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Visão cristã do sofrimento

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Visão cristã do sofrimento

O atual sucesso das correntes religiosas como a “New Age” ou o budismo deve-se, em grande parte, à sua pretensão de permitir ao ser humano sair deste mundo de sofrimento em que o cristianismo parece, sob certos aspetos, mantê-lo. Conscientes da recusa das justificações do passado em relação ao sofrimento, os cristãos não obtêm nada se hoje se refugiarem numa atitude em que o sofrimento é apresentado como um mistério que é preciso recusar iluminar, enquanto a maioria dos filósofos e dos expoentes de outras religiões se propõem dar-lhe um sentido e dele libertar o ser humano.

Na realidade, o cristianismo constitui, sem dúvida, a tentativa mais conseguida para compreender o sentido do sofrimento e sabê-lo enfrentar, desde que seja encarado corretamente na justa perspetiva. Para esse efeito é necessário desembaraçar-se de uma representação falsa e nociva, regressando às origens. Sobre o assunto os padres gregos [dos primeiros séculos do cristianismo] oferecem-nos pontos de vista muitas vezes distintos da conceção de Santo Agostinho e da tradição de pensamento nascida no Ocidente.

Segundo um discurso muito claro de Santo Isaac, o Sírio, «Deus não quer o sofrimento dos homens» e nunca o quis. Cristo não veio ao nosso encontro para nos fazer sofrer, mas sobretudo para nos libertar dos sofrimentos. O cristianismo não é fundamentalmente a religião do sofrimento, mas do bem-estar que Deus deu ao ser humano ao criá-lo e que tem em mente dar-lhe pela eternidade. O sofrimento permanece um facto que, mais do que ser contornado, deve ser assumido e enfrentado o melhor possível. É uma constatação sábia e pragmática que dele faz o cristianismo. Aliás, para essa tarefa dispõe de possibilidades consideráveis. Em Cristo o sofrimento recebeu um novo estatuto: perdeu a sua força tirânica de induzir o pecado e as paixões e de poder ser utilizado pelos poderes maléficos para levar o ser humano ao mal.

Ao contrário, o sofrimento pode doravante ser utilizado como um meio para combater o pecado e as paixões e vencer as potências do mal. Com a graça de Cristo recebida no Batismo, o seu «poder mostra-se na fraqueza» do ser humano (2 Coríntios 12, 9). O cristão recebe a capacidade de permanecer espiritualmente afastado e impassível diante do sofrimento. Não só pode evitar que ele o leve ao mal, mas pode dele fazer uma ocasião de progresso espiritual. Longe de o arrastar para o pecado e para o desenvolvimento das paixões, o sofrimento pode ser para ele uma ocasião para se purificar dos pecados e paixões e fazer crescer comportamentos virtuosos. O bom uso do sofrimento supõe, no entanto, quatro disposições principais, que uma prática regular permite elevar a virtudes: paciência, esperança, oração e amor de Deus.

No esforço empenhado para adotar e desenvolver estas disposições naturais, o cristão tem Cristo como modelo e pedagogo. É necessário explicitar, todavia, que se se pode extrair aproveitamento espiritual do sofrimento, nunca se deve procurá-la com este fim. O cristianismo não faz do sofrimento um fim da vida espiritual nem um meio obrigatório para essa vida. Os bens espirituais adquiridos no sofrimento não recebidos dele, mas por ocasião dele. Além disso, não dependem tanto do próprio sofrimento mas da atitude assumida em relação a ele. Enquanto bens, são sempre um dom de deus. O sofrimento constitui, de facto, uma provação que, segundo a disposição adotada em relação a Deus, pode conduzir o ser humano quer à sua perdição quer à sua salvação. Escolhendo esta última via e progredindo nela, o cristão tem Cristo como guia experiente e compassivo.

 

Andrej Boytsov
In "Avvenire"
Trad. / edição: Rui Jorge Martins
Publicado em 20.09.2016

 

 
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O cristianismo não é fundamentalmente a religião do sofrimento, mas do bem-estar que Deus deu ao ser humano ao criá-lo e que tem em mente dar-lhe pela eternidade. O sofrimento permanece um facto que, mais do que ser contornado, deve ser assumido e enfrentado o melhor possível
O sofrimento constitui, de facto, uma provação que, segundo a disposição adotada em relação a Deus, pode conduzir o ser humano quer à sua perdição quer à sua salvação. Escolhendo esta última via e progredindo nela, o cristão tem Cristo como guia experiente e compassivo
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