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A Bíblia, causa de divisão dos cristãos?

No intuito de chamar a atenção, alguém poderia dizer que a leitura da Bíblia foi fator de divisão dos cristãos. Mas tal afirmação não seria retórica: é uma realidade histórica, recordada na encíclica de João Paulo II: «Os debates em torno da Escritura influíram nas divisões [dos cristãos], especialmente no Ocidente» (Ut unum sint, 44). É verdade que heresias como a de Marcião e do montanismo em meados do séc. II, o movimento do milenarismo medieval, a questão trinitária do famoso Filioque (acrescento da Igreja ao Credo Niceno-Constantinopolitano, uma das razões que suscitou o grande cisma entre a Igreja do Oriente e a do Ocidente em 1054)..., nasceram de discussões entre cristãos em torno da Bíblia. E, quando Lutero provocou no séc. XVI mais uma dramática rutura na Igreja, os protestantes ficaram (quase) só com a Bíblia (sola Scriptura), enquanto os católicos ficaram com a missa e com a Tradição, quase sem Bíblia, lida quase só na missa, em latim e de costas para o povo.

Não obstante essas tristes divisões, a raiz delas não está na Bíblia cristã em si: para “os puros de coração”, ela só podia ser fator de união fraterna à volta de “um só Senhor, uma só fé…, um só Deus e Pai de todos” (Ef 4,5), “no único Espírito” (1Cor 12,4-11) que as tinha inspirado. As divisões partiram de dificuldades epistemológicas, de diferendos entre pessoas radicalizadas para marcarem a própria identidade, de ideologias sociológicas ou do paradigma doutrinal adotado na interpretação de textos da Bíblia. Mas o cristianismo não se move na divergência de interpretações doutrinais. Afirma-se na convergência das pessoas para Jesus Cristo, cuja força divina e personalidade humana as une a todas como a “seus irmãos” (Heb 2,17).



A Bíblia tem vocação de universalidade, com uma mensagem para toda a humanidade. Se influenciou todas as dimensões da cultura ocidental, também pode forjar a vida de todas as Igrejas cristãs



O problema que esta realidade deixa a nu é o da flagrante urgência de interpretar as Sagradas Escrituras que precisamos de ler. Os cristãos não estão habituados a interpretá-las: desejariam que a mensagem resplandecesse ao fio da leitura. Todavia, é o próprio Jesus que nos remete para a necessidade de interpretar. O biblista de então perguntou-lhe: “Mestre, que hei de fazer para herdar a vida definitiva? Ele respondeu-lhe: Na Lei, que está escrito? Como lês?” (Lc 10,25-26). Não basta ler: é preciso interpretar. Aliás, o cristianismo, sob certo aspeto, nasceu da interpretação das Escrituras judaicas, em que o próprio Jesus foi o maior obreiro, reinterpretando-as para além da letra, ele que também “interpretou [exegéomai, raiz de exegese] o Deus que nunca ninguém viu” (Jo 1,18).

Realmente, a Bíblia, constando, para os católicos, de 73 livros (onde os ortodoxos divergem pouco) e de 66 para os protestantes, é uma biblioteca, escrita ao longo de dez séculos. Memória condensada e fina flor da história de um povo de 19 séculos, mostra Deus a fazer história com os homens e a entrar nos caminhos deles, tendo em mira fazer uma fraternidade universal. Mas fá-lo numa linguagem prevalecentemente figurativa. As suas formas de expressão estão longe de nós como o Oriente do Ocidente, puxando o leitor ocidental e de cada ‘hoje’ para a responsabilidade da compreensão. Ela tem vocação de universalidade, com uma mensagem para toda a humanidade. Se influenciou todas as dimensões da cultura ocidental, também pode forjar a vida de todas as Igrejas cristãs. Se, com rigor e com um coração que escuta, atenderem aos princípios, métodos e critérios hermenêuticos comprovados, a mesma Bíblia deixará transparecer nos diversos intérpretes cristãos o mesmo sentido original que cada texto queria comunicar, como se verificou, por exemplo, na experiência da Tradução Ecuménica da Bíblia (1972-1975). Mais variada será depois a mensagem existencial para a ‘circunstância’ de cada leitor hoje.



Para secundar a súplica de Jesus, a Bíblia ajuda como íman de união por excelência. O maior contributo dela para a união dos cristãos não está no que ela dá, mas nas razões que ela sugere sobre a necessidade dessa união



Assim, a Bíblia pode ser ferramenta fundamental no diálogo entre os diferentes grupos cristãos. Interpretada e meditada a terminar em oração, é uma prática ecuménica privilegiada, do ponto de vista cultural, doutrinal, pastoral e espiritual. Se quem une as comunidades cristãs é o Ungido de Deus, a Bíblia é o contacto que mais diretamente remete para ele e conserva o primeiro eco da sua palavra na tradição apostólica cristalizada no Novo Testamento. Lá ressoa ainda, inspirada pelo seu Espírito, a voz de Jesus em oração: “Como Tu, Pai, estás em mim e eu em ti, que também eles estejam em nós, para que o mundo acredite que Tu me enviaste…; que sejam perfeitamente um só e assim o mundo saiba que Tu me enviaste e os amaste” (Jo 17,11.21-23). A união dinâmica dos cristãos entre si, efeito visível do amor, não só constitui a sua identidade de filhos do mesmo Pai, mas aparece aqui como grande argumento para as pessoas acreditarem em Deus e como prova visível do seu amor por elas. Os que não se amam não estão em união com Deus (1Jo 4,12.20). Nem provam que Ele existe. Ao contrário, vendo o vínculo de amor que une os discípulos, o mundo chegará a conhecer Deus através do seu Enviado ao mundo. Se desde o nascimento à morte foi Jesus que mostrou o Pai na terra, sucessivamente deveria ser a comunidade unida a mostrar a existência do amor leal, fundado em Deus. Sem essa união, Jesus aparece como mais um teórico da utopia humana. Só quando o seu projeto de vida tomar corpo nos discípulos é que ficará comprovado que ele não é um mero filósofo e que a virtude de Deus atua por meio dele. É responsabilidade das comunidades cristãs: com a sua divisão contribuem para o agnosticismo, o ateísmo, o indiferentismo e a incredulidade.

Para secundar a súplica de Jesus, a Bíblia ajuda como íman de união por excelência. O maior contributo dela para a união dos cristãos não está no que ela dá, mas nas razões que ela sugere sobre a necessidade dessa união. Aponta para a pessoa do Jesus histórico, para o centro da história humana, para o centro do cristianismo, para o centro de cada comunidade, para o centro de cada cristão, habitado pelo Cristo da fé, para as realidades e verdades essenciais, estampadas nela.


 

Armindo dos Santos Vaz
Biblista, professor catedrático jubilado da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa
Imagem: LincolnRogers/Bigstock.com
Publicado em 25.01.2021

 

 
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