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A força espiritual de Simone Biles

Simone Biles é amplamente reconhecida como a maior ginasta de todos os tempos. Mas à luz de sua decisão de se retirar da competição de ginástica nos Jogos Olímpicos de Tóquio, está na hora de reconhecer o seu novo papel público de diretora espiritual.

Muitos sublinharam a importância de Naomi Osaka, Kevin Love e outros tornarem mais aceitável para os atletas darem prioridade à sua saúde mental acima de uma busca sem fim pelo sucesso na competição. Felizmente, Simone Biles foi amplamente celebrada pela decisão de o fazer. Mas também vale a pena observar como alguém toma uma decisão como essa.

Não sou terapeuta, ginasta ou alguém que teve um desempenho próximo ao de Simone Biles. Mas sou alguém que teve de pensar em grandes decisões e, por vezes, fez grande asneira ao tomá-las, tendo procurado o conselho de muitos diretores espirituais. Com frequência, acabámos por discutir se eu tenho ou não liberdade interior suficiente para fazer uma escolha.

A liberdade interior é, talvez, algo ainda mais difícil de definir, viver e a ela responder do que a liberdade em geral. Santo Inácio, fundador da Companhia de Jesus, descreveu-a como desapego nos Exercícios Espirituais. Devemos tornar-nos indiferentes a todas as coisas criadas, na medida em que nos é permitido o livre arbítrio e não estamos sob qualquer proibição, apontou. Isto conduz a algumas consequências perturbadoras: no que nos diz respeito, não devemos preferir a saúde à doença, a riqueza à pobreza, a honra à desonra, uma vida longa à curta, considerava.



É necessária uma quantidade enorme de liberdade espiritual e uma igual quantidade de coragem para fazer essa escolha. Uma das consequências de fazer uma escolha livre é que nem todos vão entender



Inácio aconselhou que devemos pedir na oração para sermos livres de apegos. Compreendeu quão facilmente a tralha das nossas vidas, inclusive coisas que foram boas para nós, podem acabar por se tornar tão importantes para nós, que se tornam muros no nosso caminho para ver o mundo como ele realmente é. Como resultado, a nossa capacidade de perceber e responder aos convites de Deus torna-se mais difícil. Podemos estar apegados a narrativas sobre quem somos e quem são as outras pessoas, a planos e objetivos, a ganhos monetários, a capital social, ao que os outros pensam de nós. Inácio também reconheceu a possibilidade de que coisas que, à primeira ou mesmo à segunda vista, parecem bons desejos e apegos, governem as nossas vidas de maneira a porem em risco a nossa liberdade.

Quais poderiam ser algumas das pressões externas sobre Simone Biles? Não são difíceis de imaginar: expectativas de ser a melhor de todos os tempos e atuar desportivamente como tal, patrocínios, representar a família e todo um país. «Por vezes sinto-me verdadeiramente como tendo o peso do mundo sobre os meus ombros», escreveu Biles no Instagram há alguns dias, após os testes preliminares. «Sei que o ignoro e faço parecer que a pressão não me afeta, mas, caramba, às vezes é difícil».

Mesmo que não carreguemos a pressão de não agirmos como um dos maiores atletas de todos os tempos, somos todos suscetíveis às tendências que subjazem na nossa cultura que pregam a persistência, a labuta e o seguir em frente. Seja por dinheiro ou por aceitação social, o impulso do “nunca deixe de se aperfeiçoar” aumenta os perigos de uma cultura de bem-estar que diz que só seremos perfeitos se praticarmos o autoaperfeiçoamento até morrer. Simone Biles ofereceu-nos a prova de que os impulsos para se ser o melhor não têm de dominar as nossas vidas.



«Desejávamos que as nossas vidas e trabalho estivessem livres de uma luta por ganhos - por vezes uma força tirânica»; «o mundo moderno precisa de pessoas que audaciosamente dêem testemunho de que foram libertados dessa força»



É necessária uma quantidade enorme de liberdade espiritual e uma igual quantidade de coragem para fazer essa escolha. Uma das consequências de fazer uma escolha livre é que nem todos vão entender. Como podem, se não tiverem uma janela clara para a sua alma? Embora Simone Biles tenha sido amplamente compreendida por dar prioridade à sua saúde mental, alguns comentadores embirrentos tentaram dizer que a sua escolha resulta do moderno mimo dado às gerações nascidas a partir do início da década de 80, e que seria incomensurável para alguém como Michael Jordan renunciar a uma competição (esses comentadores parecem não estar cientes de que Jordan parou de jogar basquetebol no seu auge para tentar concentrar-se na sua saúde mental, depois da morte do seu pai).

O autoconhecimento e desapego de Simone Biles das narrativas que a cercam permitiram que visse como as suas ações afetaram as pessoas próximas dela, como os seus companheiros de equipa. Ela reconheceu que, como o seu desempenho estava a cair, «não queria arriscar tirar uma medalha à equipa». Por meio da humildade honesta, foi capaz de ver com olhos límpidos como a sua participação afetaria a equipa.

E apesar de não precisar, Simone Biles mostrou a consciência de que poderia ensinar algo ao resto do mundo através da sua ação, ao referir, em conferência de imprensa após o abandono, que por vezes é acertado ficar de fora das grandes competições para se concentrar em si mesmo, «porque isso mostra o quão forte se é como competidora e pessoa».

Numa carta de 1967 enviada a todos os jesuítas no mundo, Pedro Arrupe, ex-superior geral da Companhia de Jesus, escreveu: «Desejávamos que as nossas vidas e trabalho estivessem livres de uma luta por ganhos - por vezes uma força tirânica»; e que «o mundo moderno precisa de pessoas que audaciosamente dêem testemunho de que foram libertados dessa força». Bem, mundo moderno, fica a conhecer uma mulher moderna libertada dessa força.


 

Zac Davis
In America
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: Simone Biles | D.R.
Publicado em 29.07.2021

 

 
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