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A revolução cultural da “Laudato si’”

Na próxima sexta-feira, 24 de maio, a encíclica “Laudato si’” cumprirá quatro anos: poucos para uma vida, por vezes muitos para um documento, mas não para este, que mantém a frescura original e a atualidade de um tema que está sempre presente do debate sociopolítico e cultural. Os desafios que o texto destacou, com efeito, estão todos presentes hoje: pensemos no envenenamento geral do planeta, no problema da eliminação do lixo, na crise da água e da biodiversidade, nas alterações climáticas.

São problemas que evoluem com muita aceleração, que preocupa cada vez mais, e demonstram que a questão ecológica é grave também pela ausência da compreensão cultural da questão, na consciência, como escreve o papa, de que na realidade «há uma grande deterioração da nossa casa comum», e que «o atual sistema mundial é insustentável» (n. 61).

O mesmo papa Bergoglio, no passado primeiro de maio, na mensagem para a iniciativa “Economia de Francisco” (que decorrerá em Assis em março do próximo ano), escreveu que «na carta encíclica “Laudato si’” sublinhei como hoje, mais que nunca, tudo está intimamente ligado, e a salvaguarda do ambiente não pode ser separada da justiça para com os pobres e das soluções dos problemas estruturais da economia mundial. É preciso, portanto, corrigir os modelos de crescimento incapazes de garantir o respeito pelo ambiente, o acolhimento da vida, o cuidado pela família, a equidade social, a dignidade dos trabalhadores, os direitos das gerações futuras. Infelizmente, continua ainda por escutar o apelo a tomar consciência da gravidade dos problemas, e sobretudo em concretizar um modelo económico novo, fruto de uma cultura da comunhão, baseado na fraternidade e na equidade».



É profunda na encíclica a preocupação do papa pela casa comum; não se limita às análises, mas denuncia fortemente a fragilidade da resposta política dos governos e da própria comunidade internacional, muitas vezes sujeita aos soberanismos mais fortes



Também é verdade que cresce, na sociedade e nos cristãos, a sensibilidade para com os problemas emergentes do ambiente; mas o envenenamento – nota o papa – aumenta nas várias formas, causas e efeitos: envenenamento atmosférico, do solo e das águas; o industrial e do transporte; o envenenamento agrícola, quando a agricultura não tem uma visão sã e, portanto, não é sustentável; o do lixo doméstico, clínico, eletrónico, radioativo.

A acentuação dos problemas da alteração climática tem fortes repercussões na própria agricultura, nos fluxos migratórios, na fome no mundo e na segurança alimentara.

O papa indica as causas da mudança climática e os seus efeitos, sublinhando que os diferentes sujeitos políticos e económicos, interessados em conservar o atual modelo de produção e consumo, tendem a «mascarar os problemas ou a esconder os sintomas, procurando apenas reduzir alguns impactos negativos» (n. 26).

Naturalmente, as alterações climáticas provocam também a escassez da água, que, por sua vez, tem importantes consequências na vida das pessoas e na biodiversidade do planeta. Por isso é necessário voltar a uma agricultura sustentável, que poderá ser um objetivo sem sentido se não inclui a consideração pela vida humana. Para os cristãos, trata-se de melhorar as condições naturais em que cada ser humano pode conseguir a plenitude de filho de Deus, cuidando da criação e de cada pessoa.



Francisco não propõe bloquear o percurso do desenvolvimento, mas aponta um novo modelo, sustentável, que volte a colocar no centro de tudo a pessoa humana, colocando em discussão o atual modelo de produção e consumo, de finança e comércio internacional



O papa volta a propor a centralidade da política, entendida como o instrumento para realizar as opções que se desejam concretizar, de longo alcance, prevendo o futuro e indo além das cadências eleitorais. Nesse sentido, o papa Francisco sugere a necessidade de um governo global, ou seja, a necessidade da «presença de uma verdadeira autoridade política mundial», como tinham proposto S. João XXIII e, depois, Bento XVI, na “Caritas in veritate”, «para o governo da economia mundial, para sanar as economias atingidas pela crise de modo a prevenir o agravamento da mesma e consequentes maiores desequilíbrios, para realizar um oportuno e integral desarmamento, a segurança alimentar e a paz, para garantir a salvaguarda do ambiente e para regulamentar os fluxos migratórios» (n. 175).

É profunda na encíclica a preocupação do papa pela casa comum; não se limita às análises, mas denuncia fortemente a fragilidade da resposta política dos governos e da própria comunidade internacional, muitas vezes sujeita aos soberanismos mais fortes.

De resto, parece-nos que assistimos ao falhanço das últimas cimeiras mundiais sobre o ambiente. O papa propõe a visão de uma ecologia inspirada no bem comum e na justiça entre gerações, convidando para o diálogo todos os sujeitos envolvidos. Francisco não propõe bloquear o percurso do desenvolvimento, mas aponta um novo modelo, sustentável, que volte a colocar no centro de tudo a pessoa humana, colocando em discussão o atual modelo de produção e consumo, de finança e comércio internacional.

Incidir, portanto, sobre a qualidade do desenvolvimento, valorizando os recursos que temos, a terra, a água, a agricultura, o alimento. Na prática, o papa propõe uma «corajosa revolução cultural» (n. 114), isto é, uma mudança de mentalidade e direção, concretizando processos de mudança para trabalhar a longo prazo, sem a obsessão dos resultados imediatos, como escreve na “Evangelii gaudium” de novembro de 2013. Uma mudança de mentalidade, por isso, que favoreça o processo de reanimação da economia, através de um pacto para dar uma alma à economia de amanhã, como escreve na mensagem para o encontro “Economia de Francisco”.


 

Vincenzo Conso
In L'Osservatore Romano
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: Mihailo K/Bigstock.com
Publicado em 22.05.2019

 

 

 
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