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50 anos de Woodstock: Da contestação, criatividade e sonho ao fim da inocência e da utopia

O ano de 1969 marca a passagem à idade adulta do rock and roll, ao tomar consciência da sua carga revolucionária, da sua fonte disruptiva como instrumento de denúncia e de protesto. É o ano de Woodstock: num clima de total anarquia, de 15 a 17 de agosto meio milhão de pessoas celebram amor e música, e, inconscientemente, também o fim do “summer of love”. Apesar disso, aquele primeiro inesperado e improvisado megaencontro juvenil depressa se arvora em símbolo de toda uma geração marcada pelo slogan “peace and love”, pela transgressão das regras, e pela contestação a uma sociedade considerada retrógrada e conservadora, bem como a uma política de apoio à guerra.

É, com efeito, o ano de “Give peace a chance”, de John Lennon, que em breve se torna o hino global contra a “guerra suja” que se está a combater no Vietname, de “Fortunate son”, dos Creedence Clearwater Revival, outra canção antimilitarista, e de “Volunteers”, dos Jefferson Ariplane, que incita à revolução (no ano anterior os Beatles, com “Revolution”, tinham sido decididamente mais circunspetos). Mas é também o ano do álbum “Say it loud I’m black and I’m proud”, de James Brown, o disco que convence os negros a serem negros – como explicará alguns anos mais tarde o rapper Chuck D, dos Public Enemy –, a não se envergonharem de o serem e, até, de serem orgulhosos por isso.

Enquanto o mundo está com o nariz voltado para o alto, encantado por uma Lua repentinamente tornada mais próxima como aquele histórico passo de Neil Armstrong, a música permanece bem ancorada à Terra, a um planeta dividido em dois por uma cortina de ferro, e que está lentamente a descobrir divisão também entre um norte e um sul. Um mundo em que se combate uma guerra que na América, e não só, a maior parte não compreende, mas que devora o melhor de uma geração. Uma geração que só na frente de combate parece não ter distinções de pele. De resto, as balas não distinguem entre brancos, pretos e amarelos.



1969 não é só música de protesto. As experimentações continuam, sobretudo do lado britânico. The Who produzem “Tommy”, um álbum concetual que é uma grande ópera rock. David Bowie, com o seu segundo disco, “Space oddity”, e a aventura espacial do Major Tom, guia o psicadelismo para o glam rock. Os Led Zeppelin confecionam dois álbuns com um som poderoso, marcando o nascimento oficial do hard rock. Outros grupos começam a dar a saborear outros sons



A contracultura que se desenvolveu até então subterraneamente, consegue visibilidade, influenciando através das canções milhares de jovens. E se é verdade que toda a revolução precisa de uma música própria, a popular torna-se a banda sonora das pulsões daquele ano, começando a cavalgar com convicção e força o protesto que recrudesce, tornando-se o veículo mais eficaz.

Os cantautores norte-americanos constituem a vanguarda consciente de um exército que agita as guitarras como se fossem espingardas (já nos anos 40, Woody Guthrie tinha escrito na sua guitarra “This machine kills fascists”. Em Washington, a 15 de novembro, durante uma manifestação contra a guerra no Vietname, Pete Seeger dirige-se ao presidente e ao seu vice, desafiando-os: «Estão a ouvir Nixon? Estão a ouvir Agnew?». E a cada pergunta, os 500 mil manifestantes respondem com o refrão da canção de Lennon: «All we are saying is give peace a chance».

Com Lennon e Seeger a apontar o caminho está também Bob Dylan, com as suas baladas compostas anos antes, de “Blowin’in the wind” a “Masters of war”, de “Talking World War III Blues” a “The times they are a-changin’”, mas desempoeiradas e relançadas. Também as letras se tornam pilares de um movimento que se move entre pacifismo e luta pelos direitos civis. E que muitas vezes se confronta, na estrada, com as forças da ordem. Tema este sobre o qual se tinham cimentado no ano anterior os Rolling Stones, com “Street fighting man”, e a que regressem com força, no ano seguinte, Crosby, Stills, Nash and Young com “Ohio”, velozmente escrita por Young depois de ter visto na televisão as imagens dos embates ocorridos no campus da universidade Kent State, a 4 de maio de 1970. Nesse dia, para suprimir um protesto estudantil contra a guerra no Vietname, os soldados da Guarda Nacional dispararam sobre os manifestantes, matando quatro e ferindo nove.



Muitos fermentos, portanto, e alguns tristes adeus nesse 1969. Que, no entanto, é também o ano da perda da inocência



Mas 1969 não é só música de protesto. As experimentações continuam, sobretudo do lado britânico. The Who produzem “Tommy”, um álbum concetual que é uma grande ópera rock. David Bowie, com o seu segundo disco, “Space oddity”, e a aventura espacial do Major Tom, guia o psicadelismo para o glam rock. Os Led Zeppelin confecionam dois álbuns com um som poderoso, marcando o nascimento oficial do hard rock. Outros grupos começam a dar a saborear outros sons, como o progressivo (os King Crimson, com “In the court of the Crismson king”), e o punk (os MC5 com “Kick out the jams”). Tudo isto enquanto os Beatles, os maiores inovadores da música pop, entregam à história a sua última obra-prima, “Abbey road”. A 30 de janeiro, já mergulhados no seu longo adeus aos palcos, tinham tocado, enregelados, pela última vez em público, no teto do palácio que hospedava a Apple (a sua editora discográfica), no número 3 de Savile Row, em Londres, salvos do congelamento pela intervenção da polícia, que interrompe a exibição.

Muitos fermentos, portanto, e alguns tristes adeus nesse 1969. Que, no entanto, é também o ano da perda da inocência, e não só por causa da trágica cadeia de crimes executados pela “Family” do louco Charles Manson, com frases das canções dos Beatles escritas nas paredes como corolário dos delitos, e pela tragédia – um jovem morto às ordens dos Hell’s Angels – que mancha o concerto gratuito dos Rolling Stones em Altamont, pensado como resposta da Costa Leste a Woodstock.

É o fim da idade da inocência porque representa o culminar de uma trajetória destinada a um rápido declínio, àquele crepúsculo das ilusões que se consumirá nas décadas seguintes, naqueles anos 70 atormentados e autodestrutivos. A tonalidade de muitas canções torna-se mais áspera, mais enraivecida do que aquela claramente pacifista de composições símbolo como “Imagine”, de Lennon. O tempo – breve – das utopias tinha terminado.


 

Gaetano Vallini
In L'Osservatore Romano
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: D.R.
Publicado em 25.07.2019

 

 
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