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A tarefa da Páscoa

«Porque é que esta noite é diferente de todas as outras noites?» É o mais pequeno de cada família judaica a abrir a série de perguntas no coração do “séder” pascal, a liturgia doméstica que faz memória da saída do povo de Israel do Egito e da condição de escravidão. Diferente, radicalmente diferente, porque noite do inaudito, do sonho sempre vivo da prevalência da liberdade sobre a escravidão, da luz sobre as trevas, da vida sobre a morte.

Infelizmente hoje os crentes parecem ignorá-lo, mas a Páscoa é uma festa de libertação: um grupo de migrantes nas terras do Médio Oriente, acolhidos no Egito após a sua corrida para o pão, depressa se tornaram escravos, mas graças à sua fé no Deus “goel, libertador”, saíram da opressão do faraó rumo a uma terra de liberdade. Migrantes eram por isso os nossos pais, e na realidade nessa condição – repetem os cristãos – permanecemos também hoje, sempre comprometidos na incessante procura de uma terra habitável na liberdade, na justiça e na fraternidade.

Também por isso, em certo sentido, cada noite de Páscoa é diferente de todas as noites de Páscoa que a precederam ao longo dos séculos. Diferente não com certeza por mudar o mistério celebrado pelos judeus e depois pelos cristãos. No entanto cada Páscoa é diferente porque é diferente cada crente que a celebra, diferente dos seus irmãos e irmãs na fé, e diferente de si mesmo na mudança das estações e dos anos. Mais profundamente, ainda, cada noite de Páscoa é diferente também porque é diferente a sociedade no interior da qual os cristãos a celebram, não só pela diferença existentes entre países em que foram historicamente maioria e países em que são minoria mais ou menos exígua e mais ou menos hostilizada e perseguida.



Se há um rosto de Cristo que não muda na história é aquele impresso em cada ser humano sofredor ou indefeso: o fraco, o estrangeiro, o órfão e a viúva, o doente, o encarcerado, o esfomeado, o sedento, o despido, numa palavra, “o diferente”, ou, com um termo recorrente no Evangelho, “o pequenino”



Não, a diversidade da Páscoa encontramo-la igualmente na profunda mudança ocorrida nos últimos anos em países de antiga cristandade, nos quais, até há pouco tempo, era simplesmente impossível vangloriar-se em público de infringir os mandamentos ou renunciar impudicamente com discursos e ações de ódio à mensagem das bem-aventuranças cristãs. Em vez disso, agora, na sequência da crise política e económica conhecida por todo o Ocidente, desenvolveram-se ressentimentos, rancores e malvadez, fomentados e feitos emergir sem a mínima vergonha: a pobreza tornou-se uma culpa, e os excluídos, os «descartados», os marginalizados tornaram-se os «delinquentes» a fazer desaparecer até da vista, números, e não pessoas, de quem é preciso desconfiar e defender-se.

Assim, um novo elemento de diversidade se impôs na Páscoa: a celebração do mistério da ressurreição torna-se manifestação do cuidado da Igreja pelo diferente. Nunca faltaram na história as testemunhas da caridade cristã, mas os sofredores para os quais elas se dobravam eram quase sempre pertencentes à mesma comunidade de fé, e por isso sentidos e percecionados como “nossos”.

A voz de eminentes pastores, a começar pelo papa Francisco, eleva-se com força, mesmo ao preço de desafiar um bom número dos próprios católicos praticantes, para não falar de quem concebe o seu ser cristão como defesa identitária de um campanário que parece tocar apenas lúgubres badaladas de resistência a um inimigo criado pelo imaginário coletivo. Ocupa cada vez mais a cena uma política que não se alimenta de cultura e não conhece qualquer humanismo, mas que é feita de insultos, maledicências, grosserias que tornam impossível qualquer debate.



A abertura a quem foge da fome e da guerra, o acolhimento do estrangeiro e do pobre, o respeito pela dignidade humana não estão só inscritos na lei marítima, na Constituição ou nas declarações universais dos direitos humanos: estão inscritos com palavras de fogo no próprio Evangelho, são o coração da mensagem da Páscoa



Todavia, se há um elemento universal no tempo e no espaço do anúncio cristão é a equivalência entre amor de Deus e amor do próximo, que se estende até ao amor pelos inimigos, se há um rosto de Cristo que não muda na história é aquele impresso em cada ser humano sofredor ou indefeso: o fraco, o estrangeiro, o órfão e a viúva, o doente, o encarcerado, o esfomeado, o sedento, o despido, numa palavra, “o diferente”, ou, com um termo recorrente no Evangelho, “o pequenino”. E, precisamente em virtude desta presença do seu Senhor nos mais pobres, a Páscoa dos cristãos, sempre diferente, tem uma tonalidade imutável: é festa de esperança para todos, ninguém excluído, ninguém marginalizado, ninguém colocado “depois” de um “antes” que significaria “nunca”.

A Páscoa, por isso, não pode significar “contemplação”, memória de acontecimentos passados, mas requer um compromisso a quantos a celebram: compromisso por uma indignação eficaz e por um sobressalto das consciências que provoquem uma nova resistência perante a cultura da discriminação, da violência, da ilegalidade. O facto de os cristãos, quer singularmente quer como comunidade, estarem com frequência gravemente ausentes do testemunho diário desta “opção preferencial pelos pobres” nunca poderá justificar a distorção do Evangelho e da mensagem da cruz e da ressurreição, abusando dela para a brandir como arma contra os diferentes, os outros, aqueles que estamos sempre a tentar esmagar para não ocuparmos nós o último lugar.

A abertura a quem foge da fome e da guerra, o acolhimento do estrangeiro e do pobre, o respeito pela dignidade humana não estão só inscritos na lei marítima, na Constituição ou nas declarações universais dos direitos humanos: estão inscritos com palavras de fogo no próprio Evangelho, são o coração da mensagem da Páscoa, da vida mais forte do que a morte, da vitória do amor.


 

Enzo Bianchi
In Monastero di Bose
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: vverve/Bigstock.com
Publicado em 27.04.2019

 

 
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