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Meditação

É por nós quem não é contra nós

Jesus e apóstolos

Disse-lhe João: «Mestre, vimos alguém expulsar demónios em teu nome, alguém que não nos segue, e quisemos impedi-lo porque não nos segue.» Jesus disse-lhes: «Não o impeçais, porque não há ninguém que faça um milagre em meu nome e vá logo dizer mal de mim. Quem não é contra nós é por nós. Sim, seja quem for que vos der a beber um copo de água por serdes de Cristo, em verdade vos digo que não perderá a sua recompensa.»
«E se alguém escandalizar um destes pequeninos que crêem em mim, melhor seria para ele atarem-lhe ao pescoço uma dessas mós que são giradas pelos jumentos, e lançarem-no ao mar. Se a tua mão é para ti ocasião de queda, corta-a; mais vale entrares mutilado na vida, do que, com as duas mãos, ires para a Geena, para o fogo que não se apaga, onde o verme não morre e o fogo não se apaga. Se o teu pé é para ti ocasião de queda, corta-o; mais vale entrares coxo na vida, do que, com os dois pés, seres lançado à Geena, onde o verme não morre e o fogo não se apaga. E se um dos teus olhos é para ti ocasião de queda, arranca-o; mais vale entrares com um só no Reino de Deus, do que, com os dois olhos, seres lançado à Geena, onde o verme não morre e o fogo não se apaga. Todos serão salgados com fogo. O sal é coisa boa; mas, se o sal ficar insosso, com que haveis de o temperar? Tende sal em vós mesmos e vivei em paz uns com os outros.»
(Marcos 9,38-50 - Evangelho do 26.º Domingo do Tempo Comum, 27.09.09)

 

Jesus tinha acabado de interromper a discussão dos Doze sobre qual deles seria o maior, proferindo as palavras que daquele dia em diante irão aferir para sempre as relações no interior da comunidade cristã: «Se alguém quiser ser o primeiro, há-de ser o último de todos e o servo de todos» (Marcos 9,35). É então que, pela boca de João, se manifesta novamente a incompreensão dos discípulos: «Mestre, vimos alguém expulsar demónios em teu nome, alguém que não nos segue, e quisemos impedi-lo porque não nos segue.»

João exprime bem a atitude de quem se sente no dever de defender a prerrogativa da comunidade das supostas ameaças provenientes do exterior. Deste modo, manifesta o mau zelo de quantos querem delimitar com excessiva precisão as fronteiras entre a comunidade cristã e o exterior, com a mal dissimulada ambição de ser o único detentor do autêntico poder carismático. Ao agir desta forma, exige ainda – caso único em todos os evangelhos – o seguimento de todo o grupo («não nos segue»)!

Já o Antigo Testamento testemunhava um episódio análogo. Por acção do Espírito, dois homens profetizavam fora da assembleia de Moisés e dos setenta anciãos. Josué pede então a Moisés para os deter, mas ouve esta resposta: «Tens ciúmes por mim? Quem dera que todo o povo do Senhor profetizasse, que o Senhor enviasse o seu espírito sobre ele!» (Números 11,29)...

Jesus faz seus os sentimentos de Moisés e repreende João: «Não o impeçais, porque não há ninguém que faça um milagre em meu nome e vá logo dizer mal de mim. Quem não é contra nós é por nós». É verdade que os discípulos, incapazes de expulsar o demónio que atormentava o jovem epiléptico (cf. Marcos 9,18), ficaram surpreendidos por outros realizarem o mesmo gesto, e a sua frustração transforma-se em arrogância e inimizade. Mas Jesus ensina-os que o poder do seu Nome – confessado em verdade exclusivamente graças à acção do Espírito Santo (cf. 1 Coríntios 12,3) – não pode ser confinado a espaços demasiado estreitos: sim, o Nome do Senhor excede sempre os confins da Igreja que o confessa, e o Senhor contará os seus testemunhos bem para lá da fronteira da comunidade cristã! O Nome de Jesus não pode ser fonte de separação entre as pessoas que o invocam afirmativamente porque exprime abertura e serviço universal no dom de si.

Ninguém pode pretender deter o monopólio da Presença do Senhor, se não quiser reduzi-lo a ídolo e tornar-se motivo de escândalo, isto é, embaraçando e obstruindo o caminho do homem para Deus. Um escândalo que se coloca acima de tudo no interior da comunidade cristã: «Se alguém escandalizar um destes pequeninos que crêem em mim, melhor seria para ele atarem-lhe ao pescoço uma dessas mós que são giradas pelos jumentos, e lançarem-no ao mar». Na Igreja, «os pequeninos» são os cristãos cuja fé está mais sujeita à perturbação (cf. Romanos 14,1-23): «ferindo a consciência deles que é débil, é contra Cristo que pecais» (1 Coríntios 8,12). Estes, que são os membros do corpo mais humildes e indefesos (cf. 1 Coríntios 12,22-27) devem ser rodeados de maior cuidado, porque no dia do juízo mostrarão a sua grandeza.

O escândalo surge para além da vida de todo o cristão. E aqui Jesus não teme usar imagens fortes: «Se a tua mão é para ti ocasião de queda, corta-a... Se o teu pé é para ti ocasião de queda, corta-o... Se um dos teus olhos é para ti ocasião de queda, arranca-o; mais vale entrares com um só no Reino de Deus, do que, com os dois olhos, seres lançado à Geena». São palavras que não pretendem assustar quem o escuta, mas apenas recordar com clareza a exigência do radicalismo evangélico: é necessário renunciar àquilo que pode impedir a entrada no Reino, ou seja, travar uma dura luta pessoal contra as tendências que conduzem o homem a cair no pecado e a seguir as inclinações que contradizem a vida de comunhão oferecida no Evangelho.

Traçar confins demasiado nítidos com o seu exterior enquanto se é incapaz de viver o Evangelho: o Senhor Jesus adverte-nos deste duplo erro, apelando a sermos vigilantes connosco próprios e a viver uma abertura cordial ao diálogo com quem não pode ou não quer pertencer à comunidade cristã.

 

Baseado em texto de Enzo Bianchi
Fundador do Mosteiro de Bose
Trad.: rm
Imagem: Duccio
Actualizado em 17.06.10









































































































































 

 

 

 

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