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«Agitar o Evangelho, ostentar o terço, beijar o crucifixo não faz de ti necessariamente um crente»

A «primeira intuição» da fé teve-a aos quatro anos, com o avô, ao olhar para o por-do-sol e ouvir o apito do comboio a vapor, no alto de uma colina sobranceira a um vale: «Tive a perceção do fim das coisas. A melancolia. A ideia de que a realidade é instável. O sentido da morte. Daí o desejo de alguma coisa de eterno».

Recorda que «concebeu sempre a fé como intersetada com a treva, a obscuridade, a pergunta, a dúvida». Os seus modelos são Abraão e Job: «Penso na subida de Abraão ao monte Moriá, juntamente com Isaac, o filho a sacrificar: durante três dias Deus deixa de falar, desaparece, e os dois falam entre eles, “meu pai”, “meu filho”; o único conforto é a solidariedade humana, o ligame da carne».

«Crer é um risco. Fé e religião não são sinónimos, ainda que estejam ligadas entre si. A fé é uma experiência existencial, uma opção radical. A religião é a manifestação exterior. Agitar o Evangelho, ostentar o terço, beijar o crucifixo não faz de ti necessariamente um crente.»

Explicita: «São sinais que por si não representam a autenticidade do crer. Cristo condena quem ocupa os primeiros lugares na sinagoga, que ostenta os filactérios, os pergaminhos com os versículos da Torá. Cristo perdoa todas as culpas, mas não suporta as hipocrisias. Não existe a autossalvação. Não há salvação com as manifestações exteriores, mas com a adesão profunda às opções morais e existenciais. Não é o gesto ritual que salva. O sacramento é “opus operatum”, ato objetivo marcado pela presença divina, mas também “opus operantes”, ato subjetivo, opção vital e moral. De outra forma é rito mágico. Magia».



«O Evangelho autêntico não é uma coisa que se acolhe como uma mensagem tranquila. E o cristianismo não é uma religião só transcendente, como o islão; é uma religião incarnada. Teve sempre uma dimensão social e política, no sentido original do termo»



Aos 76 anos, o cardeal italiano Gianfranco Ravasi foi convidado pelo jornal “Corriere della Sera” a comentar a política transalpina, nomeadamente o uso de símbolos cristãos por parte de um ministro, associando-os a linhas de rumo governativas. Mas quem sabe ler, tira conclusões que ultrapassam a realidade local. «É difícil reconstruir uma estrutura, uma presença explícita católica. No entanto é possível e necessário ser um espinho atravessado na sociedade. Não ter medo de andar contracorrente.»

Quando muitos estudiosos consideram que o sagrado está de regresso às sociedades ocidentais, faz sentido falar de escassez de fé? «O sagrado pode ser apenas qualquer coisa de ritual, de exterior, de convencional. Temo que o crer profundo esteja em crise.»

«Os verdadeiros crentes são a minoria. Não devemos e não podemos pretender ser maioria, gerir a sociedade como aconteceu no passado. Podemos e devemos ser, repito, um espinho atravessado, isto é, um testemunho vivo. Como os cristãos das origens, que se refugiavam nas catacumbas, mas não era por isso que renunciavam a comprometerem-se em público. Nós hoje podemos e devemos provocar. Dizer também o contrário daquilo que é dominante. Cristo, de resto, esteve com más companhias: prostitutas, pecadores, apóstolos que o traíram…»

O responsável pela relação do Vaticano com o mundo da cultura e com os não crentes está convicto de que «a opção de Cristo, e portanto a opção da Igreja, não é adequar-se ao contexto, mas ser força de provocação, que grita antes de tudo as verdades últimas – a vida e a morte, o bem e o mal –, mas também as verdades penúltimas: solidariedade, justiça, ética sexual, combate ao crime».



«Não fazemos o suficiente pelos fiéis. É mais simples fornecer uma tese à qual aderir e impor um ritual. Mas a fé implica formação, reflexão, partilha, compreensão»



«O Evangelho autêntico não é uma coisa que se acolhe como uma mensagem tranquila. E o cristianismo não é uma religião só transcendente, como o islão; é uma religião incarnada. Teve sempre uma dimensão social e política, no sentido original do termo.»

Na entrevista a Aldo Cazzullo, Ravasi fala dos papas que conheceu, desde Pio XII, que viu em Roma, em 1950, quando tinha oito anos, e observa que, preservada «a verdade da fé, existem na Igreja perspetivas diferentes».

«O papa Bento sabia-o, e no entanto confiou-me o Conselho Pontifício para a Cultura. Organizei o Átrio dos Gentios [plataforma de diálogo entre crentes e não crentes] de uma maneira algo diferente daquilo que ele tinha pensado, no entanto permitiu-mo e apoiou-me. Lembro-me bem das suas palavras ao telefone, quando me chamou a Roma: «Tenho de pedir-lhe um favor, sei que para si é um sacrifício deixar Milão… se quiser pensar nisso durante alguns dias…». Respondeu logo que sim, mas custou-lhe deixar a cidade, sede de uma das mais prestigiosas bibliotecas do mundo, a Ambrosiana, que dirigiu.

«É uma cidade extraordinária, pela socialidade e generosidade. O restauro da Ambrosiana valia 47 mil milhões de liras; à Igreja não custou um cêntimo, pagaram-no todos os milanesas, da Fundação Cariplo às pessoas simples, como aqueles pais que me pediram para dar a um códice restaurado o nome do filho que morreu por causa da droga. Em Roma, para salvar os frescos das catacumbas dos santos Marcelino e Pedro, tive de pedir ajuda ao Azerbaijão. No Centro San Fedele [Milão] tive durante 22 anos mil pessoas, a cada sábado do Advento e da Quaresma, para a leitura da Bíblia. Em Roma terei cinquenta.»

Sobre o atual papa, diz que a eleição «foi uma surpresa». «Quando entrámos no conclave, poucos esperavam que depois de Bento seria escolhido – e em pouquíssimas votações, não mais do que as do conclave anterior – um género diferente de papa, com uma visão tão inovadora.»

O prelado considera que «é necessária uma profunda revisão da pastoral e da linguagem», tendo em conta, por exemplo, «a cultura digital». E acrescenta: «Não fazemos o suficiente pelos fiéis. É mais simples fornecer uma tese à qual aderir e impor um ritual. Mas a fé implica formação, reflexão, partilha, compreensão».

«Não conhecemos só com a razão ou com os sentidos ou com a experiência estética. Quando alguém se enamora, não se enamora só da beleza: também um rosto imperfeito se torna expressão de significados que não são percetíveis só com a razão.» A fé é «outro canal de conhecimento, que no entanto não exclui a razão, o pensamento».


 

Rui Jorge Martins
Fonte: Corriere della Sera
Imagem: D.R.
Publicado em 18.06.2019

 

 
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