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«A oração sabe amansar a inquietação, sabe transformá-la em disponibilidade»

No nosso caminho de catequese sobre a oração, hoje encontramos a Virgem Maria, como mulher orante. Quando o mundo ainda a ignora, quando é uma simples jovem noiva de um homem da casa de David, Maria reza. Podemos imaginar a jovem de Nazaré recolhida no silêncio, em contínuo diálogo com Deus, que lhe confiou a sua missão. Ela já é cheia de graça e imaculada desde a conceção, mas ainda não sabe nada da sua surpreendente e extraordinária vocação, e do mar tempestuoso que terá de sulcar.

Uma coisa é certa: Maria pertence à grande fileira daqueles humildes de coração que os historiadores oficiais não inserem nos seus livros, mas com os quais Deus preparou a vinda do seu Filho. Maria não dirige autonomamente a sua vida: espera que Deus tome as rédeas do seu caminho e a guie para onde Ele quer. É dócil, e com esta disponibilidade predispõe os grandes acontecimentos que envolvem Deus no mundo.

O Catecismo recorda-nos a sua presença constante e solícita no desígnio benevolente do Pai e ao longo do decurso da vida de Jesus. Maria está em oração, quando o arcanjo Gabriel vai levar-lhe o anúncio a Nazaré. O seu «eis-me aqui», pequeno e imenso, que nesse momento faz sobressaltar de alegria toda a criação, tinha sido precedido na História da salvação por tantos outros «eis-me aqui», por tantas obediências confiantes, por tantas disponibilidades à vontade de Deus.



Maria está presente porque é Mãe, mas também porque é a primeira discípula. Aquela que aprendeu melhor as coisas de Jesus. Maria nunca diz: «Eu resolvo as coisas»; mas: «Faz aquilo que Ele te disser». Sempre com o dedo a apontar para Jesus



Não há maneira melhor de rezar do que colocar-se, como Maria, numa atitude de abertura: «Senhor, aquilo que Tu queres, quando queres e como queres» - ou seja, o coração aberto à vontade de Deus, e Deus responde sempre. Quantos crentes vivem assim a sua oração! Aqueles que são mais humildes de coração rezam assim. Com humildade, digamos assim, essencial. Com humildade simples. «Senhor, aquilo que Tu queres, quando queres e como queres.» Ao rezar desta maneira, não se enfurecem porque os dias estão cheios de problemas, mas vão ao encontro da realidade, sabendo que no amor humilde, oferecido em cada situação, tornamo-nos instrumentos da graça de Deus. «Senhor, aquilo que Tu queres, quando queres e como queres»: uma oração simples, mas que coloca a nossa vida nas mãos do Senhor. Todos podem rezar assim. Quase sem palavras. É simples: «Senhor, aquilo que Tu queres, quando queres e como queres».

A oração sabe amansar a inquietação. Somos inquietos, queremos sempre as coisas antes de as termos; queremo-las já, já; e a vida não é assim. Esta inquietação faz-nos mal. A oração sabe transformar a inquietação em disponibilidade. Estou inquieto, rezo, e a oração abre-me o coração, torna-me disponível à vontade de Deus.

A Virgem Maria, naqueles poucos instantes da anunciação, soube rejeitar o medo, mesmo pressentindo que o seu «sim» iria dar-lhe provações muito duras. Se na oração compreendemos que cada dia dado por Deus é um chamamento, então alargamos o coração e acolhemos tudo. Aprende-se a dizer: «Aquilo que Tu queres, Senhor. Promete-me apenas que estarás presente a cada passo do meu caminho». Isto é importante: a presença do Senhor a cada passo do nosso caminho. Que não fiques só. Que não fiques abandonado na tentação. Que não fiques abandonado nos maus momentos – o final do Pai-nosso é assim: a graça que o próprio Jesus te ensinou a pedir ao Senhor.



Tudo aquilo que lhe acontece à volta acaba por ter um reflexo na profundidade do seu coração. Tudo acaba no seu coração, para que seja passado pelo crivo da oração, e por ela transformado



Maria acompanha em oração toda a vida de Jesus, até à morte e à ressurreição; e, no fim, acompanha os primeiros passos da Igreja nascente. Reza com os discípulos que atravessaram o escândalo da cruz. Reza com Pedro, que cedeu ao medo e chorou de remorso. Maria está ali, com os discípulos, no meio dos homens e das mulheres que o seu Filho chamou a formar a sua comunidade. Maria não faz de sacerdote para eles; é a Mãe de Jesus que reza com eles, em comunidade, é uma da comunidade. Reza com eles e por eles. E, novamente, a sua oração precede o futuro que está por cumprir-se: por obra do Espírito Santo tornou-se Mãe de Deus, e por obra do Espírito Santo torna-se Mãe da Igreja – isto é, rezando com a Igreja nascente, torna-se Mãe da Igreja. Acompanha os discípulos nos primeiros passos da Igreja. Em silêncio, sempre em silêncio. A oração de Maria é silenciosa.

O Evangelho narra-nos apenas uma prece de Maria: em Caná, quando pede ao seu Filho por aquela pobre gente, que está prestes a fazer uma figura triste na festa. Imaginemos: fazer uma boda de casamento e acabá-la com leite, porque não havia vinho! Mas que figura triste! E ela reza e pede ao Filho para resolver aquele problema. A presença de Maria é, por si mesma, oração, e a sua presença entre os discípulos no cenáculo, à espera do Espírito Santo, é feita em oração. E assim Maria dá à luz a Igreja, é Mãe da Igreja. O Catecismo explica: «Na fé da sua humilde serva, o Dom de Deus – ou seja, o Espírito Santo – encontra o acolhimento que esperava desde o início dos tempos».

Na Virgem Maria, a natural intuição feminina é exaltada pela sua singularíssima união com Deus na oração. Por isso, lendo o Evangelho, notamos que ela parece, algumas vezes, desaparecer, para depois reflorescer nos momentos cruciais: é a voz de Deus que guia o seu coração e os seus passos quando há necessidade da sua presença. Presença silenciosa, de Mãe e de discípula. Maria está presente porque é Mãe, mas também porque é a primeira discípula. Aquela que aprendeu melhor as coisas de Jesus. Maria nunca diz: «Eu resolvo as coisas»; mas: «Faz aquilo que Ele te disser». Sempre com o dedo a apontar para Jesus. Isto faz o discípulo, e ela é a primeira discípula. Reza como Mãe e reza como discípula.

«Maria guardava todas estas coisas, meditando-as no seu coração.» Assim o evangelista Lucas retrata a Mãe do Senhor no Evangelho da infância. Tudo aquilo que lhe acontece à volta acaba por ter um reflexo na profundidade do seu coração: os dias repletos de alegria, como os momentos mais sombrios, quando também ela tinha dificuldade em compreender quais os caminhos pelos quais devia passar a Redenção. Tudo acaba no seu coração, para que seja passado pelo crivo da oração, e por ela transformado. Quer se trate dos presentes dos magos, ou da fuga para o Egito, até àquela tremenda sexta-feira da paixão: tudo a Mãe guarda e leva para o seu diálogo com Deus.

Alguns compararam o coração de Maria a uma pérola de incomparável esplendor, formada e polida pelo paciente acolhimento da vontade de Deus através dos mistérios de Jesus meditados na oração. Que belo se também nós nos pudéssemos assemelhar um pouco à nossa Mãe! Com o coração aberto à Palavra de Deus, com o coração silencioso, com o coração obediente, com o coração que sabe receber a Palavra de Deus e a deixa crescer como uma semente do bem da Igreja.


 

Papa Francisco
Audiência geral | Vaticano, 18.11.2020
Fonte: Sala de Imprensa da Santa Sé
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: Papa Francisco | D.R.
Publicado em 18.11.2020

 

 
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