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A Igreja e o desafio das redes sociais

Para debater de maneira correta o tema da comunicação, nas redes sociais, da Igreja, devemos partir de um pressuposto: esqueçamo-nos que a internet existe. Somos atingidos pela tecnologia, mas enquanto permanecermos atingidos pela técnica, não lhe compreenderemos o significado antropológico. A rede é uma revolução antiga, com sólidas raízes no passado: da forma nova a desejos e valores tão antigos quanto o ser humano. Quando se olha para a internet é preciso não só ver as perspetivas de futuro que oferece, mas também os desejos e as expetativas que o ser humano sempre teve e às quais tenta responder, ou seja, relação e conhecimento. E estes não são decerto uma novidade.

 

O ambiente das redes sociais

A internet é uma realidade que faz parte da vida quotidiana. Não é uma opção: é um dado de facto. A evangelização não pode não considerar esta realidade. Porquê?

Para responder a esta pergunta é necessário responder a outra: o que é a internet? Não é um conjunto de cabos, fios, modems e computadores. Seria errado identificar a “realidade” e a experiência da internet com a infraestrutura tecnológica que a torna possível. A internet é antes de tudo uma experiência, hoje parte integrante, de maneira fluida, da vida diária: um contexto existencial.

Somos chamados, por isso, a viver bem sabendo que a rede é parte do nosso ambiente vital, e que nela se desenvolve uma parte da nossa capacidade de fazer experiência. Portanto a mediação tecnológica não é pura alienação. De resto, a nossa relação é sempre mediada.

A rede é um tecido que conecta experiências humanas, não um instrumento. As tecnologias da comunicação estão a criar um ambiente digital no qual o ser humano aprende a informar-se, a conhecer o mundo, a estreitar e manter vivas as relações, contribuindo para definir também um modo de habitar o mundo e de o organizar, guiando e inspirando os comportamentos individuais, familiares, sociais.

Consequentemente, uma parte da nossa vida de fé é digital, vive no ambiente digital. Assim, também o anúncio da Palavra ocorre sempre num contexto mediático.

É precisamente sobre este valor espiritual do ambiente digital que se funda a possibilidade do anúncio da fé neste ambiente. Num tempo em que a tecnologia tender a tornar-se o tecido de conexão d emuitas experiências humanas, como as relações e o conhecimento, é necessário perguntar: a rede pode ser uma dimensão na qual se vive o Evangelho e anuncia a Palavra?

 

Rede e testemunho

A verdadeira novidade do ambiente digital é a sua natureza de rede social, isto é, o facto que permite fazer emergir não só as relações entre eu e tu, mas as minhas relações e as tuas relações. Por outras palavras, na rede emergem não só as pessoas e os conteúdos, mas também as relações. Mudou o significado da palavra comunicação: comunicar já não significa transmitir, mas partilhar. A sociedade e a cultura já não são pensáveis e compreensíveis somente através dos conteúdos. Não são antes de tudo as coisas, mas as “pessoas”. São sobretudo as relações: o intercâmbio dos conteúdos que ocorre no interior das relações entre pessoas. A base relacional do conhecimento em rede é radical. Compreende-se bem, portanto, o quanto é importante o testemunho. A lógica das redes sociais faz-nos compreender melhor que antes que o conteúdo partilhado está sempre estreitamente ligado à pessoa que o oferece. De facto, não há nestas redes nenhuma informação “neutra”: o ser humano está sempre envolvido diretamente naquilo que comunica.

Quem evangeliza hoje deve colocar em relação os conteúdos com as pessoas. Hoje um conteúdo que não gera relação, isto é, encontro, paixão, diálogo, é um conteúdo insignificante, privado de valor. Por isso, se o anúncio da Palavra não gera relação, isto é, encontro, paixão, diálogo, é um conteúdo insignificante, privado de valor. Hoje as redes sociais oferecem a oportunidade de tornar mais significativa a experiência vivida subjetivamente precisamente graças à publicação e à partilha numa rede de relações.

Mas é preciso distinguir sempre entre a comunidade e a rede social. O papa Francisco, ao falar aos bispos da América Central, pediu para «abandonar a virtualidade da existência e dos discursos para escutar o ruído e o apelo constante de pessoas reais que nos provocam a criar laços». Certamente as redes sociais podem contribuir para construir uma comunidade, mas não por si mesmas uma “comunidade”, que, se entendida como comunidade cristã e não simplesmente sociológica, é sempre “dom” do Espírito, e não “produto” da comunicação.

É preciso, analogamente, distinguir bem o ambiente físico do digital no momento em que se fala dos sacramentos e celebrações. Se se pode certamente rezar em conjunto em rede, no ambiente digital não há sacramentos, porque estes requerem a matéria e a presença física.

A rede não é, decerto, privada de ambiguidades e utopias. Em todo o caso, a sociedade fundada nas redes de conexão começa a colocar desafios realmente significativos à própria compreensão da fé cristã, a partir da sua linguagem de expressão ao modo de comunicar e ao anúncio da Palavra de Deus.


 

P. Antonio Spadaro, SJ
In Queriniana Editrice
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: World Image/Bigstock.com
Publicado em 29.07.2021

 

 
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