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Senhor Santo Cristo dos Milagres: 60 anos de santuário, quase cinco séculos de devoção

A ilha de São Miguel, nos Açores, começou na sexta-feira a celebrar as festas anuais do Senhor Santo Cristo dos Milagres, que têm o ponto alto este domingo, assinalando o 60.º aniversário da criação do santuário evocativo de uma devoção que remonta à primeira metade do século XVI.

O Senhor Santo Cristo dos Milagres, representado por uma imagem do “Ecce Homo”, é venerado na igreja do convento de Nossa Senhora da Esperança, em Ponta Delgada, capital da ilha, que D. Manuel Afonso de Carvalho, bispo de Angra, elevou a santuário a 22 de abril de 1959.

Segundo a tradição, o culto, associado ao povoamento da ilha, teve início no convento da Caloura, na vila de Água de Pau, situada no vale de Cabeços, de onde partiram duas religiosas rumo a Roma, que regressaram com a imagem, oferecida pelo papa Paulo III.

Como o convento da Caloura se encontrava muito exposto à pirataria, as religiosas refugiaram-se noutros espaços já existentes na ilha, levando consigo a imagem, que desde 1540 ficou à guarda das Irmãs Clarissas, no convento da Esperança, onde ficou até hoje.



Do Tesouro do Senhor Santo Cristo dos Milagres, o resplendor é a sua peça mais rica: é composto por platina cromada de ouro, pesa 4,850 kg e está incrustado de 6842 pedras preciosas, como topázios, rubis, ametistas e safiras



Madre Teresa da Anunciada foi uma das religiosas do Convento da Esperança que, com mais fervor, se dedicou ao culto. Professou os votos solenes em 1683, tendo sido dela o desejo de construir uma capela para a imagem do Cristo despojado, dado por Pôncio Pilatos para a crucificação e morte. A primeira procissão com passagem por todas as igrejas e conventos da cidade, ter-se-á realizado em 1700.

Na segunda metade do século XVII, o convento da Esperança começou a beneficiar de grandes melhoramentos, como os painéis de azulejos que permanecem no coro baixo, e, no mesmo espaço, a colocação de talha na capela.

Do Tesouro do Senhor Santo Cristo dos Milagres, o resplendor é a sua peça mais rica: é composto por platina cromada de ouro, pesa 4,850 kg e está incrustado de 6842 pedras preciosas, como topázios, rubis, ametistas e safiras.

A coroa é considerada a peça mais delicada do conjunto: feita em ouro, pesa 800 gramas e possui 1082 pedras preciosas. O relicário, o cetro e as cordas foram as cinco peças do conjunto. As capas que cobrem a imagem – este ano foi oferecida por uma emigrante no Canadá – encontram-se em exposição.



«Façamos destes momentos uma oportunidade para transmitir uma mensagem de esperança, e que sejamos motivadores de Boa Nova, que é aquilo que as pessoas estão à espera»



As religiosas de Maria Imaculada, que desde 1962 substituíram as Clarissas, presentes de 1541 a 1894, continuam a acolher os peregrinos e a cuidar do santuário e da imagem, que conta com o culto de milhares de açorianos emigrados, e que pela ocasião das festas, regressam à terra natal.

No sábado, decorre a mudança da imagem, entregue à Irmandade do Senhor Santo Cristo pelas religiosas, que a voltam a receber no domingo à noite, depois da missa campal e da procissão solene pelo centro histórico de Ponta Delgada, num percurso de cerca de quatro horas.

As festas deste ano são presididas pelo arcebispo português D. José Avelino Bettencourt, natural dos Açores, e núncio apostólico (embaixador da Santa Sé) na Arménia e Geórgia.

«Façamos destes momentos uma oportunidade para  transmitir uma mensagem de esperança, e que sejamos motivadores de Boa Nova, que é aquilo que as pessoas estão à espera», desafiou o bispo de Angra, D. João Lavrador, a propósito das celebrações.



«Além dos tributos, dos círios, das flores, dos tapetes, quantos têm a força e a coragem de ouvir a mensagem de reconciliação e de amor, para ouvir esta mensagem, sem limites, sem tempo e sem fronteira e sem medo?»



Hoje, na missa, D. José Bettencourt, sublinhou que, «para o crente, o Senhor Santo Cristo dos milagres é uma presença, um sinal, uma continuidade, um conforto e uma permanência de Deus entre o seu povo».

«Milhares e milhares de pessoas» ajoelham-se diante de uma imagem evocativa da «crucificação e morte» de Jesus, longe da «vaidade, riqueza, poder e soberba», revelando que Deus, «está sempre presente, nos tempos e contratempos, nas venturas e nos infortúnios, na velhice, na saúde, na doença e na vida», acrescentou.

Depois da «emoção» de contemplar a imagem, das promessas que se cumprem durante os três dias, há uma dúvida que subsiste: «Quantos escutam esta mensagem no quotidiano, nas suas vidas, depois de arrumar as festas?».

«Além dos tributos, dos círios, das flores, dos tapetes, quantos têm a força e a coragem de ouvir a mensagem de reconciliação e de amor, para ouvir esta mensagem, sem limites, sem tempo e sem fronteira e sem medo?», questionou.


 

Rui Jorge Martins
Fontes: Maria do Rosário Barardo ("Santuários de Portugal", ed. Paulinas), Igreja Açores (1) (2)
Imagem: D.R.
Publicado em 26.05.2019

 

 

 
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