razão devemos querer a conservação da autonomia nos nossos semelhantes. Aquele que é perfeitamente obediente tem como infinitamente preciosa a faculdade de livre arbítrio nos homens.
Do mesmo modo, não há contradição entre o amor à beleza do mundo e a compaixão. Este amor não impede o sofrimento próprio quando se é infeliz. Nem tão pouco impede o sofrimento pela infelicidade dos outros. Está num plano diferente do sofrimento.
O amor à beleza do mundo, sendo completamente universal, arrasta consigo, como amor que lhe é secundário e subordinado, o amor a todas as coisas verdadeiramente preciosas que a má fortuna pode destruir. As coisas verdadeiramente preciosas são aquelas que constituem degraus na direcção da beleza do mundo, aberturas para ela. Aquele que foi mais longe, até à própria beleza do mundo, não lhes traz daí um amor menor, mas muito maior do que anteriormente.
Neste número estão as realizações puras e autênticas da arte e da ciência. De uma maneira muito mais geral, é tudo o que reveste de poesia a vida humana atravessando todas as camadas sociais. Todo o ser humano se enraíza, neste mundo, numa certa poesia terrestre, reflexo da luz celeste, que é o seu vínculo mais ou menos vagamente sentido com a sua pátria universal. A infelicidade é o desenraizamento.
Em especial as cidades humanas, cada uma em maior ou menor grau, de acordo com o seu nível de perfeição, revestem de poesia a vida dos seus habitantes. Elas são imagens e reflexos da cidade do mundo. De resto, quanto mais tomam a forma de nação, quanto mais pretendem ser, elas próprias, pátrias, mais constituem imagens deformadas e sujas. Mas destruir cidades, seja material seja moralmente, ou excluir seres humanos da cidade atirando-os para o meio dos dejectos sociais, é cortar todo o vínculo de poesia e de amor entre essas almas humanas e o universo. É mergulhá-las à força no horror da fealdade. Quase não há crime maior. Todos tomamos parte, por cumplicidade, numa quantidade quase inumerável de crimes deste género. Deveríamos todos, se ao menos pudéssemos compreender, chorar por eles lágrimas de sangue.
Simone Weil
in Espera de Deus, Assírio & Alvim
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