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Albert Camus: Queda, graça, espiritualidade

A 4 de janeiro de 1960, o automóvel conduzido por Michel Gallimard chocava contra uma árvore na Estrada Nacional 5, no troço Sens-Paris. Na viatura, um potente desportivo Vacel Veja, viajava também Albert Camus, que morreria no local. Concluía-se assim, tragicamente, a existência de um escritor cuja obra filosófico-literária permeou profundamente e fez longamente debater a geração pós-guerra. Pouco tempo antes de morrer, em dezembro de 1957, tinha recebido, em Estocolmo, o Prémio Nobel da Literatura.

Sessenta anos após o desaparecimento, Camus é um dos poucos autores de quem a figura e obra nunca caíram no esquecimento. Em Portugal, por exemplo, no espaço de ano e meio, entre junho de 2018 e novembro de 2019, a editora Livros do Brasil publicou “O primeiro homem”, “A morte feliz”, “O mito de Sísifo”, “O exílio e o reino”, “A queda”, “O homem revoltado”, “O estrangeiro” e “A peste”; na capital francesa, a Gallimard prossegue a publicação de inéditos e epistolários, enquanto outras editoras publicam ensaios.

Apesar da quantidade de estudos, um aspeto da sua reflexão permanece ainda escassamente analisado: o da sua dimensão religiosa. E no entanto esta, em particular a partir de “A queda”, de 1956, é particularmente evidente. Após o ciclo do absurdo e da revolta – “O estrangeiro”, “Calígula”, “A peste”, “O homem revoltado” –, emergem, no Camus dos anos 50, novas exigências. O homem em revolta só pode julgar o divino Demiurgo se for mais justo do que Ele, «mas isto», escreve, «exige uma inocência que eu já não tenho». Um pessimismo novo entra em cena. Camus já não acredita na feliz inocência do mundo. Emerge, pela primeira vez, a exigência de uma graça, esperada e violentada ao mesmo tempo.

«Quando se viu uma só vez o esplendor da felicidade no rosto de uma pessoa que se ama, fica a saber-se que para o homem não pode haver outra vocação a não ser suscitar esta luz nos rostos que o rodeiam … e destroçamo-nos ao pensamento da infelicidade e da noite que lançamos, pelo único fato de viver, nos corações que encontramos». Para superar esta natural violência, o coração deveria ser “transfigurado”.



«Quem testemunhará por nós? As nossas obras. Ai de mim! Quem, então? Ninguém, ninguém, exceto aqueles nossos amigos que nos viram naquele átimo do dom em que o coração se consagrava inteiramente a um outro»



Mas isso não é simples. «Há sempre no homem uma parte que quer morrer. É aquela que pede para ser perdoada.» O perdão, que é uma forma de amor, é difícil porque, em rigor, «ninguém merece ser amado – ninguém está à altura deste dom supremo». Por isso, «o amor de Deus é, segundo parece, o único que conseguimos suportar, porque queremos sempre ser amados, malgrado nós mesmos». Camus perceciona agora «o peso insuportável» deste mundo, com o qual, aliás, ao início, estava muito satisfeito». É neste contexto que se insere “A queda”, a narrativa de 1956. Aqui, o grito de Clamence, o protagonista, é claro: «Não podemos afirmar a inocência de ninguém, ao passo que podemos afirmar com segurança que todos são culpados».

Perante isto, «a única utilidade de Deus consistiria em garantir a inocência, e a religião eu vejo-a mais como uma grande empresa de lavagem, coisa que de resto foi, mas por breve tempo, exatamente três anos, e não se chamava religião. Desde então falta o sabão». O próprio Jesus não seria completamente privado de culpa: carrega, indiretamente, a responsabilidade pelo massacre dos inocentes.

Por isso, numa espécie de morte expiatória, entrega-se a Deus, que no entanto permanece calado. Para Clamence, a partilha da culpa, que se estende até Jesus, torna-se numa espécie de autoabsolvição generalizada, a possibilidade de continuar a pecar sem, por isso, ter de mudar de vida. «Mas quando a nossa vida não nos agrada, e se sabe que se tem mudar, não há escolha, certo? Como se faz para ser um outro? Impossível. Seria preciso não ser mais ninguém, abandonar-se completamente em alguém, pelo menos uma vez. Mas como? (…) Sim, perdemos a luz, a santa inocência de quem sabe perdoar a si próprio.» Encurralado entre desejo de abandono e rebelião – ao ponto de Sartre poder escrever que Camus «é um “antiteísta”, mais do que um ateu» – Camus não é capaz de desfazer o nó. «Eu», afirmará, «não creio em Deus e não sou ateu». Esta conjugação significa que o problema não está resolvido, permanece pessoalmente no limiar. «Nunca partirei do princípio de que a verdade cristã é ilusória, mas apenas do facto de que pessoalmente não pude entrar nela».



«Aqueles que suscitam amor, mesmo decaídos, reinam no mundo e justificam-no». Para além da queda e da revolta abre-se aqui uma possibilidade nova: a “graça” como “justificação” da existência



É contra o cristianismo e tem nostalgia da graça. «Quem testemunhará por nós? As nossas obras. Ai de mim! Quem, então? Ninguém, ninguém, exceto aqueles nossos amigos que nos viram naquele átimo do dom em que o coração se consagrava inteiramente a um outro. Em suma, aqueles que nos amam. Mas o amor é silêncio: todo o homem morre desconhecido».

Falta Aquele que pode salvar o amor secreto dos homens. No último romance de Camus, o esplêndido e incompleto “O primeiro homem”, que levava consigo no momento do embate mortal no automóvel, aquilo que resta é o amor de uma mãe, a mãe pobre e silenciosa do autor. Para ela, vestígio terreno do divino, vai a súplica do filho pródigo: «Ó mãe, ó terna, criança adorada, maior que o meu tempo, maior que a história que te sujeitava a si, mais verdadeira do que tudo aquilo que amei neste mundo, ó mãe perdoa ao teu filho ter fugido da noite da tua verdade».

Figura extrema de uma vida oculta, de uma dedicação sem recompensa, a «mãe é Cristo».

É «como um Myshkin ignorante. Não sabe nada da vida de Cristo, exceto a cruz. Porém, quem lhe é mais próximo?». Camus, que tinha lido o estudo de Romano Guardino “O universo religioso de Dostoiévski”, associa a figura materna ao protagonista de “O idiota”. Ela é o “idiota” cujo sacrifício de amor é mais forte do que a revolta: «Cristianismo da mamã no no termo da vida. A mulher pobre, infeliz, ignorante (…). Que a cruz a sustente». Como Agostinho em relação à mãe, Mónica, Camus encontra na mãe o eco de Cristo, o reflexo de uma dedicação imotivada mais forte do que toda a objeção: «Que coisa teria conservado valor? O silêncio de uma mãe. Diante dela depunha as armas». Daqui emerge a última, a mais autêntica religião de Camus: «Aqueles que suscitam amor, mesmo decaídos, reinam no mundo e justificam-no». Para além da queda e da revolta abre-se aqui uma possibilidade nova: a “graça” como “justificação” da existência. Uma graça que refulge onde o sacrifício é maior.

Daqui o afeto a Cristo, um Cristo totalmente terreno, é verdade, que conduz Clamence a confessar: «Gritei a própria agonia, e por isso amo-o, este amigo, morto sem saber», nisto seguida por Nancy Mannigoe, a protagonista de “Requiem por uma monja”, de Faulkner, que, na adaptação francesa de Camus, exclama: «Eu amo-o porque foi morto».

Neste amor a Cristo, Camus, que admirava o Jesus ressuscitado de Piero della Francesca, não vai além do sacrifício do Gólgota.

Permanece selada a exigência de uma graça que resplandece, a espaços, nas relações humanas, numa «companhia sem palavras», nos gestos nobres que «conservam inteiramente aos meus olhos um valor de milagre: um efeito exclusivo da graça».

É a opulência que ressalta da pobreza. «Para os ricos, o céu, sendo um dom em excesso, parece um dom natural; são só os pobres que lhe restituem o seu caráter de graça infinita».


 

Massimo Borghesi
In L'Osservatore Romano
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: D.R.
Publicado em 03.01.2020

 

 
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