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«A grande desgraça deste mundo não é haver pessoas sem-Deus, mas que sejamos cristãos tão medíocres»

Se neste período histórico há uma categoria de pessoas que tem por que estar satisfeita é a dos medíocres. Parece respirar-se hoje uma atmosfera geral de mediocridade difusa.

O que é a mediocridade? Inaptidão, ausência de aspirações, não conseguir ter para si próprio, para a sua comunidade, para o seu país uma visão, uma perspetiva a longo prazo. Na origem da mediocridade está a incapacidade de aceitar a contínua discussão de si próprio, a que vida obriga continuamente, e que o medíocre tenta ignorar.

 

O anonimato como estilo de vida

Antigamente elogiava-se a “aurea mediocritas”, considerando-se que era uma aplicação coerente do moto “in medio stat virtus”. Era a virtude do meio, o equilíbrio, o sentido dos próprios limites, a recusa de toda a arrogância e de todo o excesso.

Entendamo-nos bem: foi um grande poeta, Horácio, que exaltou nas suas “Odes” a famosa “aurea mediocritas”, que, todavia, era muito mais, ou seja, a busca de um ideal justo meio entre os extremos e os excessos. Não, aquela que nos deve fazer desconfiar, antes, é a mediocridade que significa inaptidão, chateza, preguiça, anonimato, cinzentismo. Nos nossos dias esta atitude foi assumida como estilo de vida.

Mas a mediocridade assumiu ao longo dos tempos um significado muito diferente: indica pobreza de espírito e de mente, de horizontes e de estilo. Já nos juízos escolásticos e profissionais indica uma carência, que depois se agravou quando a mediocridade se tornou u espelho dos meios de comunicação social.

A sensação espalhada é que sobressair é um perigo, e talvez também uma culpa, porque a excelência nunca é conforme ao espírito medíocre do seu tempo e ao poder dominante; é sempre inatual, profética, nostálgica, olha para além, para o passado, para o futuro, para o céu. Quem traz novidade e energia é sempre, por destino e definição, desestabilizador.

Horroriza o ambiente tão minimalista em que caímos enfrentar toda a situação sem competência suficiente e sobretudo sem disponibilidade para o aprofundamento.

 

O pensamento desapareceu

Olhando à volta, quase só se vê mediocridade. Uma mediocridade desoladora e difusa. É uma mediocridade tumular, fruto da ausência de qualquer pensamento. A mediocridade é perigosa, porque desativa os dispositivos de alarme e desabilita o cérebro. Menospreza a inteligência, a capacidade de escolher e desejar. E é muito cómoda. É uma espécie de anestesia, de psicofármaco.

A mediocridade reina. Soberana. Contrabandeia-se como verdadeira tranquilidade da alma, quando na realidade é inconsciência; circula como critério justo ao passo que é apenas comodidade; apresenta-se como recusa dos excessos quando na verdade é vazio interior. O cristianismo não é uma religião para medíocres, como a verdadeira arte e a humanidade autêntica não podem alimentar-se e viver de uma chateza sem frémito, de uma saciedade de coisas, de um bom senso banal.

A mediocridade infetou as nossas mentes, como afirma o filósofo canadiano Alain Deneault, no seu recente ensaio “A mediocracia”. Deixámos de aspirar às coisas grandes, às coisas do “alto”. Arriscamo-nos a morrer sem nunca ter vivido. Uma «revolução anestesiante» instalou-se silenciosamente sob os nossos olhos, mas praticamente não nos demos conta.

O medíocre, em resumo, explica o filósofo canadiano, tem de «jogar o jogo». Jogar o jogo. Que significa isto? Quer dizer aceitar os comportamentos informais, pequenos compromissos que servem para alcançar objetivos de curto prazo, significa submeter-se a regras implícitas, muitas vezes fechando os olhos.

 

O sonho subversivo versus o efémero

É desta maneira que se solidificam as relações informais, que se fornece a prova de que se é “confiável”, colocar-se sempre naquela linha média que não gera riscos desestabilizadores.

A atração gravitacional da mediocridade age em todos os campos da vida. Para usar as palavras de John Stuart Mill: «A tendência geral do mundo é a de fazer da mediocridade a potência dominante da humanidade».

Na origem da mediocridade está a concentração sobre a “governance”, em que tudo é reduzido à gestão. Também a vida da Igreja pode correr o risco de concentrar-se na gestão (administrativa, pastoral, caritativa, etc.) e perder a “visão” e a “missão”.

«Com preocupação vejo que nos últimos meses se nota uma tendência para excluir as causas e os riscos sistémicos, ou, digamo-lo também, as questões teológicas fundamentais, e a reduzir a reelaboração a um simples melhoramento da administração. (…) Esquece-se que “não é o cargo que está em primeiro plano, mas a missão do Evangelho”» (Card. Reinhard Marx).

«A primeira coisa que o papa Francisco nos entregou foi um sonho: “Evangelii gaudium”. “Eu sonho uma Igreja…”. Descreve-nos o que sonha, diz-nos a sua visão, e é aquela que arrasta as pessoas, que as coloca em movimento dentro de um processo generativo. Qual é o sonho que queremos realizar? Qual é a transformação real que queremos gerar no mundo como Igreja? A pertença não é gerada por alguma coisa que se faz, mas do partilhar uma visão, um sonho» (Diocese de Albano).

«Hoje torna-se cada vez mais evidente que «é necessária uma verdadeira hermenêutica evangélica para compreender melhor a vida, o mundo, os homens; não de uma síntese, mas de uma atmosfera espiritual de investigação e certeza fundamentada nas verdades da razão e da fé. (…) O teólogo que se compraz com o seu pensamento completo e concluído é um medíocre» (papa Francisco, “Veritatis gaudium”).

Seria preciso perguntar-se, como o protagonista Nikolaj Stavrogin do romance “Os demónios”, de Dostoiévski: «Pois bem, qual é o meu verdadeiro rosto? A áurea mediocridade: nem tolo nem inteligente». Na era de mediocracia já não se discute. Prefere-se receber notícias que confortem.

 

Novos sistemas totalitários

É preciso temer a mediocracia porque faz sofrer e é antecâmara do autoritarismo, mesmo que adocicado. O autoritarismo é psicótico, a mediocracia é perversa. Psicótico, o primeiro, porque não tem qualquer dúvida sobre o que deve decidir. Perversa, a segunda, porque procura dissolver a autoridade nas pessoas fazendo de maneira que a interiorizem e se comportem como se fosse vontade sua.

É próprio dos sistemas de poder decadentes originar formas despóticas de governo, de Igreja, de política, e reforçar a mediocridade na escolha do capital humano, porque o poder consolidado teme o confronto com a inteligência, com a visão, teme ser batido no terreno das ideias. Em qualquer campo, no trabalho, no amor, na amizade, na saúde, as soluções medíocres levam sempre a melhor, contanto que não sejam danosas ao ponto de destruir o sistema.

A pessoa medíocre é incapaz de elevar-se do banal que o distingue, incapaz de ideais, sem valores. É tépida – mediocridade e tepidez são duas formas de corrupção espiritual, segundo o papa Francisco –, não gosta daquilo que é forte, que sacode, está por baixo. Mas a mediocridade é um perigo à espreita à nossa volta, condiciona-nos com todo o convencional em que estamos mergulhados, um mundo imenso de mediocridade banal que não serve para crescer, mas que pode aparecer cómodo, visto que tantos agem assim. E esta é a escravidão da massa, a cadeia do social.

Uma incapacidade de pensamento autónomo, uma obediência cega, uma normalidade que age incondicionalmente, perigo extremo da ausência de reflexão. Albert Einstein escreve: «Os grandes espíritos encontraram sempre a violenta oposição dos medíocres, os quais não sabem compreender o homem que não aceita os preconceitos herdados, mas usa a sua inteligência com honestidade e coragem». E Pierre de Beaumarchais: «O homem medíocre e rasteiro chega a tudo».

Medíocre pode ser até uma cidade inteira que não quer sair do torpor das memórias para se contentar com um passado que na verdade nunca foi tão glorioso como é narrado; medíocre pode ser uma Igreja que não busca os caminhos mais adequados para narrar ao ser humano a alegria possível, o resgate, a justiça que a deriva de uma verdade a partilhar, mas se esconde por trás de rendas suntuosas e coletas cada vez mais volumosas, em vez de se repensar a si própria, ou melhor, reinventar-se, para fazer bem; medíocre pode ser uma cultura que vende produtos que agradam às massas em vez de se elevar sobre a obscenidade dos pensamentos insipidamente populares, ruidosos, dos “talk-shows”, sem a voragem de saber arriscar a impopularidade, conservando a sua autonomia e a vocação de ser espírito crítico de todo o poder.

A mediocridade é eficaz também pelo seu sistema de comunicação, feito de slogans diretos e de forte impacto («sê tu mesmo», «não lutes contra o teu eu mais profundo», «não se pode sofrer e lutar a vida inteira», «descobre a coragem e a alegria de agir segundo aquilo que sentes», «chega de rigidez», «se o sentes, fá-lo», «não renegues as tuas emoções», «contenta-te com o que és, também o Senhor te aceita como és»…), tudo expressões que tem algo de verdade, mas que abandonadas ao sentimento subjetivo acabam por arrastar para baixo.

Ao “homo oeconomicus”, agarrado pela omnipotência do mercado, sucedeu o “homo psichologicus” pós-moderno, unicamente preocupado com a sua autorrealização e voltado para a busca de uma autenticidade que o impele a psicologizar a realidade, reduzindo-a a puro espelho dos seus desejos, armadilhado pela recursividade das próprias sensações.

O risco da mediocridade já tinha sido temido por um antigo padre da Igreja, S. Gregório Magno: «Agrada mais a Deus uma vida ardente e férvida de amor após o pecado, que uma inocência que se turva na segurança».

 

Também na Igreja

A mediocridade cultural e espiritual do clero foi uma das cinco chagas da Igreja denunciada por Rosmini. O facto de esta ser a chaga da mão direita afeta quem não é canhoto e conhece a importância operativa desta mão, sem a qual a pessoa se sente quase totalmente inábil. Não escapa a Rosmini que para um verdadeiro e autêntico testemunho cristão no mundo é precisa uma «instrução excelente dos pastores» (como a denomina João Paulo II na “Pastores dabo vobis”). Trata-se de uma sábia capacidade de intercetar as mudanças culturais, sabê-las discernir criticamente para lhes dar uma resposta estimável no plano racional.

Disto faz eco um escritor moderno, George Bernanos, que escreveu: «Um dos principais responsáveis, o único responsável, talvez, pelo aviltamento das almas é o sacerdote medíocre». E ainda: «A grande desgraça deste mundo não é haver pessoas sem-Deus, mas que sejamos cristãos tão medíocres».

A verdadeira questão da Igreja é não saber gerar mais que cristãos e padres medíocres, aburguesados, combatidos pela posição a ter no confronto dramático com a história: a posição do sofá ou a de adequar-se aos “novos movimentos” na moda e à sua pretensão de fundar um mundo novo. Um padre não pode permanecer medíocre a longo prazo. É verdade, no entanto, que de padres medíocres – marinheiros de água doce, para usar uma expressão de S. Camillo de Lellis – temos que chegue. A mediocridade, com efeito, navega sempre em águas doces. A autenticidade, pelo contrário, experimenta-se em mar aberto.

«O chamamento de Cristo é para os fortes; é para os rebeldes à mediocridade e à cobardia da vida cómoda e insignificante; é para aqueles que ainda conservam o sentido do Evangelho e sentem o dever de regenerar a vida eclesial pagando-o em pessoa e carregando a cruz» (Paulo VI).

O chamamento de Cristo é para os rebeldes à mediocridade na qual também a nossa própria ação pastoral muitas vezes cai. É por isso que é preciso regenerar sempre a vida eclesial: para não parecer uma empresa, mais atenta ao capital e ao organograma que ao Evangelho, ao ensinamento novo de Jesus, que tem uma Palavra cortante, direta à vida e capaz de desafiar os álibis, os medos, as falsas certezas, o viver sossegado e a mediocridade, ao ponto de ser Palavra que incomoda, perturba.

Regenerar não significa mudar, mas dar novamente vida. A vida eclesial seja regenerada cultivando visões, acrescentando perspetivas, gerando fome de futuro, ainda antes de se demorar nas suas estruturas.

Estes tempos não são normais, e também os padres medíocres não devem permitir-se repetir banalidades e superficialidades que mais tarde criam desconforto. É preciso não pessoas geladas, ainda que se cultura lúcida. O que é preciso é “humanitas” cristã, um Agostinho inquieto e pecador, e não a fria razão tomista que não colhe o mal de viver de Montale e as inquietações que tornam difícil o sono e encrespam o triste quotidiano, roubando-nos a esperança e eliminando inclusive aquela pouca alegria de viver que dá um sentido à vida. Precisa-se de pessoas inteiras em que a cultura se conjuga com a fé, e ambas se fundam com o ser-se humano.

A mediocridade, no fim de contas, rende. Quando alguém aceita este moderno mandamento é, de alguma forma, remunerado pela sociedade ou pelo grupo a que pertence, que o acolhe precisamente porque não lhe perturba o sistema. Quem, pelo contrário, de alguma forma se opõe à mediocridade, mesmo sem proclamações particulares, simplesmente porque não renuncia à sua identidade de valores, esse é um espinho no grupo, perturba-lhe o equilíbrio e coloca o sistema em crise, ou recorda implicitamente a todos aquilo que cada um é chamado a ser. Ou, em termos ainda mais positivos, relembra a todos que a pessoa só é feliz quando dá o máximo de si.

 

A vida que não perturba

O vírus da mediocridade é insidioso porque ativa um estilo que é o contrário do entusiasmo e da paixão. Mediocridade é uma maneira de ser e agir típica de quem perceciona cada vez menos o apelo do seu eu ideal, e de facto redu-lo, adaptando a sua conduta a critérios cada vez menos exigentes, e vivendo uma vida cada vez menos apaixonada. Mas sem mudar pertenças ou estado vocacional.

O medíocre nunca se deixa desafiar pelos próprios valores, nunca se entrega a eles, nunca comete loucuras por eles. O medíocre é um cultor do bom senso e do realismo; por vezes consegue até parecer sábio e prudente, com o sentido dos seus limites, que a certo ponto, porém, se tornam fronteiras inultrapassáveis, como uma gaiola que o sufoca.

Por vezes é também uma pessoa sem emoções e sentimentos particulares, com um eletrocardiograma maioritariamente plano (talvez o sacerdote e o levita da parábola do bom samaritano fossem desta honrada companhia).

Não há grandes aspirações na sua vida, e também não há grandes tentações. Normalmente a mediocridade é (auto)justificada, ou seja, o medíocre não se reconhece como tal, até porque a mediocridade não é transgressiva (habitualmente), ou não o é de maneira grave. Poderemos dizer que a arte do medíocre é a de ter encontrado a maneira de nunca fazer espoletar o alarme na sua vida, ou o aviso vermelho que assinala uma situação de emergência, por isso é relativamente tranquilo. Pode ser apóstolo eficiente, mas não tem eficácia. Anuncia o Evangelho de Cristo, mas sem o sentir para si como boa notícia.

Resistir para sair da mediocridade não é certamente simples. Mas vale a pena tentar. Somos chamados a ser testemunhas da inquietação, não estamos destinados a naufragar nus escolhos da mediocridade.  «Se não queremos afundar numa obscura mediocridade, não pretendamos uma vida cómoda, porque, “quem quiser salvar a sua vida, vai perdê-la” (Mateus 16, 25)» (papa Francisco, “Gaudete et exsultate”).

«A Igreja não precisa de muitos burocratas e funcionários, mas de missionários apaixonados, devorados pelo entusiasmo de comunicar a verdadeira vida. Os santos surpreendem, desinstalam, porque a sua vida nos chama a sair da mediocridade tranquila e anestesiadora» (ibidem).


 

Domenico Marrone
In Settimana News
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: Alexandr Demeshkof/Bigstock.com
Publicado em 21.06.2021

 

 
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