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A democracia precisa desesperadamente de testemunhos cristãos na política

Consciente dos seus muitos erros e tradições seculares, a Igreja, como qualquer outra comunidade religiosa, deve apresentar-se no âmbito do debate ético-político público como comunidade de interpretação dialógica, chamada a uma pública tradução objetiva, racional, e portanto universalizável, dos seus valores.

É certo que ela só poderá ser crítica relativamente a qualquer ídolo histórico desumanizador, ao domínio massificante da técnica, à degradante redução consumista do ser humano a elemento ou função substituível, à violência enganadora de qualquer reivindicação identitária ou ideológica.

Obviamente, a Igreja só estará à altura do Evangelho que a vivifica se, deposta toda a nostalgia de poder hegemónico, permanecer irredutivelmente fundada no dogma da “charitas” (concetualmente, ainda que não linguisticamente, dependente da “charis”, graça, e “charisma”, dom).

A democracia europeia, mundial, precisa desesperadamente de testemunhas autenticamente cristãs na política. Precisamente porque inconciliável qualquer pretensão arrogante de poder identitário, de economia autista, o Evangelho cristão é um recurso indispensável e inesgotável de políticas não violentas de libertação, ao mesmo tempo evangelicamente tradicionais e radicalmente progressistas.

Sem abertura à dimensão e excedente da ideia de justiça, e ao imperativo humano do dom, a democracia morre, enclausurada numa lógica simétrica do cálculo económico e do dividendo proprietário.



Decidir-se pelo Evangelho significa também escolher e defender, laicamente, essa sua boa herança cultural, continuando a ligar história e Reino



Politicamente, os cristãos são chamados a solicitar, testemunhando fé e caridade, a laica e racional abertura do desejo de cada ser humano à justiça infinita, que abre também o não crente à experiência do dom de si.

O crente interpretará esta exigência laica de justiça infinita como inconsciente desejo do Deus de Jesus, sem no entanto pretender batizá-lo à força. Pode ser-se justo não procurando Jesus: «De cada vez que fizerdes estas coisas a um só destes meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes» (Mateus 25,40).

Também neste caso a fé cristã deve ser capaz de heterologia (apesar da mesma origem, difere de outro), admitindo que há múltiplos caminhos para testemunhar existencialmente a libertadora abertura a um sentido infinito, que se torna compromisso e até sacrifício por amor do próximo.

Nisto, o pontificado do papa Francisco, para além das avaliações de quem o define tradicional ou progressista, é iluminador. Precisamente porque é um papa radicalmente evangélico, Francisco é o mais progressista e o mais tradicionalista dos papas: pode parecer revolucionário precisamente porque vive e chama a um radical seguimento de Jesus, que desde o princípio fez irromper na história um Evangelho radical de misericórdia, doação, abertura à transcendência, subversivo em relação a qualquer lógica identitária, proprietária, ideológica, conservativa.

Todavia, no seu magistério, que para o crente é inspirado pelo Espírito Santo, a Igreja é por ele chamada a ter memória a tradição dogmática radicada no Evangelho, permanecendo fiel à sua identidade extática, gerada pela fé em Jesus, a tornar-se rosto do dom de Deus ao ser humano e do dom do ser humano ao próximo.

É tocante escutar do papa Francisco palavras de extraordinária coragem, de radical verdade política e humana, de incessante compromisso humanitário, que são saudadas com reconhecimento e admiração por muitos não cristãos.

Mas se a história do cristianismo é a matriz religiosa dos valores agora autónomos da secularizada contemporaneidade laica e democrática, decidir-se pelo Evangelho significa também escolher e defender, laicamente, essa sua boa herança cultural, continuando a ligar história e Reino.


 

Gaetano Lettieri
In L'Osservatore Romano
Tarad.: Rui Jorge Martins
Imagem: hadrian/Bigstock.com
Publicado em 01.08.2019

 

 
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