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"A Palavra para os Homens": coletânea de textos do padre João Resina
O livro "A Palavra para os Homens", coletânea de textos do padre João Resina (1930-2010) publicada pela Paulus Editora, vai ser apresentado no dia 13 de dezembro na paróquia do Campo Grande, em Lisboa, onde foi coadjutor.
A nota prévia do volume lembra que em outubro de 2001, na missa em que tomou posse como responsável pela paróquia da Cruz Quebrada e Dafundo, também no patriarcado lisboeta, o sacerdote pediu aos fiéis que se interessassem «por levar Jesus àqueles que ainda não acreditam n’Ele».
«Ao reunir, para posterior publicação, textos da sua autoria produzidos, essencialmente, desde essa data até à sua partida para o Pai, no início de junho de 2010, textos estes ainda não publicados nos dois volumes A Palavra no Tempo (o primeiro em 1995 e o segundo em 2006), procuramos dar o nosso pequeno contributo para, com a Palavra do padre João, "levar Jesus àqueles que ainda não acreditam n’Ele" e simultaneamente alimentar a Fé dos crentes que vierem a ler estes textos», refere o prólogo.
Os organizadores optaram por publicar os textos inéditos tal como foram encontrados, mesmo sabendo que, provavelmente, teriam sido aperfeiçoados pelo sacerdote se tivesse pensado publicá-los.
Após o testemunho de monsenhor Vítor Feytor Pinto, pároco do Campo Grande, que oferecemos, apresentamos o índice da obra que é apresentada às 18h30 no salão da paróquia.
Uma entrega total aos outros
Mons. Vítor Feytor Pinto
Foi por volta de 1968 que cruzei a minha vida com um jovem padre, acabado de chegar de Lovaina. Ele fizera ali o seu doutoramento em Filosofia e lecionara também na Universidade de Lovaina durante alguns anos. Se o seu saber me fascinou, foi a sua verdade, o seu carácter, o seu amor ao sacerdócio e à Igreja que mais me impressionaram. Este jovem sacerdote era o padre João Resina. Trabalhou com o padre Armindo em várias iniciativas na paróquia de Santa Isabel. Foi aqui que o conheci.
Depois, acompanhei o seu itinerário, nada fácil, na Capela do Rato, onde se concentravam cristãos com esperança de uma Igreja com o rosto humano; em São Nicolau, onde se pretendia dar uma imagem diferente à presença dos cristãos na Baixa de Lisboa; em Moscavide, onde no convívio com a população feita de trabalhadores e famílias muito humildes, com imensas dificuldades, crescia uma verdadeira comunidade cristã. Nos finais da década de 70 do século XX, reencontrei o padre João, como vigário paroquial, a trabalhar com o padre Armindo, na comunidade do Campo Grande. Eu celebrava às 7 da tarde, com os grupos de jovens e, quando estava fora, pedia o apoio do padre João. Estava sempre disponível. Tínhamos conversas simples, mas que me permitiram conhecer a grandeza deste homem que, dado a Deus, tudo fazia para ajudar os outros, sobretudo os mais pobres, a quem socorria com generosidade invulgar.
Um dia, o cardeal António Ribeiro pediu-me para assumir a responsabilidade da paróquia do Campo Grande. Pus uma condição: que o padre António (carmelita) e o padre João (grande colaborador do padre Armindo) continuassem como vigários auxiliares na nossa comunidade.
Não esqueço o dia em que convidei o padre João para almoçar. Sentámo-nos à mesa e eu disse a razão do convite: o Patriarca pedia-me para ser pároco do Campo Grande e eu desejava que o padre João me acompanhasse. Com uma humildade e simplicidade que me não surpreenderam, respondeu-me de imediato: conte comigo.
Foi depois o padre João que me deu toda a informação sobre a paróquia. Surpreendeu-me quando me falou de uma catequese diferente, feita de renovação, fundamentada na Sagrada Escritura, com metodologia adaptada a cada idade, de uma abertura nascida na Igreja do Vaticano II. Mostrou-me todos os catecismos e a forma de iniciar as catequistas na sua utilização, um trabalho ingente para a formação de centenas de crianças.
Também me deu conta da extraordinária ação social da paróquia. Preparava-se já a construção de um bairro social que pretendia acabar com o bairro de lata das Murtas. Dois anos mais tarde, pudemos inaugurar sete blocos para 122 famílias que iriam passar a viver com dignidade.
Comecei, então, um trabalho conjunto de ação pastoral. O padre João dava sugestões, analisava os projetos, colaborava nas decisões, mas sempre com o sentido de comunhão que constrói a unidade.
Vivi lado a lado com o padre João durante catorze anos e foi com uma enorme angústia que o vi partir. O acidente que o vitimou só aconteceu pela sua entrega aos outros, no cuidado em acompanhar um colega e amigo que vivia uma grande depressão. Uma queda violenta arrastou ambos, que acabaram por morrer, pouco tempo depois.
Os homens grandes não morrem. Podem estar a viver para lá da partida, na imortalidade que Jesus prometeu. Continuam a viver com a recordação que nos deixam. Isto acontece também com o padre João Resina. Ele continua sempre presente na nossa comunidade. É uma referência na reflexão teológica, é um garante na estrutura que deixou para a organização da catequese, é um desafio permanente na ajuda que se presta aos mais pobres e que mais sofrem.
Numa feliz iniciativa de alguns amigos, decidiu-se publicar alguns dos seus textos inéditos. Na dimensão científica já nos deixou um livro precioso sobre a matéria quântica (Introdução à Teoria da Relatividade Restrita – 1998). No estudo da Palavra já ofereceu dois textos excecionais que acompanharam duas séries dos três anos litúrgicos. Agora podemos enriquecer-nos com os trabalhos que o padre João não teve tempo de publicar. Estes trabalhos foram organizados em quatro grandes capítulos, cujos temas constituem as linhas de força da sua ação pastoral:
- Os pobres e desvalidos tiveram para o padre João o primeiro lugar. Estava sempre disponível para acolher os mais carenciados, a quem ajudava com uma generosidade invulgar. Quantas vezes entrou no meu gabinete para dizer: «Está ali um homem em grande dificuldade. Será possível ajudá-lo?» E em conjunto, combinávamos o que lhe dar e quando, para resolver mais um problema. Este é o retrato do padre João, sempre atento às dificuldades dos outros: o Centro Social Paroquial nasceu desta sua preocupação, que partilhava com o padre Armindo, meu antecessor na comunidade.
- A catequese de adultos teve a sua orientação ao longo dos quase trinta anos que esteve connosco. Mais do que preparar adultos para o Batismo, os grupos de catequese constituíam um espaço de reflexão teológica, de extraordinária atualidade, em que todos os desafios da fé eram aprofundados, tendo também em conta os avanços no estudo bíblico e teológico. Estes grupos continuam e há inúmeros cristãos que ali renovam a sua fé e se reveem numa Igreja apresentada como Povo de Deus bem inserido no mundo, para o transformar, com os valores do Evangelho.
- A oração, nas suas diversas vertentes, foi o motor de todo o sacerdócio do padre João Resina. Recordamos, na comunidade, as suas homilias breves, as suas palavras antes de qualquer reunião, a forma como “celebrava” a Via-Sacra, em Sexta-Feira Santa, o silêncio que procurava nos momentos de mais intimidade com Deus. A oração era a fonte da sua vida pessoal e da sua ação pastoral. Qualquer de nós, na comunidade, se apercebia desta experiência vital de Deus, por ele vivida. Às vezes, perguntávamo-nos como é que um homem tão dado à ciência e à técnica (era filósofo e engenheiro) poderia ter tão grande proximidade de Deus. Todos nos recordamos do padre João, com as mãos no rosto, debruçado sobre si mesmo, em momentos nos quais tinha de dar uma opinião ou um conselho, sem magoar nem pedir demais. Eram momentos de oração intensa.
- A atenção constante ao mundo foi paradigma de toda a sua vida. Era um homem do mundo, um engenheiro químico, que se apaixonara pelo sacerdócio, mas que não deixara de estar no mundo, para com a sua reflexão e ação trazer a todos os acontecimentos a luz do Evangelho. Por isso ajudou a formar inúmeros cristãos, hoje pessoas responsáveis na cultura, na economia, na vida pública, na ação social. Formar cristãos, para atuarem como cristãos no mundo, foi esse o objetivo, sempre, que ele se exigia na orientação das consciências.
O livro que agora se publica constitui as linhas de força de muita da ação do padre João Resina. Porque cristãos, todos sabemos que «a vida não acaba, apenas se transforma» (1Cor 15). Ao lermos os vários capítulos desta obra, com os inéditos que encontrámos depois da sua partida, compreendemos que o livro é a expressão de uma vida que continua connosco. Sacerdote exemplar, homem de fé e de cultura, com um apaixonado amor a Jesus Cristo e uma grande devoção à Igreja, que não deixou de reconhecer santa e pecadora, o padre João não foi uma luz que se apagou, mas é uma presença que continua viva, iluminando muitos dos nossos passos, no caminho da fé e do amor.
A Comunidade Paroquial do Campo Grande retém-o na memória, mas, além disso, continua a aceitar o seu conselho e o testemunho da sua vida.







Mons. Vítor Feytor Pinto
In A Palavra para os Homens, Paulus Editora
06.12.12








