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Deus não está de dedo apontado para os teus pecados, mas estende-te a mão que te agarra e reergue

Há uma casa, em Cafarnaum, onde a morte pousou o ninho; uma casa importante, do chefe da sinagoga (Marcos 5, 21-43). Casa poderosa, e no entanto incapaz de garantir a vida de uma menina.

Jairo saiu dela, caminhou em busca de Jesus, encontrou-o, lançou-se aos seus pés: a minha filhinha está a morrer, vem! Tem doze anos, está em que é suposto florescer, não sucumbir.

Jesus escuta o grito do pai, interrompe o que estava a fazer, altera os seus programas, e caminham juntos, o livre Mestre das estradas e o homem da instituição.

A dor e o amor começaram a marcar o compasso de uma música absoluta, e Jesus entra nela: são as nossas raízes, Ele chega até nós, como passo de mãe, precisamente através das raízes.

Da casa vieram dizer: a tua filha está morta. Porque é que então continuas a incomodar Mestre? A tempestade definitiva chegou. Caiu a última esperança. E então Jesus aproxima-se, faz-se barreira à dor: não temas, somente tem fé.

Chegados à casa, Jesus toma o pai e a mãe consigo, recompõe o círculo vital dos afetos, o círculo do amor que faz viver. «Amar é dizer: tu não morrerás» (Gabriel Marcel).

Toma consigo também os seus três discípulos preferidos, inscreve-os na escola da existência. Não lhes explica porque é que se morre aos doze anos, porque existe a dor, mas leva-os consigo no corpo a corpo com a última inimiga.

«Tomou a mão da menina.» Jesus é uma mão que te toma pela mão. Belíssima imagem: Deus e uma menina, mão na mão. Não era lícito, segundo a lei, tocar um morto, quem o fizesse tornava-se impuro, mas Jesus perfuma de liberdade. E ensina-nos que é preciso tocar o desespero das pessoas para as poder reerguer.

Uma história de mãos: em todas as casas, junto ao leito da dor ou ao do nascimento, o Senhor é sempre uma mão estendida, como o é para Pedro quando se está a afundar na tempestade. Não um dedo apontado, mas uma mão forte que te agarra.

“Talità kum.” Menina, ergue-te. Ele pode ajudá-la, apoiá-la, mas é ela, é apenas ela que pode levantar-se: ergue-te. E logo a menina se levantou e caminhava, restituída ao abraço dos seus, a uma vida vertical e encaminhada.

«Ordenou aos pais que lhe dessem de comer.» Diz àqueles que a amam: protejam esta vida com as vossas vidas, fazei-a crescer, estimulai-a a tornar-se no melhor que pode tornar-se. Alimentem de sonhos, de carícias e de confiança o seu renascido coração de criança.

Deus repete a cada criatura, a cada flor, a cada homem, a cada mulher, a cada criança, a bênção daquelas antigas palavras: “Talità kum”. Jovem vida, digo-te: ergue-te, endireita-te, revive, resplandece. Regressa aos abraços.


 

Ermes Ronchi
In Avvenire
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: Ilya Repin
Publicado em 24.06.2021

 

 
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