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Ama o próximo como a ti mesmo, e também a Terra é o nosso próximo

Para a Igreja, tudo o que é criado é ao mesmo tempo “bom” e “belo”, e ter quebrado essa harmonia originária é um crime. No seu último livro, o cardeal Gianfranco Ravasi, presidente do Conselho Pontifício da Cultura e da Comissão Pontifícia de Arqueologia Sacra, perito na Bíblia, fala da riqueza “ecológica” da Bíblia e do valor simbólico da luz, água, montes, árvores, animais, alimentos. Defende que a “fé” pode ligar-se à filosofia, arte e poesia. Explica, com paixão, porque é que fé e ciência não são absolutamente divergentes – aliás, em relação ao ambiente, podem caminhar a par, como mostrou a encíclica “Laudato si’”, do papa Francisco. E está convicto de que colocar no centro o ser humano e a natureza poderá ser «o elemento radical de um novo diálogo intercultural e inter-religioso», e deposita nos jovens a esperança de que agitem as consciências «esclerosadas» dos adultos.

 

Como é que se perdeu o sentido da sacralidade da terra e dos seus elementos, e de que maneira é que a Bíblia pode ajudar a redescobri-lo?

Não só na Bíblia, que é o grande códice da cultura ocidental para crentes e não crentes, mas em todas as culturas existe uma conceção também simbólica da natureza, pela qual o mundo é quase como que um texto a ler. Infelizmente, hoje, prevalece uma conceção apenas funcional e técnica, que nem é sequer a da ciência. Com efeito, a ciência é mais do que a técnica, representa também uma tentativa de descobrir os efeitos exteriores da investigação, sem entregar tudo à mera funcionalidade que é nociva, porque considera a natureza unicamente como um instrumento a usar e lançar fora, quando deixa de ser útil e desfrutável.

 

Hoje fala-se muito das causas humanas da exploração ambiental: é o conceito de “Antropoceno” [período recente na história da Terra, situado em torno a 1950, em que as atividades humanas começaram a ter impacto significativo no clima do planeta e no funcionamento dos seus ecossistemas]. Podemos utilizar também categorias éticas, como a do pecado, do mal, para descrever aquilo que o ser humano fez à natureza?

Perante a evidente devastação do ambiente e os vários sinais de degradação foram adotadas duas categorias. A primeira é aquela que poderemos definir científico-económica, específica dos grandes encontros internacionais, que colocam o problema da degradação do ambiente causado pelo ser humano, precisamente o conceito de Antropoceno. Tratados como os de Quioto e Paris são um elemento importante para reconhecer que se errou e é preciso remediar.

A segunda proposta é aquela das religiões, segundo as quais a questão ecológica tem também um perfil ético e moral. A Bíblia começa com um grande fresco da criação. Os primeiros dois capítulos do Génesis são a celebração da sua beleza. E lê-se que Deus disse que a criação era coisa «boa e bela», em hebraico “tôb”, que significa três coisas juntas, bondade, beleza, utilidade. Todavia, no terceiro capítulo faz-se notar repentinamente que o ser humano, chamado a «guardar e cultivar a terra», descobre que transformou o jardim da criação numa terra que produz espinhos e cardos e que se tornou desértica.

Eis as duas dimensões: a natureza “laica” de compreender que se cometeu um crime que se reverbera na natureza, e a religiosa, que torna a humanidade consciente de ter cometido um pecado que rompe a harmonia desejada pelo Criador.

 

As pragas do Egito, de que fala a Bíblia, parecem ser a representação daquilo que acontece hoje: seca, gafanhotos, parasitas. No entanto, também nós não conseguimos interpretar estes sinais por aquilo que são.

Essas páginas são, obviamente com as categorias científicas desse tempo, a representação de fenómenos modernos e atuais. Na narrativa das pragas do Egito, por exemplo, há o Nilo vermelho, que é fruto de micro-organismos que, ao degenerar, poluem a água; depois há a contração do Nilo, com a produção de alguns parasitas e os piolhos ligados precisamente às regiões africanas; há a mosca tropical que ataca animais e humanos, os gafanhotos que danificam a agricultura, e até, na sexta praga, uma espécie de dermatose, provavelmente causada por antraz e por uma situação ambiental degenerada.

 

Não considera, todavia, que o mundo católico ignorou por demasiado tempo a questão ambiental, concentrando-se em pecados talvez menos graves?

Na narrativa do Génesis o ser humano está no vértice de todas as outras criaturas, mas é criado ao sexto dia. E sabemos que o “seis” na Bíblia é sinal de imperfeição – o sétimo dia é o tempo de Deus, do transcendente. Portanto o homem e a mulher são relevantes na criação, mas são-no com o seu limite, no bem mas também cada vez mais no mal. De vice-rei, aquele que dá o nome aos animais e cultiva a terra, o ser humano, transforma-se num tirano. É importante que as religiões voltem a dar relevo a esta irmã que é a natureza: ama o próximo como a ti mesmo, e também a Terra é o nosso próximo.

 

É o sentido da “Laudato si’”, que deu uma reviravolta “ambiental” à Igreja.

A “Laudato si’” por um lado celebrou o valor simbólico e espiritual da criação, que inclui também um aspeto que vai além da religião, o aspeto estético, o da maravilha, a contemplação do céu, das estrelas, as «constelações que Tu criaste com o teu dedo», como diz o Salmo 8. Mas nesta encíclica o papa Francisco une este aspeto espiritual aos temas das alterações climáticas, da biodiversidade, das gerações, dos organismos geneticamente modificados, e assim por diante, mostrando que a questão espiritual e a científica são duas estradas, mas que caminham juntas. No meu livro dedico um capítulo precisamente à relação entre ciência e fé: para além das várias metodologias, são carris que devem ser paralelos, mas por vezes é necessário que se cruzem para fazer com que a humanidade viva.

 

O problema da defesa do ambiente pode relançar uma nova aliança entre laicos e católicos?

Reitero mais uma vez a centralidade da aliança entre ciência e fé. Em conexão com a palavra “fé” poderemos também colocar a filosofia, a arte, a poesia. Não existe unicamente a resposta tecnológica, como, infelizmente, muitos acreditam hoje. O próprio Steve Jobs, no seu famoso discurso em Harvard aos estudantes, disse que é necessário um casamento entre técnica e cultura, humanismo e ciência, para fazer que resulte um “canto do coração”. Não só: colocar no centro o ser humano e a natureza poderá ser o elemento radical de um novo diálogo intercultural e inter-religioso, e de um novo universalismo.

 

Mas, na sua perspetiva, de onde chegará a mudança? Da política? Da sociedade?

É inevitável que agora, após a obtusidade manifestada por certos políticos, está cada vez mais a criar-se uma sociedade que tem uma sensibilidade ecológica que se cruza com a económica, no sentido que se sabe que se se explora ou devasta em demasia a natureza, não poderemos sobreviver. Além da experiência da pandemia, que criou um choque existencial, começou-se a compreender que o consumismo enviesado e a industrialização sem limites nos colocam numa crise geral. É também a experiência da morte, quer de um mundo que se torna um deserto, quer a própria morte das pessoas.

 

E jovens como Greta Thunberg?

É significativo que as gerações jovens sintam mais do que nós a emergência ambiental. Nós estamos ligados aos modelos industriais do passado. E a “Laudato si’” quis inserir uma espécie de alto selo sobre este anseio da humanidade. Greta pode ser um símbolo, mas o importante é que haja sensibilidade entre todos os jovens. Jesus mudou a representação das crianças e dos jovens, que no antigo Oriente não tinham personalidade jurídica e nem sequer eram registados até chegarem à maioridade. Jesus diz: «Se não vos tornardes como elas, não entrareis no Reino dos Céus». E portanto os jovens podem ser uma lição que penetra nas nossas consciências esclerosadas de adultos.


 

Elisabetta Ambrosi
In Il Fatto Quotidiano
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: icemanphotos/Bigstock.com
Publicado em 10.03.2021 | Atualizado em 12.03.2021

 

 

 
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