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A Igreja do silêncio, o martírio esquecido

Em quem é menos jovem, a expressão “Igreja do silêncio” evoca um tempo de sofrimentos e divisões implacáveis. Nos mais jovens, infelizmente, é provável que não evoque nada. Assinalamos por isso o volume “Igreja do silêncio e diplomacia pontifícia 1945-1965”, publicado pelo Comité Pontifício das Ciências Históricas e pela Faculdade de Direito Canónico S. Pio X de Veneza (edição bilingue, em italiano e eslovaco). O período do diálogo e da “Ostpolitik” [política que procurava a normalização das relações da Europa Ocidental com o Leste], que coincidiu com os anos depois do concílio Vaticano II (1962-1965) teve de estender muitos véus em relação à cruel repressão que nos anos a seguir à II Guerra Mundial o catolicismo tinha sofrido nos países sovietizados do Leste europeu.

Mas agora que o comunismo nesses países e na Rússia já não existe, não há razões para calar o que aconteceu: os encarceramentos, as torturas, os processos, a repressão selvagem que visava destruir as Igrejas cristãs, e sobretudo a Igreja católica. Esta, com efeito, dispunha de um poder e de uma audiência que as outras Igrejas não tinham, poder fazer referência ao Vaticano, a «central internacional da reação», como martelava continuamente a propaganda comunista de então na Polónia, Checoslováquia, Hungria e Roménia, os quatro países tomados em consideração no livro. Aqui a Igreja católica gozava de um profundo enraizamento, ou na sua versão latina ou na de rito greco-católico. Eram parcialmente exceções apenas a Boémia e a Morávia, então integradas na Checoslováquia, onde pesava a tradição antiromana que remontava ao movimento hussita.



O obstáculo maior eram os bispos, alguns conhecidos inclusive no exterior. Muitos foram presos, submetidos a vexames de todo o género, processados em público. As acusações eram todas políticas: espionagem, tráfico de moeda estrangeira, traição ao estado, colaboracionismo



A guerra ao catolicismo torna-se por isso implacável da parte de regimes comunistas que visavam o controlo total do Estado e das consciências. Além disso, o catolicismo era uma realidade universal, guiada por um governo autónomo e independente – a Santa Sé –, que operava fora dos países sob orientação comunista, um governo representado em cada capital pelas nunciaturas, canal de ligação entre os dois mundos contrapostos, através do qual passavam dinheiro, informações, publicações. O encerramento das nunciaturas e a expulsão dos núncios foi por isso uma providência adotada em todos aqueles países, assim que os comunistas tomaram o poder, seguida de medidas legais ou policiais que extinguiram seminários, casas religiosas, paróquias e escolas. O objetivo era calar o catolicismo, reduzi-lo ao silêncio, lançá-lo fora e, se possível, também dentro do coração da população. Paralelamente eram criadas associações nacionais alinhadas com o regime, nas quais era arregimentada a parte do clero e do laicado que, por medo ou conveniência, estava disponível para colaborar. Os dados referidos no livro dizem-nos, com particular referência à Polónia e à Checoslováquia, que só pequenas minorias aderiram a essas associações.

Mas o obstáculo maior eram os bispos, alguns conhecidos inclusive no exterior. Muitos foram presos, submetidos a vexames de todo o género, processados em público. As acusações eram todas políticas: espionagem, tráfico de moeda estrangeira, traição ao estado, colaboracionismo. O mais tristemente célebre desses processos, de tal maneira instrumentais que foram cunhados com a expressão de processos-farsa, foi o intentado na Hungria contra o primaz e cardeal József Mindszenty, que se concluiu em 1949 com a condenação à prisão perpétua. Mas nas páginas da investigação recordam-se outras figuras, não menos heróicas, embora menos conhecidas, como o eslovaco Ján Vojtassák, que aos 74 anos foi condenado a 24 anos de detenção, sofrendo maus-tratos brutais. Passará 11 anos em reclusão, até à libertação, obtida em 1963, graças às pressões da Santa Sé. Quando saiu da prisão, tinha 85 anos. Viveu mais dois, antes de morrer, em Praga, onde tinha sido internado.



A anulação da hierarquia eclesiástica conduziu à decisão de dar vida a uma Igreja clandestina, capaz de operar quando fossem impedidos os bispos oficiais



Ainda mais selvagem foi a repressão na Roménia, em prejuízo da Igreja greco-católica, forçadamente incorporada em 1948 na Igreja ortodoxa local, como já tinha acontecido dois anos antes na Ucrânia, cujo metropolita, o bispo Josyp Slipyj, depois cardeal, passará 18 anos de “gulag” na Sibéria. Os sete bispos greco-católicos romenos morrerão todos na prisão, alguns por causa de torturas físicas que recordam as mais ferozes perseguições do Império Romano. Verdadeiramente uma página degradante para quem a provocou, que permanece esculpida na galeria dos horrores do último século.

Após o fim do comunismo, grande parte dos processos foram anulados, como plena reabilitação, inclusive no plano civil, dos condenados. Mas os sofrimentos físicos e morais infligidos a pessoas indefesas, muitas hoje em vias de serem declaradas santas, permanecem, e obrigam-nos a atualizar o conceito de martírio. E todavia é preciso acentuar que o livro nada concede à hagiografia. Da figura de Mindszenty não se calam os laços psicológicos e culturais com a velha Igreja de Estado austro-húngara, isto é, com um mundo já passado, que não diminuem o valor do seu testemunho moral (foi quase o símbolo da Igreja mártir daqueles anos), mas dele reduzem inevitavelmente a importância histórica.

Como reagiu a Igreja a estas perseguições? A anulação da hierarquia eclesiástica conduziu à decisão de dar vida a uma Igreja clandestina, capaz de operar quando fossem impedidos os bispos oficiais. Até que ponto chegou esta experiência (certamente iniciada na Hungria e na Eslováquia, provavelmente também na Roménia) permanece na dúvida, dado que a clandestinidade e a necessidade de iludir todo o controlo da polícia impunham manter tudo em segredo, confiar só na oralidade, sem deixar nada escrito. É seguro que de Roma foram concedidos aos bispos poderes extraordinários, e é provável que, graças a essas faculdades, sacerdotes e também alguns bispos (provavelmente dois na Hungria) tenham sido consagrados no mais absoluto anonimato. Talvez os documentos do Vaticano a esse respeito, de momento inacessíveis, possam dar algumas indicações mais precisas. O único país em que a repressão teve de chegar a acordo com uma Igreja que se revelou um obstáculo indigerível inclusive para o tanque comunista foi a Polónia, graças sobretudo à firmeza, não separada de ductilidade, do primaz Stefan Wyszynski.



Terminada a leitura deste livro, fica-se com o desejo de saber mais, de avançar, de escancarar uma porta que começa finalmente a abrir-se. Sobre a Igreja do silêncio é preciso romper o silêncio, com o custo de ferir sensibilidades e interesses que ainda pesam no debate público, inclusive eclesial



E no entanto, não obstante a brutalidade da repressão, até 1947-48 em Roma esperava-se poder estabelecer algum tipo de “modus vivendi” com os regimes comunistas. Na base de documentos do Vaticano, foi revelado que Pio XII autorizou alguns jesuítas húngaros a contactar figuras de topo comunistas, inclusive soviéticas, para procurar um entendimento. A tentativa não teve sucesso, e desde 1948 ocorreu a rotura total. É então que se começa a falar e a escrever sobre a Igreja do silêncio. Silêncio também porque a Roma chegavam notícias fragmentárias e imprecisas, muitas vezes transmitidas através do canal das embaixadas ou de diplomatas de países terceiros, que obrigavam a mover-se quase às cegas e tornavam difícil encontrar uma linha de conduta partilhada. A política adotada na Polónia por Wyszynski, que depois de ter sido sujeito a internamentos e detenções estabelece um entendimento com o regime, não encontrou em Roma todos os aquiescimentos. «Eles pensam segundo os esquemas – escreve o primaz – e não conseguem compreender a complexidade da realidade social da Polónia.» Parece que só em Pio XII encontrou compreensão e aprovação.

Terminada a leitura deste livro, fica-se com o desejo de saber mais, de avançar, de escancarar uma porta que começa finalmente a abrir-se. Sobre a Igreja do silêncio é preciso romper o silêncio, com o custo de ferir sensibilidades e interesses que ainda pesam no debate público, inclusive eclesial, porque representa uma página fundamental dos acontecimentos pós-guerra. Uma página que pertence à grande história do século XX (não esqueçamos que o comunismo tentou, e quase conseguiu, assassinar um papa), e não só à história da Igreja.


 

Gianpaolo Romanato
In Avvenire
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: D.R.
Publicado em 11.04.2019

 

 
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