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A importância das palavras

Na Rússia, no século XIII, foram abandonadas crianças, tendo sido dada a ordem de as deixar viver na floresta, onde encontrariam alimento, mas sem lhes ser dirigida a palavra, sem lhes dar sinais de afeto. Morreram todas.

Sim, somos humanos porque nos é dirigida a palavra e porque falamos. Na maior parte do tempo nós falamos, e as palavras servem-nos para viver em conjunto; mas interiormente cada palavra tem uma ressonância, acende imagens e pensamentos, forja emoções e sentimentos.

Cada expressão, quando chega a uma pessoa, causa em quem a escuta uma vibração psicológica. As palavras são como pedras lançadas a uma poça: mesmo a mais pequena entre elas provoca um frémito da superfície da água.

Por isso é é bom prestar atenção quando se fala. Antes de tudo, é bom evitar os tons apodíticos, perentórios, a palavra que quer impor-se: respeitar a pessoa que escuta e a sua dignidade; evitar as afirmações em que ressoam «nunca”, «sempre», ou as comparações entre as pessoas; evitar as palavras que exigem dos outros, que nos fazem parecer pessoas que dão ordens; evitar «deve-se», «é preciso», porque estas expressões tiram a responsabilidade aos outros, negam aos outros o discernimento e a livre decisão, sobretudo a escolha. Assim a comunicação se despoja da possível carga de agressividade e pode acontecer na mansidão.

Mas há outros perigos na linguagem, a começar pelo uso de uma linguagem dúplice, de palavras contrastantes com os sinais ou vice-versa. Ter palavras e comportamentos contraditórios, em particular com as crianças, instila-lhes a desconfiança.



É bom comunicar o essencial, simplificar tudo aquilo que se tem para dizer, dizer tudo com calma e doçura, e narrar, narrar: parece-me a única maneira para falar sem lamentar-se, mas narrando o mundo e aquilo que se vive. Dizer-se ao outro através da narração é sempre uma ação de distanciamento de si próprio, para poder transmitir não a sua verdade, mas a beleza e os significados possíveis da vida



Outro perigo é o de falar do outro quando falamos de nós próprios. É fácil esta patologia que projeta sobre os outros as nossas necessidades e os nossos sentimentos, pior ainda, os nossos projetos.

O outro é o outro, e mesmo no amor mais forte e apaixonado o respeito é fundamental. A necessidade do outro e o desejo dele não implicam cegá-lo. O outro acende em mim a responsabilidade, dando-me o desejo de me exercitar na bondade e de o ajudar a crescer na bondade. Estamos juntos para fazer o bem, para nos tornarmos melhores.

Cada pessoa tem a responsabilidade de tornar o outro melhor, pelo que quando isto não acontece, e estar juntos significa tornar-se pior, ou mau, então é tempo de ponderar a separação, ao preço de romper a relação; de outra forma, é o inferno.

Por fim, é saudável que a pessoa se vigie a si própria para que a sua linguagem não se torne negativa, lamentosa, sempre em cólera ou habitada pela ira. Sucede muitas vezes às pessoas hiperativas, mas é uma situação que gera tristeza. Quem está sempre a lamentar-se, vê aos poucos os outros afastarem-se de si, porque ninguém gosta de estar junto de quem somente comunica pensamentos de tristeza ou de lamento.

Pelo contrário, é bom comunicar o essencial, simplificar tudo aquilo que se tem para dizer, dizer tudo com calma e doçura, e narrar, narrar: parece-me a única maneira para falar sem lamentar-se, mas narrando o mundo e aquilo que se vive. Dizer-se ao outro através da narração é sempre uma ação de distanciamento de si próprio, para poder transmitir não a sua verdade, mas a beleza e os significados possíveis da vida: é uma obra de esperança e confiança no mundo.

Até porque, como recordava Gabriel García Márquez: «A vida não é aquela que se viveu, mas aquela que se recorda e como é recordada para ser narrada».


 

Enzo Bianchi
In Il blog di Enzo Bianchi
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: StudioRomantic/Bigstock.com
Publicado em 29.06.2021

 

 
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