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Vigiai!

Vigiai!

Imagem Huy Thoai/Bigstock.com

Acabámos de terminar o ano litúrgico A, no qual o Evangelho segundo Mateus nos foi proposto como leitura cursiva dominical. Com o primeiro domingo do tempo da vinda de Cristo (Advento), iniciamos a leitura do Evangelho segundo Marcos, que nos acompanhará neste novo ano litúrgico (B).

Se Mateus, no último domingo, nos propôs o fresco da vinda do Filho do homem e do seu julgamento sobre toda a humanidade (cf. 25, 31-46), no Evangelho do primeiro domingo do Advento (Marcos 13, 33-37) volta a colocar-se diante dos nossos olhos a vinda do Filho do homem no fim dos tempos, instruindo-nos sobre como aguardar esse dia. De acordo com o evangelista mais antigo, a gloriosa manifestação do Filho do homem acontecerá depois de uma tribulação na qual a atual ordem do mundo será abalada e terminará (cf. Marcos 13, 5-23). Então toda a humanidade será colocada diante da visão do Filho do homem que vem sobre as nuvens com grande poder e glória (cf. Marcos 13,24-27, Daniel 7, 13-14). Será um acontecimento extrínseco à história e à vontade humana, que realizará um decreto do Pai: o Filho do homem estabelecerá para sempre o seu Reino e, através dos seus mensageiros, reunirá os chamados por Ele. Visão apocalíptica, reveladora, cujas imagens devem evocar a ação indescritível de Deus, que é e será sempre uma ação de salvação e libertação.



Tomar cuidado, estar atento e vigiar é uma atitude absolutamente necessária na luta, e a vida cristã é uma luta, uma luta contra o atordoamento espiritual, a letargia da consciência, a sonolência da convicção na fé, o arrefecimento da caridade



A parusia, a vinda gloriosa, coincidirá com o fim da criação atual e o advento da nova, um acontecimento que certamente ocorrerá mas cuja hora não é conhecida por ninguém, a não ser por Deus, como Jesus afirma imediatamente antes da nossa passagem litúrgica. Nem mesmo Jesus a conhece, Ele que, na condição de verdadeiro homem em tudo semelhante a nós, exceto no pecado (cf Hebreus 4, 15), ignora e, portanto, não pode declarar aquela hora que virá de repente, quer os humanos a esperem ou não. Claro, há sinais que podem avisar, sinais que exigem um discernimento atento: como, observando os botões da figueira, quando eles se enchem pode entrever-se que o verão está próximo, assim os crentes, lendo em profundidade os eventos da história, podem compreender que "o dia do Senhor" está próximo e que o Filho do homem está às portas (cf. Marcos 13, 28-31). E mesmo que os discípulos aguardem esse dia e ele não lhes cheque imprevistamente, Jesus dá-lhes uma admoestação que também contém o esboço de uma parábola.

Ele começa por dizer: «Tomai cuidado e vigiai». No início do discurso escatológico [respeitante ao final dos tempos], e duas vezes antes disso, Jesus repete: «Tomai cuidado». Aqui volta a declará-lo pela quarta vez, de forma urgente, unindo esse aviso ao outro: «Vigiai». Tomar cuidado, estar atento e vigiar é uma atitude absolutamente necessária na luta, e a vida cristã é uma luta, uma luta contra o atordoamento espiritual, a letargia da consciência, a sonolência da convicção na fé, o arrefecimento da caridade (cf. Mateus 24.12). Noutras ocasiões, no Evangelho segundo Marcos, Jesus chama os discípulos a esta vigilância para escutar a Palavra de Deus (cf. Mc 4, 24), para não ser influenciado pelo fermento dos fariseus (cf. Mc 8, 15), pela hipocrisia dos escribas (cf. Mc 12,38), pelo engano daqueles que predizem o futuro como se o conhecessem (cf. Mc 13, 23). Ele quer que os discípulos se convençam da vinda gloriosa do Filho do homem, porque este é o único acontecimento que conta verdadeira e definitivamente na história. Mesmo o apóstolo Paulo pedirá à comunidade cristã esta vigilância, esta capacidade de estar acordada, despertando do sono, porque o dia do Senhor está próximo (cf. Romanos 13, 11). O momento não é conhecido, por isso devemos estar prontos para acolher aquele que vem, o próprio Senhor!



Trata-se de vigiar, porque aquele homem, o Senhor da casa, virá. Atenção, não se diz que «retornará», porque nos Evangelhos nunca se fala de «retorno», mas de «vinda» do Senhor. Ele é aquele que vem, que pode vir sempre: à tarde, à meia-noite, ao cantar do galo, ou pela manhã... as horas de sono ou do primeiro despertar!



Eis, então, de seguida, a breve parábola. Um homem sai para uma viagem longe da sua casa e, ao deixá-la, dá poder aos seus servos e ordena ao porteiro que vigie. Dito isto, Jesus dirige-se diretamente aos discípulos, porque é claro que esta parábola diz respeito diretamente a eles: depressa Ele partirá - será de facto capturado, condenado e morto – e os seus discípulos permanecerão sem Ele. Haverá, portanto, um tempo marcado pela sua ausência, mas os discípulos receberam uma missão, uma tarefa, e há também alguém que, como o porteiro, é chamado a vigiar por toda a comunidade. As responsabilidades confiadas são diferentes e certamente o porteiro (figura sob a qual também se pode ver uma alusão a Pedro, que muitas vezes Marco distingue dos outros onze) tem uma tarefa superior à dos outros: a ele foi dado muito e será pedido muito mais (cf. Lucas 12,48), portanto sobretudo ele deve estar de guarda na casa e nos servos que lá estão.

Trata-se, portanto, de vigiar, porque aquele homem, o Senhor da casa, virá. Atenção, não se diz que «retornará», porque nos Evangelhos nunca se fala de «retorno», mas de «vinda» do Senhor. Ele é aquele que vem, que pode vir sempre: à tarde, à meia-noite, ao cantar do galo, ou pela manhã... as horas de sono ou do primeiro despertar! Pode chegar à noite, à hora em que os três discípulos mais próximos de Jesus - Pedro, Tiago e João -, chamados a velar em oração para sofrer com Jesus tentado na iminência de sua paixão e morte, dormiram (cf. Mc 14, 32-42). Pode vir à hora do canto do galo, quando Jesus está diante do sumo sacerdote e é processado, enquanto Pedro o renega dizendo que nunca o conheceu, como o Senhor o havia antecipado (cf. Mc 14 66-72). Poderá vir ao amanhecer, quando o túmulo de Jesus surge vazio porque ressuscitou dos mortos, mas os discípulos permanecem incrédulos mesmo diante da proclamação pascal das mulheres discípulas (cf. Mc 16, 1-11). São horas de revelação de Jesus, horas da sua vinda, mas os discípulos, os Doze, desertaram, e significativamente Marcos realça essas falhas, essa não vigilância. É por isso que as mulheres receberão a proclamação do anúncio pascal e a ordem de ir proclamar aos seus discípulos e a Pedro que Jesus ressuscitou e os precede a todos na Galileia, onde Ele os chamou e onde tinha vivido com eles: é um chamamento a recomeçar...



Os padres do deserto chegaram a dizer: «Não precisamos de nada mais do que um espírito vigilante», porque sabiam e experimentaram que a vigilância é a matriz de todas as virtudes cristãs



Velar na noite, vigiar, estar atentos e de guarda, são todas expressões que indicam o que compete a cada discípulo, em particular aqueles que são chamados a vigiar de modo particular, sendo colocados como sentinelas na casa e na comunidade do Senhor. Essas sentinelas também têm a tarefa de manter os outros acordados, de os impedi de se entorpecerem e adormecerem. «Sentinela, em que ponto está a noite?» (Isaías 21,11) é a pergunta que os cristãos dirigem aos seus pastores, mas infelizmente às vezes até eles não velam e dormem, incapazes de responder às expectativas daqueles que lhes foram confiados.

E o que Jesus disse aos quatro discípulos no monte das Oliveiras (os três acima, mais André: cf. Mc 13, 3), também o dirige a todos os outros: «O que vos digo, digo a todos: vigiai!». Perguntemo-nos então: nós, cristãos, que queremos ser discípulos de Jesus, estamos ainda verdadeiramente à espera da sua vinda? Somos aqueles que Paulo definia como «aguardando a manifestação de nosso Senhor Jesus Cristo» (cf. 1 Coríntios 1, 7)? O grande Basílio de Cesareia advertia: «O que é específico do cristão?». «Vigiar todos os dias e a cada hora e estar prontos para cumprir plenamente a vontade de Deus, sabendo que na hora que não pensamos o Senhor vem» (“Regras morais” 80, 22). E os padres do deserto, por sua vez, chegaram a dizer: «Não precisamos de nada mais do que um espírito vigilante» (“Ditos dos padres, Coleção Alfabética”, Poemen 135), porque sabiam e experimentaram que a vigilância é a matriz de todas as virtudes cristãs.



Faz parte do ministério episcopal despertar os sonolentos, para que a sua fé seja fortalecida e toda a Igreja aguarde o Senhor que vem



O cristão deve viver a vigilância também velando na noite, vivendo a expectativa no seu corpo, na sua carne, e não a deixando relegada aos pensamentos piedosos. Mas, em qualquer caso, o objetivo de velar, mesmo tirando horas ao sono, é a aquisição da consciência daquilo que se é e da responsabilidade que se tem na companhia dos homens e da comunidade do Senhor. Vigiar é viver com os sentidos acordados, resistindo ao entorpecimento espiritual, à degradação do “sobreconhecimento” que nos é dado pela fé. Vigiar é aderir à realidade e ser fiel à terra, sabendo e afirmando que estamos sempre na presença de Deus, «templo do Espírito Santo» (1 Coríntios 6, 19) e corpo do Cristo ressuscitado na história. Vigiar é resistir ao espírito dominante e conservar a capacidade de crítica, para não nos dobrarmos ao “todos fazem assim”.

Na Igreja, o bispo, aquele que vigia (“epískopos”), não se esquece não só de ficar acordado, mas também de despertar os que lhe são confiados. Sim, faz parte do ministério episcopal despertar os sonolentos, para que a sua fé seja fortalecida e toda a Igreja aguarde o Senhor que vem, unindo a sua oração à invocação do Espírito, porque «o Espírito e a esposa dizem: “Vem!”» (Apocalipse 22, 17). O leitor das Sagradas Escrituras participe, portanto, dessa invocação e repita-a sem trégua, entrando com todas as suas forças nesse diálogo que fecha toda a Bíblia e envolve toda a nossa vida: «“Sim. Virei brevemente”.» «Ámen! Vem, Senhor Jesus!» (Apocalipse 22, 20).



 

Enzo Bianchi
In "Monastero di Bose"
Trad.: SNPC
Publicado em 03.12.2017

 

 
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