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Al-Sistani é «um homem de Deus», diz papa, que revela as mulheres e o livro que o levaram ao Iraque

O papa afirmou hoje que o aiatóla Al-Sistani, figura proeminente dos xiitas iraquianos, com quem se encontrou no sábado, durante a visita ao Iraque, é «um grande, um sábio, um homem de Deus», o que só se percebe ao escutá-lo.

Em conversa com os jornalistas durante a viagem de regresso a Roma, em transcrição de trabalho, não oficial, publicada pelo jornal “L’Osservatore Romano”, Francisco observou que al-Sistani «é uma pessoa que tem sabedoria e também prudência»: «Dizia-me: “Eu desde há 10 anos não recebo pessoas que vêm visitar-me com propósitos políticos e culturais… apenas religiosos”».

«Ele foi muito respeitoso no encontro. Eu senti-me honrado. Inclusive no momento da saudação, ele nunca se levanta… Levantou-se para saudar-me, duas vezes, um homem humilde e sábio, fez-me bem à alma este encontro. É uma luz, e estas sábios estão por todo o lado, porque a sabedoria de Deus foi derramada em todo o mundo», assinalou.

«Sucede o mesmo com os santos que não são só aqueles que estão nos altares. Sucede todos os dias, aqueles que eu chamo os santos da porta ao lado, homens e mulheres que vivem a sua fé, qualquer que seja, com coerência. Aqueles que vivem os valores humanos com coerência, a fraternidade com coerência», frisou.



«Há algumas críticas: que o papa não é corajoso, é um inconsciente que está a dar passos contra a doutrina católica, que está a um passo da heresia, há riscos. Mas estas decisões tomam-se sempre em oração, em diálogo, pedindo conselho, em reflexão»



Francisco, que regressou hoje ao Vaticano, após a visita de quatro dias ao Iraque, salientou que é preciso descobrir estas pessoas, colocá-las em destaque, «porque há muitos exemplos». E acentuou: «Quando há escândalos, inclusive na Igreja, muitos, e isso não ajuda, mas façamos ver as pessoas que buscam o caminho da fraternidade, os santos da porta ao lado, e encontraremos seguramente pessoas da nossa família».

«O aiatóla al-Sistani tem uma frase que procuro recordar bem: os homens ou são irmãos por religião ou iguais por criação», realçou o papa, antes de salientar a importância da «fraternidade humana», que deve ser concretizada também «com as outras religiões».

«Tu és humano, és filho de Deus e és meu irmão, ponto! Esta será a maior indicação, e muitas vezes é preciso arriscar para dar este passo. Há algumas críticas: que o papa não é corajoso, é um inconsciente que está a dar passos contra a doutrina católica, que está a um passo da heresia, há riscos. Mas estas decisões tomam-se sempre em oração, em diálogo, pedindo conselho, em reflexão. Não são um capricho, e também são a linha que o Concílio [Vaticano II] ensinou», declarou.

Sobre a decisão da visita ao Iraque, o papa explicou que, como outras, se tratou de um «percurso longo» - «as viagens “cozinham-se” no tempo na minha consciência» - que começou a ser ponderado a partir do encontro com duas embaixadoras, que precederam mais dois, com o novo embaixador do país junto da Santa Sé e com o presidente iraquiano: «Todas estas coisas ficaram dentro de mim».



«Os 84 anos não vêm só, há uma consequência». Por agora, encontro marcado para a missa de encerramento do Congresso Eucarístico Internacional



«Mas há uma coisa por trás da decisão que eu quero mencionar: uma de vós [jornalistas] ofereceu-me a última edição espanhola do livro “Eu serei a última”, de Nadia Mourad [ed. portuguesa Objectiva, 392 páginas, 2017]. Li-o em italiano, é a história dos yazidi. E Nadia Mourad narra contas terrificantes. Aconselho-vos a lê-lo, em alguns pontos poderá parecer pesado, mas para mim este é o motivo de fundo da minha decisão», explicou.

«Esse livro trabalhou dentro de mim. Inclusive quando escutei Nadia [prémio Nobel da Paz 2018], que veio descrever-me coisas terríveis… Todas estas coisas juntas fizeram a decisão, pensando todas as problemáticas, muitas. Mas no fim chegou a decisão e eu tomei-a», referiu o papa, antes de referir que durante esta viagem se cansou «muito mais do que nas outras».

E acrescentou: «Os 84 anos não vêm só, há uma consequência». Por agora, encontro marcado para a missa de encerramento do Congresso Eucarístico Internacional, previsto para 5 a 12 de setembro, em Budapeste, capital da Hungria.


 

Rui Jorge Martins
Fonte: L'Osservatore Romano
Imagem: Papa Francisco, aiatóla al-Sistani | D.R.
Publicado em 08.03.2021

 

 
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