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A “Última ceia” pintada por uma mulher

“Orate pro pictora”, orai pela pintora. São apenas três palavras, colocadas após uma assinatura, S. Plautilla, mas marcam uma reviravolta na história da pintura, e constituem uma das primeiras reivindicações feministas do mundo da arte. Estão escritas de maneira muito visível no canto superior esquerdo da “Última ceia” realizada pela Ir. Plautilla Nelli (1524-1588), uma comovente pintura a óleo de quase sete metros de comprimento e dois de altura, graças à qual a religiosa dominicana se consagrou como uma das grandes pintoras do Renascimento em Florença.

A sua obra-prima e a sua própria figura foram resgatados do esquecimento graças à Advancing Women Artists (AWA), uma organização dos EUA sem fins lucrativos que se dedica a estudar, restaurar e dar a conhecer criações artísticas realizadas por mulheres. Desde a sua fundação, em 2009, pela mecenas Jane Fortune, a AWA recuperou sessenta e seis obras; entre elas, o projeto mais importante é esta “Última ceia”.



Imagem "Última ceia" (det.) | Plautilla Nelli

Imagem "Última ceia" (det.) | Plautilla Nelli


O restauro custou 220 mil euros, oferecidos por doadores privados de vários países, que voltaram a dar esplendor aos treze personagens da cena retratada: o momento em que Jesus comunica aos doze apóstolos que há um traidor entre eles, Judas, que aperta na mão direita uma bolsa com os trinta dinheiros.

«É preciso recuperar este património oculto e dar a conhecer a visão oferecida por artistas que, por vários motivos, foram quase esquecidas pela história», observa a diretora da AWA, Linda Falcone. «Plautilla foi uma mulher extraordinária. Aprendeu sozinha a pintar, e ensinou a fazê-lo às outras monjas do convento de Santa Catarina, onde vivia, transformando-o num ateliê de onde saíam pequenas obras devocionais, presentes então em todas as casas dos nobres florentinos, como nos narra [o historiador de arte] Giorgio Vasari no seu livro sobre a vida dos artistas do seu tempo.               



Imagem "Última ceia" (det.) | Plautilla Nelli

Imagem "Última ceia" (det.) | Plautilla Nelli


Teve grande sucesso, e uma vez afirmada como pintora, encontrou a coragem para pintar uma “Última ceia”, que era a obra mais importante na carreira de todos os pintores da época. Era considerada a expressão máxima da perícia masculina. E ela responde com esta magnífica criação, em que retrata treze homens em dimensão natural, e onde deixou também a sua assinatura e um convite particular a que se rezasse por ela, reivindicando assim a realização.»

A primeira coisa que atrai a atenção ao contemplar a “Última ceia” desta singular religiosa são as mãos dos comensais. Plautilla delas extrai uma série de gestos: o de Jesus, que com a direita acaricia amorosamente S. João, e com a esquerda entrega um pedaço de pão a Judas; os dedos entrelaçados, em posição de oração; o indicador que aponta para o alto; as mãos apoiadas energicamente na mesa. Esta está coberta com uma magnífica toalha e ricamente apresentada, com copos e garrafas de vinho, travessas de verduras, pães, três elegantes saleiros, e, ao centro, um cordeiro recém-cozinhado. Em suma, uma natureza morta no meio dos apóstolos.


Imagem "Última ceia" (det.) | Plautilla Nelli

Imagem "Última ceia" (det.) | Plautilla Nelli


«Há um grande cuidado no detalhe, quer na mesa quer nas mãos, que mostram as veias, os tendões e atá as cutículas das unhas. Plautilla diferencia muito bem os vários companheiros de Jesus e dá-nos informações sobre cada um deles, com base no aspeto e, em particular, na barba», explica Rosella Lari, responsável pelo projeto de restauro da pintura.

Plautilla era uma mestra de pintura para as religiosas do convento. «Parece que foram cerca de oito a participar na realização da “Última ceia”. Naquele tempo, os mosteiros eram um polo de conhecimento e de poder para as mulheres», assinala Falcone. O de Santa Catarina em Florença sustentava-se graças aos quadros devocionais que eram pintados por Plautilla Nelli e suas companheiras. A religiosa começou por se inspirar em algumas criações do Beato Angélico, através de alguns desenhos de Fra Bartolomeo por ela herdados. Foi deste pintor do início do século XV que extraiu a ideia de assinar a “Última ceia” com o pedido a quem a contemplava de orar pelo seu autor, declinando a pedido no feminino e colocando-o em posição bem visível.


Imagem "Última ceia" | Plautilla Nelli


Pintado para embelezar o refeitório do convento, o quadro ficou ali exposto durante quase três séculos, até que, com a invasão napoleónica no início do século XIX e a supressão das ordens religiosas, passou para o complexo monástico de Santa Maria Novella, para adornar o refeitório dos dominicanos. Era aí que se encontrava quando ocorreram as inundações de 1966 que devastaram Florença e danificaram uma parte importante do seu património artístico. A água não chegou a tocar no quadro, ficou a poucos centímetros, mas ainda assim provocou a deterioração da tela por causa da excessiva humidade. Para a diretora Linda Falcone, recuperar as obras e as figuras como esta religiosa significa realizar um ato de justiça em relação a elas.


 

Darío Menor
In Donne Chiesa Mondo (L'Osservatore Romano)
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: "Última ceia" (det.) | Plautilla Nelli
Publicado em 30.03.2020

 

 
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