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Pré-publicação: "A Trindade é um mistério – Mas podemos falar disso"

Imagem Capa (det.) | D.R.

Pré-publicação: "A Trindade é um mistério – Mas podemos falar disso"

«A Trindade é um dos grandes mistérios do Cristianismo, e desconcertou até pensadores geniais como Santo Agostinho. Neste ensaio, Alexandre Palma estuda a "hipótese trinitária" como uma “experiência de Deus”»: é nestes termos que o poeta e crítico literário Pedro Mexia se refere ao novo livro “A Trindade é um mistério – Mas podemos falar disso”.

Redigido por Alexandre Palma, o volume publicado pela Paulinas Editora «dá lugar a um estranho, Deus-Trindade, apontando para lugares onde Deus parece ter perdido o lugar», sublinha o teólogo José Frazão Correia, provincial da Companhia de Jesus (Jesuítas).

«Alexandre Palma ensina-nos o que é, e como se vive, a portentosa experiência do encontro pessoal com Deus, com Deus Uno e Trino», aponta o historiador José Mattoso, enquanto o jornalista Francisco Sarsfield Cabral refere-se ao ensaio como sendo um «belo livro de teologia, mas que é acessível a não teólogos», ajudando «a aprofundar o mistério de um Deus que se comunica».

O autor, nascido em 1978, iniciou estudos na área da engenharia, que deixou para estudar Teologia, tendo sido ordenado padre no patriarcado de Lisboa. Prosseguiu os estudos em Roma, onde se doutorou pela Pontifícia Universidade Gregoriana. É professor na Faculdade de Teologia da Universidade Católica e membro da equipa formadora do Seminário dos Olivais, além de investigador do Centro de Estudos Religiões e Culturas daquela faculdade e membro da redação da edição portuguesa da revista “Communio”.

Apresentamos alguns excertos da obra, que estará disponível nas livrarias na próxima segunda-feira, 17 de novembro.

A Trindade é um mistério
Alexandre Palma

Três figuras em torno de uma mesa posta. Esta é uma representação comum de Deus. Mas, ao mesmo tempo, representação de uma imagem incomum de Deus. Tenho em mente, por exemplo, o célebre ícone do pintor e santo russo A. Rublev. Trata-se, contudo, de um tipo de representação que está longe de ser um exclusivo seu. São três que, como disse, se dispõem à volta de uma mesa e que parecem simplesmente conviver. São três que agem de forma coordenada e trocam olhares de intimidade. São três cujas faces se assemelham ao ponto de eles nos parecerem indistintos. A própria forma da mesa insinua-nos um estilo circular de vida, feito de mútua hospitalidade e de existências totalmente voltadas para o próximo. Como pode isto ser uma representação de Deus? Tais figuras em nada se parecem com aquela ideia grandiosa de Deus como ser supremo, eterno, infinito, omnipotente, omnisciente e demais atributos do género. Tudo conceitos graves e sólidos, mas também abstratos e frios. Uma tal composição, pelo contrário, parece feita à nossa escala. Nela mais se parece descrever algo da nossa própria experiência de vida. Como pode isso ser uma imagem de Deus?

A perplexidade é séria e estende-se muito para lá do universo da iconografia. Ela é, em sentido próprio, uma perplexidade teológica. Porque num tal tipo de representação procura-se dar forma não a uma noção genérica de Deus, mas àquela peculiar visão cristã de Deus como Trindade. Talvez uma tal representação se tenha tornado hoje ilegível para muitos, que nela mais não verão que três estranhos indivíduos. Como ilegível se lhes terá tornado também essa mesma fé trinitária em Deus. É acerca desta perplexidade e desta iliteracia que quero aqui refletir.

Falar hoje da Trindade será como apresentar um estranho. Escutar um tal discurso suporá disponibilidade para acolher esse estranho em nossa própria casa, à semelhança do que fizeram Abraão e Sara. Porque a visita de Deus e a hospitalidade humana são realidades que mutuamente se exigem. E a reflexão que agora se inicia quer ser precisamente isto: um convite a hospedar a Trindade. A hospedá-la na nossa conversa e na nossa inteligência. Se possível na nossa experiência de vida. A quem já crê na Trindade e a quem ela não levanta quaisquer questões, um convite a acolhê-la de novo, aceitando olhá-la agora por um outro prisma. Não para lhe distrair o olhar, mas para lhe alargar o horizonte. A quem desconhece o que seja a Trindade ou para quem isso mais não seja que um enigma teológico, convite a deixar-se visitar por essa estranha maneira de pensar e crer em Deus.

Tomo aqui o amplo espectro das nossas experiências (de Deus, do outro, de si, do mundo) como autêntico lugar onde Deus passa e nos visita. Não um Deus qualquer, mas como no episódio de Abraão e Sara, um Deus com ressonâncias trinitárias. De igual modo, procuro tomar a proposta trinitária como uma lógica que nos faz revisitar a nossa própria experiência de vida. Entre visitação de Deus e revisitação das nossas experiências se tece, pois, o fio que conduz esta aproximação ao tema da Trindade.

Com certeza que hei de visitar alguns autores-chave da reflexão cristã em torno da Trindade. Mas este não é um ensaio sobre autores, mesmo quando eles são convidados e hospedados nestas páginas. Eles aqui estão para que com eles possamos dialogar. Mais ainda, para nos deixarmos estimular pelas suas maiores intuições. Este é sim um ensaio sobre a nossa experiência como lugar de Deus e, vice-versa, sobre o lugar de Deus na nossa experiência. Tal supõe uma dedicada atenção à realidade. Supõe algo próximo daquilo que G. K. Chesterton prescrevia para todo conhecimento humano, mas particularmente para a teologia: «Toda a ciência, mesmo a divina [a Teologia], é um sublime conto de deteção. Só que não para detetar porque está alguém morto; mas para saber o segredo mais obscuro do que é isso de se estar vivo». É a isto que aqui me proponho: uma teologia da deteção das marcas trinitárias de Deus junto de nós. Para perceber esse segredo obscuro de Deus ser uma Trindade viva e não um conceito morto.

A Trindade não é somente uma dificuldade para quantos olham a fé cristã como algo alheio. É também uma perplexidade que habita e atravessa muitos cristãos. Incómodo normalmente contornado com o silêncio. Com efeito, não será hoje de todo incomum que nem sequer se toque neste assunto, mesmo na pregação eclesial. Certamente porque não serão poucos os que veem nela uma «fórmula vazia» de sentido, uma «relíquia sagrada convertida em ritual» que «dificilmente chega a plasmar» os percursos pessoais. Hoje, já é suficientemente difícil acreditar em Deus, para que lhe acrescentemos essa complicação suplementar!

O que é que muda por se acreditar num Deus tripessoal? E se, em vez disso, os cristãos acreditassem num Deus unipessoal? Ou decapessoal? O que é que mudava? Aparentemente muito pouco ou mesmo nada. Estou consciente da estranheza que pode causar este modo de colocar o problema. Contudo, vale a pena enfrentar a questão trinitária também sob este prisma. É uma espécie de teste à real centralidade do modo trinitário como o Cristianismo descreve a Deus. Da sua centralidade formal não restam grandes dúvidas. Mas da sua centralidade existencial sim, poderão restar fundadas dúvidas. O raciocínio parece simples: se com ela nada muda, então podemos bem passar sem a Trindade; se sem ela tudo permanece igual, então é porque ela não será tão central na vida cristã quanto o pretendem as declarações de princípio. Como diz Goethe, dela parece não advir «a mais pequena ajuda».

Admita-se que o mundo da experiência seja também um espaço onde Deus se dá como Trindade. Faça-se do nosso experimentar um ponto de partida para o aprofundamento do que possa ser um Deus assim. Faça-se da experiência o solo onde a reflexão trinitária lance raízes e cresça alimentada pelo tanto que descobrimos na vida do mundo. Corramos o risco teológico de ampliar o espaço a partir do qual tentamos pensar a Trindade. Sem desconsiderar a história bíblica como a grande narrativa onde a Trindade se mostra e dá a pensar, mas reconhecendo que esta mesma história abre novas possibilidades de sentido à história universal da experiência humana. Admitamos, pois, que Deus continua a fazer-se experimentar. Admitamos, pelo menos, que Deus continua a fazer-nos experimentar realidades que trazem impresso qualquer coisa de trinitário; a fazer-nos experimentar acontecimentos que trazem consigo alguma daquela dinâmica comunitária de vida que está no centro da noção cristã de Deus. Admitamos, enfim, que de tudo isso e que com tudo isso se pode pensar e dizer algo acerca da Trindade. Pergunte-se pois: que há no mundo da nossa experiência que nos fala da Trindade? Que há em nós que nos fala da Trindade? Que há no outro que nos fala da Trindade?

Por estranho que possa parecer, não é fácil elencar os lugares onde se dá ou pode dar uma experiência de Deus. Não por esses lugares serem poucos, mas, ao invés, por serem demais. Em princípio, qualquer experiência humana pode ser base dessa tal experiência de Deus. Penso não apenas nas experiências felizes, mas também naquelas que parecem até contradizer Deus, como a morte, o sofrimento ou o mal. Entre todas elas, porém, a oração ocupará um lugar cimeiro. Será aí onde, quase espontaneamente, os crentes situarão muito da sua experiência de Deus. Este será um dado transversal a toda a experiência humana e religiosa, independentemente da época em que se verifique, da geografia onde ocorra ou da cultura em que se exprima. A oração é, sem sombra de dúvida, um lugar privilegiado da experiência de Deus. Não que a experiência orante e a experiência de Deus sejam uma só e a mesma coisa. Se não as podemos separar, convém também que as não confundamos. A oração é essa experiência de primeiro nível, no interior da qual se pode dar esse segundo nível onde Deus se dá ao nosso experienciar.

Ao cético do seu tempo, mas também do nosso, a esse que luta com a imagem trinitária de Deus, Agostinho interpela de modo direto e franco: «Tu dirás: “Eu vejo o amor, [...] mas, ao vê-lo, não vejo a Trindade.” Bem pelo contrário, se vês o amor vês a Trindade. Levar-te-ei, se puder, a ver que vês». Eis uma resposta às perplexidades com a Trindade que, mais do que do século V, nos chega diretamente da nossa experiência. É que também nós, quando vemos o amor, vemos qualquer coisa de trinitário, mesmo que disso não nos apercebamos. É que também nós, quando experimentamos o amor ao outro, experimentamos qualquer coisa de trinitário, mesmo que disso nem sempre tenhamos consciência. O amor inscrito na nossa experiência do outro mostra-se, pois, uma gramática ajustada para a interpretação da fé trinitária. Nele podemos ver que já vemos qualquer coisa da Trindade.

Na Trindade, ser é sempre ser-para-o-outro. Ser é relação descentrada de si. Longe disto provocar uma crise de identidade em cada uma das pessoas divinas, é isso que as faz ser quem são e o que são. Pois na Igreja parece, por vezes, hesitar-se entre concentrar-se na sua vida interna ou abrir-se ao mundo exterior; entre cultivar a própria identidade ou dialogar com a diferença. Trinitariamente pensado, este impasse parece ter menos sentido. Interioridade e exterioridade, comunhão e missão, identidade e alteridade não variam em proporção inversa. Pelo contrário, a correlação é de mútua promoção. Assim, não há comunhão eclesial no isolamento face ao mundo. Mas também não há autêntica abertura eclesial no desprezo da sua vitalidade interna. J. Moltmann falava, a este respeito, do «dilema identidade-envolvimento». Para ele, nisto se jogava muito da crise de relevância com que o Cristianismo e a Igreja estarão hoje confrontados no Ocidente. A saída não está na dialética oposição que nos faz ter de escolher entre identidade ou envolvimento. Está, antes, nessa forma de estar, que creio trinitariamente inspirada, capaz de ver a «identidade como envolvimento».

É grande a surpresa de alguns quando constatam que não somente os teólogos se interessaram e se interessam por temas como a Trindade. Isso, de facto, baralha certas formas herméticas de olhar a questão, sobretudo da parte de alguns crentes. Mas baralha igualmente quantos desdenham a fé na Trindade como resquício de uma consciência religiosa ainda num estado primitivo. Perante tais incursões estrangeiras, certos crentes sentem-se invadidos no seu espaço religioso e tendem a reagir face ao que, com facilidade, lhes parece uma dessacralização da sua fé. Numa coisa não se enganam: esses olhares verão na Trindade coisas distintas. Mas daí não se segue que sejam forçosamente contraditórias. No polo oposto, outros escandalizam-se perante essa aparente cedência de gente culta e inteligente ao estranho mundo da fé e do dogma. Como se não fosse expressão de inteligência, ou mesmo de simples humanidade, interessar-se pelo que interessa a outros.

O modo trinitário de ser comunhão torna-se o estado mais evoluído de ser no mundo. Torna-se, enfim, aquele para o qual havemos de fazer evoluir o mundo que somos, mas também sobre o qual agimos. Aqui sim, no exercício da nossa liberdade e sem outras hesitações, pode-se dizer que a comunhão trinitária é a meta do mundo. Tendo bem presente, porém, que esta comunhão não é o efeito final de um processo natural, mas é o resultado de uma liberdade comprometida com a graça do Deus Trindade e com a edificação de um mundo trinitário. Porque a tal comunitarização do mundo não é um processo que atravessamos de forma meramente passiva. E isto talvez o percebamos melhor hoje, pois, no meio de crises ecológicas e outras do género, vai-se tornando evidente como o Homem tem mesmo uma capacidade de intervir de forma decisiva nos processos da natureza.

Operar e cooperar para que no mundo se consolidem formas superiores de comunhão não é um simples efeito do nosso destino evolutivo, mas uma intencionalidade que havemos de pôr no nosso compromisso com o mundo. Também o mundo tem de ser ativamente edificado segundo uma lógica trinitária, até que tudo no mundo chegue à medida completa da plenitude da Trindade.
Eis como a imagem trinitária de Deus pode ter algo a dizer à nossa experiência. Sobretudo, para despertar nela a intuição de que fazer comunhão é a forma mais evoluída de ser. Para cultivar nela o sentido divino dos processos naturais. Para fortalecer nela a motivação para uma superior configuração com o modo trinitário de ser. Não se encontra, pois, na reflexão trinitária um manual de como agir no mundo. É a outro nível que está a sua capacidade de tocar e recompor a nossa experiência do mundo. Ela ilumina teologicamente a inteligência dos processos naturais e dá ao nosso agir sobre o mundo uma finalidade mais nítida. Ela, no fundo, não prescreve uma ação, mas transforma o agente. Coisa, sem sombra de dúvida, bem mais digna da sabedoria de Deus e da liberdade do Homem.

Uma antiga lenda medieval conta que, certo dia, Santo Agostinho refletia sobre a Trindade caminhando ao longo do mar, numa qualquer praia do Norte de África. Aí se debatia com esse Mistério divino, lutando consigo para nele conseguir penetrar com a luz da sua fulgurante inteligência. Enquanto assim deambulava, uma criança na praia, com um pequeno balde ou objeto semelhante, parecia querer transferir todo o mar para uma pequena cova que ela própria cavara na areia. Agostinho, interrompendo as suas elucubrações teológicas, teria abordado a criança para paternalmente lhe fazer ver como ela se afadigava em vão, pois que o mar é imenso e aquela sua cova era tão pequenina. Então, a criança transformara-se subitamente num anjo, que lhe replicara: «Agostinho: é mais fácil para mim pôr toda a água do mar nesta cova, do que tu colocares todo o Mistério da Trindade na tua inteligência.»

 

Publicado em 13.11.2014

 

 

 
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Talvez uma tal representação se tenha tornado hoje ilegível para muitos, que nela mais não verão que três estranhos indivíduos. Como ilegível se lhes terá tornado também essa mesma fé trinitária em Deus
É a isto que aqui me proponho: uma teologia da deteção das marcas trinitárias de Deus junto de nós. Para perceber esse segredo obscuro de Deus ser uma Trindade viva e não um conceito morto
O modo trinitário de ser comunhão torna-se o estado mais evoluído de ser no mundo. Torna-se, enfim, aquele para o qual havemos de fazer evoluir o mundo que somos, mas também sobre o qual agimos
A saída não está na dialética oposição que nos faz ter de escolher entre identidade ou envolvimento. Está, antes, nessa forma de estar, que creio trinitariamente inspirada, capaz de ver a «identidade como envolvimento»
O amor inscrito na nossa experiência do outro mostra-se, pois, uma gramática ajustada para a interpretação da fé trinitária. Nele podemos ver que já vemos qualquer coisa da Trindade
É grande a surpresa de alguns quando constatam que não somente os teólogos se interessaram e se interessam por temas como a Trindade. Isso, de facto, baralha certas formas herméticas de olhar a questão, sobretudo da parte de alguns crentes
Não se encontra na reflexão trinitária um manual de como agir no mundo. É a outro nível que está a sua capacidade de tocar e recompor a nossa experiência do mundo
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