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A compaixão perdida

Quem nos estamos a tornar? Ao longo dos anos tenho-me preocupado com os pequenos passos diários rumo à barbárie. Agora estamos mergulhados nela, de tal maneira que sentimentos e emoções que antes eram motivo de vergonha, pelo menos em público, hoje são exibidos como troféus de guerra. Simetricamente, atitudes de solidariedade, partilha, bondade, compaixão, são desfiguradas e alvo de irrisão. «A piedade está morta», cantava-se durante a resistência ao nazismo-fascismo, reivindicando o direito a retribuir com a mesma moeda a crueldade que se manchava de crimes contra a humanidade.

Agora que, há mais de meio século, as nossas sociedades e as legislações dos estados baniram o conceito de “vingança justa”, eis que vemos diariamente afirmar-se uma proclamação tácita: «A compaixão está morta». Parece extinto aquele sentimento através do qual, tocados pelo sofrimento de um outro, carregamos a sua dor, até a sentirmos com ele como nossa: a dor do outro torna-se a minha dor.

Compadecer é essencialmente “sofrer juntos”, qualidade humaníssima que nunca foi fácil viver em profundidade, mas que, hoje, é escarnecida como excesso de bons sentimentos por parte de lindas almas. O contexto cultural, pelo menos desde os anos 60 do século passado, criou uma possibilidade de perceção do mal muito diferente do passado: pense-se apenas na remoção que as nossas sociedades sabem fazer da morte e, simultaneamente, na espectacularização e exibição do sofrimento, e mesmo do horrível, do macabro, ao vivo, através dos meios de comunicação.

Por um lado, somos habituados à visão do mal, mantendo-o afastado através da mediação do meio de comunicação; por outro, é sufocado, reduzindo a uma emoção mórbida aquilo que deveria ser, ao contrário, um chamamento, uma interrogação a responder. Os meios de comunicação tornam-se barreiras, muros entre nós e as dores de outros, e condenam-nos cada vez mais a um quotidiano de solidão e de isolamento.



É necessário um esforço de autêntica resistência não só para apoiar na primeira pessoa a ética da compaixão, mas também para saber discernir, reconhecer, dar voz a quem nunca deixou de manifestar solidariedade com os seus irmãos e irmãs em humanidade



Temos, paradoxalmente, dificuldade em tornar-nos próximos do outro: tornamo-nos com facilidade próximos virtualmente, multiplicamos a nossa proximidade virtual com contactos “líquidos”, inversamente proporcionais às relações concretas, “sólidas”. E assim a morte da proximidade é vivida como negação ou “morte do próximo”.

Mas nos últimos anos, em muitos países dos Ocidente, a situação precipitou-se: é vangloriada a crueldade com os mais fracos, sejam eles pobres “de nossa casa”, imigrantes ou pertencentes a determinadas etnias. A solidariedade, o histórico “socorro mútuo” [ainda presente, atualmente, na denominação de muitas associações de apoio social], o apoio entre seres humanos marcados pelo sofrimento, o “padecer juntos”, transmudou-se – primeiro na linguagem, e depois nos comportamentos – numa busca obsessiva do bem-estar individual, sem os outros, aliás, contra eles.

Se este é, tragicamente, o quadro prevalecente, que se impõe nos discursos vociferados por certa política como nos meios de comunicação, não nos podemos resignar a que esta perniciosa tendência se transforme em sentimento universal.

É necessário um esforço de autêntica resistência não só para apoiar na primeira pessoa a ética da compaixão, mas também para saber discernir, reconhecer, dar voz a quem nunca deixou de manifestar solidariedade com os seus irmãos e irmãs em humanidade, e continua a fazê-lo no meio do silêncio, ou mesmo da derisão, de muitos.

O ser humano está a mostrar que é capaz de fechar as entranhas num egoísmo que o desumaniza, mas pode sempre abri-las para sofrer e alegrar-se com o outro, para viver autenticamente: a compaixão morre onde nós a matamos dia após dia, mas a dignidade humana está viva mesmo onde uma só pessoa reconhece o seu semelhante no sofrimento, se inclina sobre ele, o abraça e, assim fazendo, o salva. Porque «quem salva uma vida, salva o mundo inteiro».



Oiço na caixa de um supermercado
A caixa: «Que calor hoje»
Uma cliente: «É um calor africano maldito
que estes malditos migrantes trazem com eles»
A caixa: «São mesmo uma desgraça»
A cliente: «Bloqueiem-lhes o mar!»
Eu fico mudo, e digo para mim: «A piedade está morta?»


 

 

Enzo Bianchi
In Monastero di Bose
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: Hanna Barczyk
Publicado em 11.07.2019

 

 
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