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Rumo ao amor, dia 41: A força da fraqueza

Amo e recordo com ternura o dia do início do caminho naquela catedral antes de receber o óleo da consagração: estava ali, desarmado e sem palavras, a barriga, as mãos, os pés e o rosto por terra. Confiava-me à omnipotência fraca de Deus que me pedia para não ter prepotências ou excesso de palavras perante a dor dos seres humanos: por isso a cada ano não vejo a hora que chegue a Sexta-feira Santa para refazer aquele gesto.

Jesus deu o “tu” ao sofrimento, abraçou-o recordando-nos que se morre sozinho, mas morre –se sempre para alguém, deixa-se sempre alguém de quem nunca se se quer separar.

A cruz é uma encruzilhada, indica que não pode deter-te aí, nesse centro, naquele lugar demasiado apinhado, mas que deves caminhar além, rumo à nova forma que te é apontada.

Quando o sofrimento sobe até ao ápice desarma a razão, escandaliza a consciência, rouba a energia, destrói a confiança e a alegria. Quando o sofrimento é cru, é um corpo a corpo com a carne, com a Terra e com o Céu, uma luta lenta e silenciosa entre o cá e o lá, que te perde para transformar o sofrimento em luz.

A dor é como o arado que sulca a vida num inverno gélido, e cria feridas das quais o coração pode adquirir luz e ar.



Tal como em cada doença há muitos dias em que não podemos fazer mais do que esperar, também nos momentos de fraqueza não devemos extrair conclusões demasiado rápidas daquilo que acontece, devemos deixar que simplesmente aconteça



Jesus, a quem lhe perguntava «que devo fazer?», «porquê?», não dá respostas, apenas diz: «Vem e segue-me»; façamos um pouco de caminho juntos, depois entenderás.

Quando toca o fundo, uma pessoa entrega-se ou ao desespero ou à esperança, e a esperança pode parecer naquele momento apenas uma pequena fenda, mas é necessária para levar a vida por diante.

Hoje não conseguimos estar dentro das crises. Debatemo-nos entre desespero e orgulho para evitar estar no momento de nudez e de fraqueza, que, pelo contrário, é um momento sagrado, é o início inconsciente de cada rebento de novidade.

Devemos sentir que na fraqueza a vida não nos esqueceu, que nos tem na sua mão e não nos deixará cair.

Tal como em cada doença há muitos dias em que não podemos fazer mais do que esperar, também nos momentos de fraqueza não devemos extrair conclusões demasiado rápidas daquilo que acontece, devemos deixar que simplesmente aconteça, aprendendo da terra arada a viver todas as clausuras e aberturas.

A nossa fraqueza nem sempre tem uma razão que a justifique, mas torna-se ocasião para que cada um se dê as razões. Vi pessoas doentes que lutaram com dignidade até ao fim, como se não pudessem descer abaixo daquilo que tinham vivido, como se tivessem, mais uma vez, de transformar esse momento de fraqueza em dignidade.

«Mastiga e cospe por um lado o mel, por outro a cera», diz Fabrizio De Andrè. Na vida há momentos que são fruto de mel, outros em que o fruto é a cera. Fazer da fraqueza a nossa força quer dizer que aquela frágil cera não é refugo, mas possível alimento de luz no nosso caminho.


 

Luigi Verdi
In Il domani avrà i tuoi occhi, ed. Romena
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: Maryana Kankulova/Bigstock.com
Publicado em 07.04.2020

 

 
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