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Pré-publicação: "A chave de Sebastião da Gama"

Pré-publicação: "A chave de Sebastião da Gama"

Imagem Capa | D.R.

O livro "A chave de Sebastião da Gama", de Ruy Ventura, vai ser apresentado esta sexta-feira, em Vila Nogueira de Azeitão, inserindo-se no programa da "Jornada Internacional Sebastião da Gama - Pelo sonho é que vamos".

O lançamento é antecedido por conferências e atividades no auditório da Escola de Hotelaria e Turismo de Setúbal, revela a Associação Cultural Sebastião da Gama, que organiza a iniciativa (cf. programa no fim deste artigo).

As intervenções, «abordando áreas diversas do percurso de Sebastião da Gama», serão proferidas por Alexandre Ferreira dos Santos, António José Borges, Fátima Ribeiro de Medeiros, João Reis Ribeiro, Luciano Pereira, Manuela Cerejeira, Mariagrazia Russo, Miguel Real, Pedro Martins, Risoleta Pinto Pedro, Ruy Ventura ("Uma poesia ao divino"), Sofia A. Carvalho e Viriato Soromenho-Marques.

Uma das sessões da Jornada, motivada pelos 70 anos da primeira edição do segundo livro do poeta, "Cabo da Boa Esperança", compreende o testemunho de alunos de Sebastião da Gama, de quem o ator setubalense José Nobre evocará alguma da sua poesia ao longo do dia.

Agendada para as 21h00 na Sociedade Filarmónica Perpétua Azeitonense, a apresentação do volume do investigador e poeta Ruy Ventura, publicado pela editora Licorne e pela Associação Cultural Sebastião da Gama - de que apresentamos um excerto -, é seguida do concerto "Pelo sonho é que vamos", músicas sobre letras do poeta interpretadas pelo grupo e-Vox.

 

Sebastião da Gama: A mão e a corda tensa
Ruy Ventura
In "A chave de Sebastião da Gama", ed. Licorne, Associação Cultural Sebastião da Gama

Sebastião da Gama publicou três livros na sua curta vida. Em todos eles teve o cuidado de inscrever epígrafes que, na verdade, são poemas programáticos, indicadores de três passos no seu percurso poético que de modo algum se pode separar da sua via espiritual. Em 1945, no Serra-Mãe, afirmou:

«A corda tensa que eu sou,
o Senhor Deus é quem
a faz vibrar…

Ai linda longa melodia imensa!...
– Por mim os dedos passa Deus   e então
já sou apenas Som   e não
se sabe mais da corda tensa…»

Em Cabo da Boa Esperança, no ano de 1947, sublinhou, dirigindo-se aos seus poemas:

«Que me importa, meus versos, que vos tomem
(e eu vos tome também) por chaves falsas,
se vós me abris as portas verdadeiras?»

No livro Campo Aberto, quatro anos depois e pouco tempo antes de falecer, concluiu:

«Tudo frutificou: o campo estava aberto,
deu conchego e raiz a todas as sementes.»

Poderíamos juntar a este tríptico o cume da sua doutrina de poeta que, na senda de um Charles Péguy, soube aproximar-se da teologia, associando Fé, Esperança e Amor enquanto virtudes poéticas, existenciais e teologais. Está num célebre poema editado postumamente em Pelo Sonho É Que Vamos. Tendo em conta a data em que, na Arrábida, foi escrito (1/9/1951), podemos considerá-lo o seu testamento:

«Pelo Sonho é que vamos,
comovidos e mudos.
Chegamos? Não chegamos?
Haja ou não haja frutos,
pelo sonho é que vamos.

Basta a fé no que temos.
Basta a esperança naquilo
que talvez não teremos.
Basta que a alma demos,
com a mesma alegria,
ao que desconhecemos
e ao que é do dia-a-dia.

Chegamos? Não chegamos?
– Partimos. Vamos. Somos.»

Poderia dissertar sobre o que resulta destes quatro poemas que são alicerces e pilares do edifício da poesia de Sebastião. Muito escreveria. Prefiro, todavia, o silêncio. Gostaria, ainda assim, de reparar no diálogo que parece existir, num dos poemas destacados, entre o poeta de Azeitão e uma das figuras grandes do Cristianismo.

«A corda tensa que eu sou,
o Senhor Deus é quem
a faz vibrar…»

Santa Teresa do Menino Jesus e da Santa Face (1873 – 1897), a mais discreta Doutora da Igreja (cuja vitalidade doutrinal e virtudes heróicas têm sido destacadas pelos mais exigentes teólogos do nosso tempo, como Hans Urs von Balthasar ou Tomás Halík), indicou aos cristãos e não-cristãos um “pequeno caminho” de santificação pessoal. Afirmava com bom humor:

«[…] quero procurar a maneira de ir para o Céu por um caminhito muito direito, muito curto; […]. Estamos num século de invenções. Agora já não se tem a maçada de subir os degraus de uma escada; […] o ascensor substituiu-a vantajosamente. Eu queria também encontrar um ascensor que me elevasse até Jesus, porque sou demasiado pequena para subir a rude escada da perfeição. […]».

Sabe-se que os artistas, «construtores geniais de beleza», como lhes chamou São João Paulo II, «maravilhados com o arcano poder dos sons e das palavras» conseguem sentir «o eco daquele mistério da criação a que Deus, único criador de todas as coisas, de algum modo [os] quis associar». Sebastião pensava do mesmo modo, sentindo-se um colaborador na obra divina [cf. C1, 29 – 30]. Teresa de Lisieux, por seu turno, escreveu numa carta a uma das suas irmãs:

«[…] ‘Se não for o Senhor a edificar a casa, em vão trabalham os construtores’. […] Só Ele sabe servir-Se da sua lira, mais ninguém será capaz de fazer vibrar as suas notas harmoniosas, mas Jesus serve-se de todos os meios, as criaturas estão todas ao seu serviço […].»

Noutra missiva, também de 1893, igualmente dirigida a Celine, notou:

«[…] todos os acontecimentos da vida serão apenas ruídos longínquos que não farão vibrar a pequena lira, só Jesus tem o direito de pousar nela os seus dedos divinos, as criaturas são degraus, instrumentos, mas é a mão de Jesus que dirige tudo. […]».

Não sei até que ponto Sebastião da Gama leu os escritos autobiográficos da carmelita francesa. As cartas da santa só foram divulgadas em 1948, embora excertos delas já circulassem junto das suas memórias. De qualquer modo, há imagens e sentidos comuns que é importante apontar e realçar. A espiritualidade dos dois, por vias distintas, tem pontos salientes cuja afinidade deve ser sublinhada (para memória futura). O autor de Serra-Mãe sente-se e pensa-se enquanto instrumento nas mãos do “Senhor Deus” – e nunca poderemos esquecer que o sonho é um veículo usado pela divindade para se revelar e para transmitir as suas mensagens à humanidade.

Há toda uma teologia inclusa nos versos de Sebastião Artur Cardoso da Gama. Vale a pena lê-la e meditá-la, daí tirando as devidas consequências.

 

Dois apontamentos

Reparo que Sebastião da Gama pode ser entendido como tradução de Agostinho da Cruz. Se Agostinho vem de augustus (que, em latim, significa “sagrado, santo, venerável”), Sebastião é o seu sinónimo grego, sebastós. Este facto, por si só, já mereceria registo – não se desse outro ainda mais curioso: Gama pode ser lido como Cruz ou lugar onde se revela a Cruz. Bastará lembrarmo-nos da lenda de Eustáquio, posta em verso pelo poeta franciscano da Arrábida, na qual se conta que este santo teve uma revelação de Cristo crucificado entre as hastes de um cervo ou gamo; também frei Agostinho era visitado por uma gama, que alimentava pela sua mão… Há ainda a cruz gamada, pois o gama é a letra grega que representa Deus nalgumas tradições. Coincidências que se apresentam como incidências comunicantes…

Sabendo ou não disto, o poeta de Vila Nogueira tinha em frei Agostinho da Cruz o seu guia espiritual, aquele que lhe ensinava o verdadeiro caminho da liberdade que, na escrita e na vida, é libertação, dependendo de “trazer o pensamento / Aceso na divina saudade”. O seu desejo era alcançar o frade franciscano “em beatitude”, procurando a sua “alma plena”, a sua “alma liberta”; num momento de noite escura, o autor de Campo Aberto chegou a ansiar pela vinda do seu director – “ciente de todas as verdades, / […] aureolado de todas as certezas, / cheio de graça e de serenidade” – para descobrir a saída do “labirinto” da sua alma.

*

Encontrei Sebastião onde e quando menos esperava. Enquanto jantava com a família, uma senhora aproximou-se e entabulou connosco uma conversa cheia de interesse. Quando lhe disse que vinha de Azeitão, esboçou um sorriso e revelou-nos: «Sabe, fui aluna de Lindley Cintra, um dos grandes amigos de Sebastião da Gama…» E continuou, contando-nos um episódio que o seu mestre revelara aos discípulos numa das suas aulas na Faculdade de Letras de Lisboa:

«Numa Sexta-Feira Santa, assistia Sebastião da Gama à pregação do padre José Ferreira quando, em determinado momento, ouviu o sacerdote proclamar do púlpito que a narrativa da Paixão de Cristo era "a plena verdade, não poesia"… O poeta sentiu-se incomodado, mas esperou pela conclusão das cerimónias. Terminada a celebração, prontamente entrou pela sacristia, dirigindo-se com desassombro ao celebrante: ‘Senhor Padre, desculpe, mas não estou de acordo com o que disse no sermão…’ O bom homem prestou-se a ouvi-lo. "O senhor afirmou que os relatos da Paixão não são poesia porque são verdade… Cometeu um erro. A poesia é a verdade, fique sabendo… A poesia é a verdade!"»

Agradeci, feliz, à nossa inesperada companheira de jantar o seu relato. As suas palavras vieram confirmar o que já pensava acerca de Sebastião. Verdade e poesia não se distinguem na sua concepção artística e teológica. Por um lado, não lhe seria indiferente a máxima de Novalis: «A poesia é o autêntico / real absoluto. […] / Quanto mais poético, mais verdadeiro.» Por outro, o seu cristianismo, trinitário, veria em Jesus «o Caminho, a Verdade e a Vida» (Jo 14, 6). Em Gama, dizer Poesia é outra maneira de nomear o Inominável – aquele Lógos ou Verbo que «[n]o princípio existia […] e […] era Deus» e, depois, «[se] fez homem e veio habitar connosco […] cheio de graça e verdade» (Jo 1, 1 e 14). Afinal, para o autor deCampo Aberto, «ao princípio era ela», a Poesia (esse outro nome de Deus), e «os homens podiam não ter nascido que nem por isso ela seria menos viva».



Imagem Programa da Jornada | D.R.



 

Edição: SNPC
Publicado em 22.05.2017

 

 

 
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