

"A coroação da Virgem" (det.) | Fra Angelico | 1434/5 | Galeria dos Uffizi, Florença, Itália
«Cheguei até ao ateísmo intelectual, até imaginar um mundo sem Deus. No entanto vejo que conservei sempre uma secreta confiança em Maria. Nos momentos de angústia sai-me espontaneamente do peito esta exclamação: «Mãe de misericórdia, ajuda-me!».
Este canto à mãe de Cristo não foi extraído da infindável literatura mariana mas de um passo autobiográfico deveras surpreendente de um famoso escritor e filósofo espanhol Miguel de Unamuno (1864-1936), personagem de experiência muito atormentada, oscilante entre o ateísmo e a mística.
O seu testemunho é muitas vezes confirmado de modo inesperado também por outras figuras da cultura que procuraram eliminar toda a marca religiosa da sua alma, extirpando-lhe sobretudo as raízes da infância, quando a espiritualidade era quase espontânea.
Com efeito, por vezes muitas destas pessoas, como tantos outros personagens mais ou menos conhecidos, confessam ter conservado uma gota de confiança religiosa sobretudo - nos momentos mais obscuros - precisamente através da invocação a Maria.
É talvez um modo para não incomodar Deus, presença mais difícil e exigente, mas é uma última e pequena via para a fé.
Também aos crentes, todavia, gostaria de dizer - sempre no seguimento das palavras de Unamuno - que não se deve hesitar em conservar um fundo de confiança "infantil": não esqueçamos que a própria Bíblia representa a atitude emblemática do crente na «criança saciada ao colo da mãe» (Salmo 131).
É verdade que a fé não deve ser só sentimento, mas é também serenidade, doçura, paz e quietude interior.