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«Acolhei-vos uns aos outros»: Como é que o apelo de S. Paulo se concretiza hoje nas paróquias?

A Igreja arde, no Espírito; está em saída; é chamada a ir além da doutrina; e a Igreja universal vive de comunidades particulares. Entre estas, as paróquias são as que mais sofrem as mutações sociais: uma desestabilização que pode ser uma oportunidade. Aos contextos em mudança associa-se o novo modelo eclesial: da “societas” à “communio”. Novos paradigmas diante dos quais as comunidades estão impreparadas, muitas vezes substituindo-se aos organismos territoriais de solidariedade e assistência.

Mas as paróquias são principalmente comunidades de fiéis (cf. Decreto “Apostolicam actuositatem” sobre o apostolado dos leigos, Concílio Vaticano II), e entre os seus muitos méritos e defeitos há uma certeza: vive-se a fraternidade quando as relações se tornam verdadeiramente humanas, e vive-se em comunidade quando nos acolhemos, porque sujeitos envolvidos para sempre na história e nos sentimentos de Cristo.

Na comunidade ressoa o convite de Paulo: «Acolhei-vos uns aos outros» (Romanos 15, 7). Numa época em que emerge um certo libertinismo existencial e espiritual, as «relações abertas» favorecem a criação de espaços fechados, de religiosidade privada. A sociedade aberta arrisca-se a produzir espiritualidade fechada: a liberdade pública impele para o âmbito do provado as vivências religiosas.

Neste contexto, as paróquias são chamadas a acolher as experiências e orientá-las, a serem guardadoras do fogo. Nas paróquias, primeiro espelho da Igreja, as relações profundas devem ser construídas a partir do acolhimento recíproco (cf. Efésios 4, 1-6).



A vida de seguimento nas comunidades não é o resultado “daquilo que se faz” e “daquilo que não se faz”, mas a possibilidade de enfrentar os riscos e a beleza da fé; e isto não vale somente para quem é acolhido, mas também para quem acolhe, que não deve esperar, dissimuladamente, que o outro aprenda o seu modo de viver ou a sua forma de fé



Não poucas vezes, a tendência para o moralismo, devocionismo e religiosidade privada facilita o isolamento religioso, através do qual se evita o confronto, para escapar à competição com os outros, seja do ponto de vista ético seja doutrinal. O isolamento religioso tem raízes profundíssimas: muitas vezes é fruto da pertença religiosa que dita condições precisas. É preciso voltar a conduzir constantemente as paróquias à sua essência: ser comunidade.

Sabemos que o autor dos Atos dos Apóstolos propõe constantemente um sumário de atitudes mais como ideal do que como tendo sido real. Vale a pena determo-nos sobre o valor da “comunidade” enquanto tal. Antes do «partir o pão» há a comunhão (cf. Atos 2, 42). A tradição identificou assim os dois momentos, ao ponto de confundir os próprios termos: fazer «comunhão» é «participação na Eucaristia». Mas fazer comunhão é antes de tudo reconhecer-se como guardião um do outro, porque cada um é precioso.

As paróquias são o lugar privilegiado onde todos devem sentir-se acolhidos, para além das suas condições de vida, as suas opções, segundo uma intenção de religiosidade cristã, ainda que “anónima”. Se na Igreja universal é preciso a libertação da tentação de se impor «com a força do mundo, mas antes com a fragilidade que dá espaço a Deus; livres de uma observância religiosa que nos torna rígidos e inflexíveis; livros dos laços ambíguos com o poder e do medo de se ser incompreendido e atacado» (Papa Francisco, “L’Osservatore Romano”, 1.7.2020), então as paróquias devem libertar-se de toda a rigidez e isolamento.



Para esconjurar o excesso de “comunitarismo” é preciso estar atento tanto à autorreferencialidade quanto à observância, dois limites do mesmo preconceito: «Estamos bem juntos se observarmos as regras». Uma perspetiva nostálgica que limita quer as comunidades paroquiais quer toda a Igreja



Isto é possível se reconhecerem que não estão em conflitualidade com o mundo, mas fazem sempre parte dele: e o “mundo”, para as comunidades paroquiais, são todos. Qualificámos-los de «distantes», «praticantes», ou «praticantes assíduos». Mas o verdadeiro perigo para estas “categorias” é o do isolamento. Para todos eles, encorajar a partilhar a vida e a fé significa, antes de tudo, promover o acolhimento, que poderemos traduzir numa atitude clara: «Para mim tu és um dom de Deus». Assim se desmoronam as paredes do isolamento para favorecer a certeza, totalmente teológica, que «ninguém está só», porque somos todos, de uma maneira ou de outra, «convocados em Cristo».

Acolher é certeza de que todos estamos nos sentimentos de Cristo (cf. Romanos 15, 5), é dar lugar ao outro sem sentimentalismos infantis (traduzíveis em «que belo que estamos juntos e nada mais nos importa») ou mecanismos ingénuos («o importante é a moral partilhada»), nem cedendo ao irenismo extremo (evitar todo o contraste).

Para esconjurar o excesso de “comunitarismo” é preciso estar atento tanto à autorreferencialidade quanto à observância, dois limites do mesmo preconceito: «Estamos bem juntos se observarmos as regras». Uma perspetiva nostálgica que limita quer as comunidades paroquiais quer toda a Igreja.



Quem acolhe numa comunidade cristã dá a oportunidade de viver um espaço de fé em que modelos e métodos de espiritualidade não são impostos. E isto vale quer para os párocos quer para os membros e grupos da paróquia



As comunidades sê-lo-ão como tais se souberem dar espaço às identidades e às experiências de fé em que o Espírito age. Assim, a fé é chamada à gentileza partilhada, ao acolhimento da diversidade, à esperança utópica.

A vida de seguimento nas comunidades não é o resultado “daquilo que se faz” e “daquilo que não se faz”, mas a possibilidade de enfrentar os riscos e a beleza da fé; e isto não vale somente para quem é acolhido, mas também para quem acolhe, que não deve esperar, dissimuladamente, que o outro aprenda o seu modo de viver ou a sua forma de fé.

Quem acolhe numa comunidade cristã dá a oportunidade de viver um espaço de fé em que modelos e métodos de espiritualidade não são impostos. E isto vale quer para os párocos quer para os membros e grupos da paróquia: estes últimos, muitas vezes, têm dificuldade em juntar unidade e solidariedade, identidade e abertura, particularidade e universalidade.

Só num acolhimento vivo e verdadeiro a inclusão das experiências tornar-se-á uma imersão de fé em que todos podem ser eles próprios, sendo acolhidos, acolhendo e dando-se, no comum seguimento de Cristo.


 

Umberto Rosario del Giudice
In L'Osservatore Romano
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: melitas/Bigstock.com
Publicado em 26.07.2021

 

 
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