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Papa na Turquia: Violência que procura justificação religiosa merece a mais forte condenação, porque Deus é vida e paz

Imagem Papa Francisco com o grande mufti de Istambul | Mesquita Azul, Istambul | 29.11.2014 | Getty | D.R.

Papa na Turquia: Violência que procura justificação religiosa merece a mais forte condenação, porque Deus é vida e paz

«Na qualidade de líderes religiosos, temos a obrigação de denunciar todas as violações da dignidade e dos direitos humanos. A vida humana, dom de Deus criador, possui um carácter sagrado. Por isso, a violência que procura uma justificação religiosa merece a mais forte condenação, porque o Omnipotente é Deus da vida e da paz. De todos aqueles que o adoram, o mundo espera que sejam homens e mulheres de paz, capaz de viver como irmãos e irmãs, não obstante as diferenças étnicas, religiosas, culturais ou ideológicas», vincou Francisco. 

O segundo encontro importante da jornada do papa Francisco em Ancara ocorreu na tarde de sexta-feira na “Diyanet”, o Departamento para os Assuntos Religiosos, a mais alta autoridade religiosa islâmica do país, sedeada numa grande mesquita de construção recente nos arredores de Ancara.

Para além das fronteiras da Turquia, as minorias religiosas, em particular a cristã e yazidi, «sofrem violências desumanas. É preciso mais diálogo, respeito recíproco e amizade entre os líderes religiosos, enquanto «mensagem» dirigida às respetivas comunidades, apontou.

Bergoglio foi recebido pelo presidente da “Diyanet”, Mehmet Görmez. No seu discurso de saudação, o líder islâmico diz-lhe: «Aqueles que se comportam de maneira contrário à mensagem de paz do islão, aqueles que defendem a violência e a brutalidade, seguindo um caminho errado, não importa o nome com que se identificam, são rebeldes a Deus».

Görmez criticou Israel pelo tratamento do povo palestino, e os médias que «espalham mensagens sobre cenários de violência» fomentando «o ódio contra os muçulmanos». «Refutamos todo o tipo de violência e procuramos construir o nosso futuro comum», concluiu.

Sem a abertura ao encontro e ao diálogo, «uma visita papal não responderia plenamente à sua finalidade», observou o pontífice na sua intervenção.«As boas relações e o diálogo entre líderes religiosos» manifestam que «o respeito mútuo e a amizade são possíveis, não obstante as diferenças».

Francisco alargou o olhar para além das fronteiras do país: «Há guerras que semeiam vítimas e destruições; tensões e conflitos interétnicos e inter-religiosos; fome e pobreza que atingem centenas de milhões de pessoas; estragos no ambiente natural».

Em particular, acrescentou, «verdadeiramente trágica é a situação no Médio Oriente, especialmente no Iraque e na Síria. Todos sofrem as consequências dos conflitos e a situação humanitária é angustiante». O papa lembrou as «muitas crianças e os sofrimentos de muitas mães, os idosos, os deslocados e os refugiados, as violências de todo o género».

«Sobretudo por causa de um grupo extremista e fundamentalista, comunidades inteiras, especialmente – mas não só – os cristãos e os yazidis, sofreram e continuam a sofrer violências desumanas por causa da sua identidade religiosa. Foram expulsos à força das suas casas, tiveram de abandonar cada casa para salvar a própria vida e não renegar a fé. A violência atingiu também edifícios sagrados, monumentos, símbolos religiosos e o património cultural, talvez a querer excluir todo o traço, toda a memória do outro».

A denúncia não chega: «É preciso prosseguir o trabalho comum para encontrar soluções adequadas. Isto requer a colaboração de todas as partes: governos, líderes políticos e religiosos, representantes da sociedade civil, e todos os homens e mulheres de boa vontade».

«Nós, muçulmanos e cristãos, somos depositários de inestimáveis tesouros espirituais, entre os quais reconhecemos elementos comuns, embora vividos segundo as diversas tradições: a adoração de Deus misericordioso, a referência ao patriarca Abraão, a oração, a esmola, o jejum, elementos que, vividos de maneira sincera, podem transformar a vida e dar uma base segura à dignidade e à fraternidade dos homens», salientou o papa, acrescentando que o diálogo deve ser «criativo».

A proximidade espiritual deve ser reconhecida e desenvolvida, porque ajuda o cristianismo e o islão «a defender na sociedade os valores morais, a paz e a liberdade. O reconhecimento comum da sacralidade da pessoa humana firma a compaixão comum, a solidariedade e a ajuda efetiva aos mais sofredores».

Francisco expressou a sua estima «por tudo quanto o povo turco, os muçulmanos e os cristãos, estão a fazer pelas centenas de milhares de pessoas que fogem dos seus países por causa dos conflitos»: «Este é um exemplo concreto de como trabalhar em conjunto para servir os outros, um exemplo a encorajar e a apoiar».

O papa concluiu a sua intervenção dizendo: «Estou grato pela vossa oração, que tereis a bondade de oferecer pelo meu serviço».

Hoje de manhã, o papa partiu da capital turca em direção a Istambul, antiga Constantinopla, onde foi recebido no aeroporto pelo patriarca ortodoxo Bartolomeu.

A imagem mais importante do segundo dia da visita à Turquia aconteceu na denominada Mesquita Azul, aquando da oração silenciosa de Francisco junto ao grande mufti Rahmi Yaran: «Não só devemos glorificar e louvar Deus, mas devemos também adorá-lo. Eis a primeira coisa», disse o papa.

Após a visita e a oração na grande mesquita Sultan Ahmet, repetindo os gestos protagonizados há oito anos pelo papa emérito Bento XVI, Francisco dirigiu-se de automóvel ao museu de Santa Sofia.

A grande basílica bizantina, depois transformada em mesquita, tornou-se em 1935 um museu, por vontade do fundador da República da Turquia, Kemal Atatürk.  

No livro de honra, no termo da sua visita, Francisco escreveu “Santa Sofia” em grego, seguido destas palavras: «Quam dilecta tabernacula tua Domine (Psalmus 83). Contemplando a beleza e a harmonia deste lugar sagrado, a minha alma eleva-se ao Omnipotente, fonte e origem de toda a beleza, e peço ao Altíssimo de guiar sempre os corações da humanidade pelo caminho da verdade, da bondade e da paz».

 

Andrea Tornielli
In "Vatican Insider"
Trad. / edição: Rui Jorge Martins
Publicado em 29.11.2014

 

 
Imagem Papa Francisco com o grande mufti de Istambul | Mesquita Azul, Istambul | 29.11.2014 | Getty | D.R.
Nós, muçulmanos e cristãos, somos depositários de inestimáveis tesouros espirituais, entre os quais reconhecemos elementos comuns: a adoração de Deus misericordioso, a referência ao patriarca Abraão, a oração, a esmola, o jejum, elementos que, vividos de maneira sincera, podem transformar a vida e dar uma base segura à dignidade
Francisco expressou a sua estima «por tudo quanto o povo turco, os muçulmanos e os cristãos, estão a fazer pelas centenas de milhares de pessoas que fogem dos seus países por causa dos conflitos»: «Este é um exemplo concreto de como trabalhar em conjunto para servir os outros, um exemplo a encorajar e a apoiar»
Contemplando a beleza e a harmonia deste lugar sagrado, a minha alma eleva-se ao Omnipotente, fonte e origem de toda a beleza, e peço ao Altíssimo de guiar sempre os corações da humanidade pelo caminho da verdade, da bondade e da paz
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