Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura - Logótipo
secretariado nacional da
pastoral da cultura
Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura - Logótipo
secretariado nacional da
pastoral da cultura

Leitura: "Vida de Santo António" é «viagem» e «peregrinação» que portugueses deviam recuperar, escreve Henrique Raposo

Imagem Capa (det.) | D.R.

Leitura: "Vida de Santo António" é «viagem» e «peregrinação» que portugueses deviam recuperar, escreve Henrique Raposo

A Paulus Editora lançou em junho dois novos livros na coleção "Clássicos da Literatura Espiritual", coordenada pelo escritor Jorge Reis-Sá: "A garça e a serpente", de Francisco Costa, e "Vida de Santo António de Lisboa", por Aloísio Tomás Gonçalves.

Aloísio Tomás Gonçalves, especialista em S. Francisco de Assis e Santo António, escreveu o livro sobre o pregador franciscano português «unicamente com a preocupação de reconstruir com os materiais antigos? das lendas e tradições «uma obra atualizada e ajustada às exigências da historiografia moderna», refere a editora.

No prefácio, que transcrevemos mais abaixo neste artigo, o escritor Henrique Raposo assinala que o autor «não isola as ideias de Santo António em grandes chavões abstratos e regurgitáveis para o público moderno; o autor tem o mérito de seguir o rasto empoeirado das viagens de Santo António por Portugal, Itália e França».

«Santo António representa uma viagem exterior e uma peregrinação interior que nós, portugueses, devíamos recuperar», acrescenta o investigador no Instituto Português de Relações Internacionais da Universidade Nova e cronista do jornal Expresso., que expressa o desejo de que a reedição do «livro hagiográfico mas honesto seja apenas o início dessa redescoberta».

O texto da introdução realça que António é «um caso deveras singular: entre os santos que regista o Martirológio nenhum haverá talvez tão conhecido e tão ignorado».

«Explicamos o paradoxo: se percorrermos as nações cristãs, e ainda aqueles povos onde a luz do Evangelho apenas bruxuleia, não encontraremos nome de santo mais popularizado nem mais invocado do que o do taumaturgo português. Prova esta ou grandes templos, em que se não venere a sua imagem. Contudo, se perguntarmos às centenas de milhares dos devotos antonianos quem é Santo António, não no-lo saberão dizer, e contentar-se-ão com esta resposta: é um grande santo que faz muitos milagres», assinala o autor.

Os primeiros biógrafos «deslumbraram-se com os prodígios» do santo e descuidaram «a relação da sua vida e dos seus feitos». «Com os cronistas agravou-se o mal. Cobriram com espessa
poeira de lendas e maravilhas os simples dizeres dos antigos
legendistas, deturparam factos com circunstâncias de fantasia,
armazenaram quanta lenda encontraram – quando se não davam ao luxo de inventar as que lhes faltava, para os seus fins particulares», acrescenta.

 

Prefácio
Henrique Raposo
In "Vida de Santo António de Lisboa"

Quando escreveu a biografia de São Francisco de Assis, C. K. Chesterton deixou um aviso: abordar um homem pio dos séculos XII ou XIII é uma jornada intelectual que não pode ceder a duas pulsões tentadoras e incapacitantes, a pulsão laica e a pulsão devota. A primeira elogia o homem sem falar do santo, procura uma visão higienizada que retira Cristo da equação, elogia os feitos do biografado mas evita estabelecer uma ligação entre esses feitos notáveis e a fé. Mas falar da sensibilidade social de Santo António (por exemplo, o ataque à usura) sem invocar Deus é como tentar explicar o aventureirismo dos Descobrimentos sem invocar o sonho da Índia ou do Preste João. É impossível. Tal como é impossível falar do génio literário de Dante ou Flannery O’Connor sem abordarmos o assombro religioso que marcava a visão do mundo destes escritores. Intelectuais modernos como Renan e Arnold tentaram esta missão impossível, isto é, abordaram santos medievais como Assis e António através de uma lente que despreza o ascetismo, os jejuns, os estigmas, os sacrifícios, o desejo de martírio. É o mesmo que tentar explicar "Romeu e Julieta" sem o amor, esse pormenor que surge como uma irracionalidade  debaixo da lente destes alienistas científicos que arquitetaram o desencantamento do mundo ao longo dos séculos XIX e XX. Ainda hoje, estes “modernos" não compreendem que a religião não é um sistema filosófico de ideias, é uma paixão. São Francisco de Assis e Santo António não amavam a Humanidade, que é uma ideia, amavam homens concretos. Nem sequer amavam o Cristianismo, que também se pode transformar num "ismo" farisaico. Amavam Cristo. Os cínicos contra-argumentarão que eles amavam uma pessoa imaginária. Mesmo que isso fosse verdade, seria necessário sublinhar que se tratava de uma pessoa imaginária, não de uma ideia imaginária.

A segunda pulsão, a devota, comete o erro inverso: retira o biografado do seu contexto humano e social, transformando-o num anjo que por acaso desceu à Terra; há um excesso de entusiasmo teológico que transforma a biografia numa hagiografia ininteligível para o não-crente. Aliás, até o crente tem dificuldades em captar o nevoeiro onírico da hagiografia. Ora, parece-me que Aloísio Tomás Gonçalves cedeu a esta segunda pulsão. Com apenas mais oito anos do que "São Francisco de Assis" (1923) de Chesterton, este "A Vida de Santo António de Lisboa"(1931) é uma hagiografia ultra-adjetivada que segue uma tese que me parece perigosa: a ideia de que Santo António era quase um anjo que por acaso se viu preso num corpo humano. É perigosa porque esquece que um santo é um pecador que não desiste, não é um anjo extra-humano que executa obras-primas morais sem qualquer esforço.

Seja como for, "A Vida de Santo António de Lisboa" tem uma vantagem sobre abordagens mais higiénicas. Não isola as ideias de Santo António em grandes chavões abstratos e regurgitáveis para o público moderno; o autor tem o mérito de seguir o rasto empoeirado das viagens de Santo António por Portugal, Itália e França. Isto não é um pormenor. Para não cair no destino desumanizante dos restantes "ismos", o cristianismo tem de evitar o abstrato, tem de se centrar no concreto, no biográfico, na peregrinação, na viagem. O cristianismo só faz sentido numa literatura de viagens. Se repararmos bem, a viagem está no centro da nossa fé: o Antigo Testamento é uma epopeia de êxodos e regressos, o Novo Testamento é composto pelas viagens de Cristo na Palestina e pelas missões de Paulo no Mediterrâneo; depois temos os caminhos de São Tiago, as viagens de São Francisco de Assis e do seu mais notável seguidor, Santo António de Lisboa. Também não é por acaso que o grande poema cristão, "Divina Comédia", é uma viagem. Imaginária, sem dúvida, mas uma viagem e não uma mera divagação.

Sou católico, mas confesso a minha descrença em relação a aparições e milagres. Há nesses fenómenos uma hagiografia hiperbólica que não encaixa na minha teologia. Milagres só consigo ver no rosto de uma entidade. Taumaturgos, confesso, só reconheço um. Talvez seja demasiado protestante, o que não é um problema. O catolicismo às vezes precisa de uma dose de secura protestante para não cair no xarope melado. Contudo, isto não impede o meu fascínio pela figura do santo católico, que me faz lembrar a figura do profeta do Antigo Testamento. Nos dois mil anos d. C., os santos católicos têm desempenhado o papel que os profetas hebreus desempenharam nos dois mil anos a. C. – têm sido os almocreves da fé, os símbolos moventes da aliança entre Deus e o seu povo, as artérias teológicas que tentam estancar a gangrena da descrença, da violência, da "hubris". E violento e arrogante era o tempo de Santo António. Se o padre António Vieira viveu a decadência portuguesa e católica perante o avanço protestante, Santo António viveu a força portuguesa e católica na época da reconquista cristã.

Antes de ser rebatizado como António, este grande sábio do século XIII dava pelo nome de Fernando Bulhão, filho de uma família lisboeta, aristocrática e guerreira, típica da época das Cruzadas. Para espanto dos seus, o menino Fernando recusou o estatuto social e a glória guerreira, preferindo a clausura religiosa que se consubstanciou em Coimbra, nomeadamente naquela que é atualmente a "minha" igreja de Coimbra – a Igreja de Santo António dos Olivais, local histórico da ordem mendicante criada naquele tempo por São Francisco de Assis. Por uma série de razões que não cabem neste espaço, Fernando deixou a ortodoxia religiosa e entrou na heterodoxia quase revolucionária dos franciscanos. O seu nome passou a ser António, o primeiro sábio de origem seráfica e caixeiro viajante que enfrentou os pecados da Europa daquele tempo. Por exemplo, debateu-se com a grande heresia do catarismo, um culto niilista, maniqueísta e oriental que pervertia o humanismo cristão. António lutou com palavras contra os hereges em França (albigenses). Sem sucesso, diga-se. Os niilistas albigenses não se converteram, forçando assim a famosa cruzada albigense que está na génese, por exemplo, da Inquisição.

Se em França lutou contra a heresia, em Itália Santo António enfrentou a grande divisão política da Idade Média, o choque entre guelfos e gibelinos. Foi neste contexto que surgiu o meu episódio favorito das aventuras de Santo António: a forma como enfrentou a tirania personificada por Ezzelino III.

O conflito entre guelfos e gibelinos era a tradução italiana do conflito entre o Papado italiano e o Sacro Império Alemão. Os guelfos apoiavam o papado, os gibelinos o imperador. Ezzelino era o lacaio italiano de Frederico II, imperador da família Hohenstaufen, terrível inimiga dos Papas. Implacável na guerra, Ezzelino conquistou Verona, Vicenza, Bréscia e Pádua para a causa gibelina. Era implacável antes, durante e depois das batalhas. Lendária se tornou a forma como tratava os prisioneiros: arrancava-lhes olhos, matava-os à fome, queimava-os vivos. Num só dia, queimou onze mil cidadãos de Pádua, a cidade de eleição de Santo António. Quando conquistou Verona, Ezzelino fez prisioneiro um amigo de Santo António, o conde Ricardo de São Bonifácio. Consciente dos perigos que corria, António pediu um face-a-face com o tirano e pediu a libertação do amigo. Falhou no intento, mas cumpriu um desígnio cristão: estar disponível para morrer não pela Humanidade, abstração vaga, mas por um amigo concreto. Este é o meu episódio favorito porque revela um homem de coragem. António não era um mero sábio ou teórico, era um homem com o sentido trágico da ação (na teoria não há tragédia, só na ação). Tendo em conta a sua profunda sapiência, podia ter procurado refúgio numa biblioteca para nos deixar a sua "Suma Teológica", mas, em vez disso, calcorreou o mundo, enfrentou hereges que o apedrejavam, debateu-se com tiranos e usurários que o ameaçavam, palestrou ao povo em gigantescos sermões que paralisavam cidades até altas horas da madrugada.

Sim, até de madrugada, porque António ficava a ouvir as confissões de centenas e centenas de pessoas tocadas pelas suas palavras que fundiam o frio da erudição com o ardor da piedade. Ao pé desta coragem tão terrena, os alegados milagres são uma irrelevância.

Santo António representa uma viagem exterior (Lisboa, Coimbra, França, Itália) e uma peregrinação interior que nós, portugueses, devíamos recuperar. Espero que a reedição deste livro hagiográfico mas honesto seja apenas o início dessa redescoberta.

 

Capítulo VIII
Francisco e António
Aloísio Tomás Gonçalves
In "Vida de Santo António de Lisboa"

No eremitério de monte Paulo, passou larga temporada, frei António entregue a seus exercícios favoritos.

Entretanto ia Deus dispondo os sucessos para, a seu tempo oportuno, revelar ao mundo o seu devoto e fiel servo, e indicar aos superiores da Ordem a missão que lhe tinha destinado.

Aconteceu pois haver ordenações na próxima cidade de Forlívio, e a elas concorrerem vários Frades Menores, com outros da Ordem dos Pregadores.

Entre os concorrentes, encontrava-se frei António; não para receber Ordens, porque já em Coimbra fora elevado ao sacerdócio, mas ou casualmente ou na qualidade de sócio de Ministro Provincial, como alguns escritores opinam, não sem verosimilhança.

Tendo-se reunido todos para a refeição, sob a presidência do superior do lugar ou convento dos Franciscanos, e terminado o frugal repasto, começou o dito superior a rogar aos Frades Pregadores que um deles dirigisse à assembleia algumas palavras de edificação espiritual. Escusaram-se eles, alegando não estarem preparados.

Foi depois rogando a cada um de seus próprios súbditos, que por igual motivo declinaram o convite.

Então o superior, como se fosse movido por inspiração divina, voltou-se para frei António e ordenou-lhe, por santa obediência, que se levantasse e dissesse o que o Senhor lhe sugerisse.

Colhido de improviso, ainda esboçou uma recusa; mas o superior não lha admitiu, e mais categoricamente lhe ordenou que pregasse, sob a inspiração do Espírito Santo, «pois não julgava que ele tivesse algum conhecimento das Divinas Escrituras, e apenas lhe supunha a lição do que tocava os Ofícios Eclesiásticos, e só tinha a favor dele um indício, qual era ter-lhe ouvido falar latim ainda que muito pouco, e só quando o exigia a necessidade; e com efeito, sendo ele de tal indústria, que a memoria lhe servia de livro, e abundava nele o dom celestial de penetrar o sentido místico das Letras Divinas, os frades o consideravam mais exercitado em lavar os utensílios da cozinha, que em expor os Mistérios da Escritura.

«Para que é necessário dizer mais? Escusou-se com todas as suas forças, mas teve que render-se às instâncias do Prelado e começou primeiramente de falar com simplicidade, e tendo a sua língua, ou antes pena do Espírito Santo mostrado no processo do Sermão a mais rara eloquência, e o dom de incluir ajuizadamente muito em pouco, os frades, pasmados em extremo, ouviam muto atentos, e do mesmo acordo, a pregação do Servo de Deus. Realçava-lhes o pasmo essa não esperada profundeza de palavras, e nada menos lhes servia de edificação o espírito e muito fervorosa caridade, com que o santo se exprimia. Todos finalmente, banhados em consolação espiritual, veneravam o merecimento da humildade, que acrescia no Servo de Deus ao dom de tão extremada ciência.»

E assim revelou Deus, por meios tão inadequados, uma das grandes maravilhas daquele fecundo século.

Di-lo a Legenda e natural é que assim fosse: ao pasmo dos bons Irmãos sucedeu uma alegria imensa. E não pequeno orgulho, – santo orgulho do bem nos outros, que nada encerra de egoísmo, mas todo ele é feito de caridade e amor fraterno! – e não pequeno orgulho o sucesso devia causar entre os pobres e humildes leiguinhos de monte Paulo. O tesouro que tinham suspeitado haver-lhes concedido Deus naquele obscuro estrangeiro não era somente tesouro de virtude; era-o também de sabedoria e eloquência, e destas não haviam eles concebido a mais leve suspeita. Louvariam a Deus e lhe agradeceriam tê-los feito depositários e guardas do seu ilustre Servo, até o dia em que Lhe aprouve mandá-lo para a sua Vinha.

De uma coisa se lamentariam, por certo: não terem utilizado aquela prodigiosa eloquência, enquanto o tiveram por companheiro, no eremitério do monte, porque desde logo previram que frei António, uma vez revelado e conhecido, para lá não voltaria, ou, se voltasse, pouco tempo se deteria.

Imediatamente participaram o acontecimento de Folívio ao vigário geral, frei Elias, que exultou com a notícia.

Muito desejava o Vigário de São Francisco os incrementos da Ordem; mas, espírito diametralmente oposto ao do Seráfico Patriarca, queria que a Ordem se engrandecesse, como via serem grandes as outras Ordens. E das notícias que sobre frei António lhe remeteram, estava na sua índole atentar mais nas que se referiam à ciência e à eloquência do elogiado, do que nas atinentes à sua modéstia e humildade, ainda que prezasse estas nos súbditos, para melhor os manobrar a seu talante.

Não lhe saíram porém, desta vez, certas as contas – se algumas deitou sobre a utilidade que um religioso de tais prendas como António lhe podia trazer.

Como era natural foi a alegre nova levada também a São Francisco, que a recebeu com grande júbilo e tão grande que, diz uma tradição, exclamara ao referirem-lhe o sucedido em Forlívio: «Finalmente também a minha Ordem tem um bispo.»

Principiaria nesta data, segundo alguns autores, ativa correspondência epistolar entre Francisco e António. É de lamentar porém que nenhuma dessas cartas tenha chegado até nós. Resta-nos apenas a referência que Tomás de Celano faz à maneira como São Francisco se dirigia ao Discípulo e ainda uma carta em que o nomeava mestre de teologia. Mesmo desta, ao menos quanto à forma em que a transmite o cronista Wadingo, é para alguns críticos mais que duvidosa.

E é quanto se sabe das relações entre o Seráfico Padre e o grande pregador e apóstolo, seu filho espiritual. Não sabemos, efetivamente se alguma vez se chegaram a falar, e, portanto, que influência imediata pôde António receber de Francisco. Que ele se tenha integrado absolutamente no ideal e na vida franciscana, não temos disso a menor dúvida. Que tenha imprimido o selo característico e pessoal de sua individualidade inconfundível à interpretação que deu a esse ideal e vida é coisa que não custaria grande trabalho a provar.

Insurge-se um escritor franciscano, ilustre por muitos títulos, contra aqueles que, por ideias preconcebidas e obedecendo a preconceitos de escola, têm procurado contrapor os dois santos.

Se não fossem as intenções com que tais escritores exploram a pretendida oposição pouco fazia admiti-la ou rejeitá-la; torna-se porém inaceitável, pelo menos no sentido em que a aventou o citado Paulo Sabatier, propagandista de um São Francisco que a História conscienciosa não pode admitir.

Entre o fundador dos Menores e o mais ilustre de seus discípulos há de facto grandes diferenças de carácter, de processos, de cultura; não vemos porém onde se revele a tão destacada oposição. Admiramos no primeiro a generosidade da renúncia aos bens terrenos, a abnegação total nas mãos de Deus, a caridade sem limites para com os homens; uma surpreendente intuição mística, ascese poderosa, zelo ardente de Apóstolo; conceções arrojadas, resoluções imprevistas e geniais; absoluto desprezo de quanto se refira à sua pessoa; intrepidez serena e ousada; amor inexplicável a essa misteriosa Santa Pobreza, "sua Dama e sua Senhora", – amor que lhe valeu o singular apelativo de "Pobrezinho"; sugestiona a sua sem-par lealdade e inteireza, a perfeita correspondência com suas ideias, com suas palavras e de seus atos.

E, por acréscimo, como que a torná-lo irresistível à nossa admiração, vem aquela atmosfera de simpatia universal, aquela luz de amor, aquela feição poética de sua alma, em que envolvia e de que penetrava atos e palavras, e que davam a quanto dizia e fazia maravilhoso encanto.

Quem pode ficar alheio a esse condão sobrenatural de tornar compreensíveis e amáveis as próprias criaturas insensíveis, inanimadas e irracionais, como vemos no "Cântico do Sol", no sermão às aves, no desafio com o rouxinol, nas conversas com a "irmã" cigarra, com o carpa do lago Trasimeno, e em tantos outros episódios de inefável e doce poesia? Quem poderá conter a emoção afetuosa perante uma individualidade que assim se nos descobre?

Lembraremos ainda que entre as novidades que Francisco, por espontaneidade de génio, aquecido na fornalha do amor de Deus e na caridade dos pecadores, instituiu, devemos contar a pregação popular, principalmente dirigida ao povo e na língua que o povo falava: pregação desataviada de forma, – não contudo, e note-se isto, falha dos recursos que a arte ensina, mas o génio cria; – pregação que excluía as "verba phalerata", a que Tomás de Celano se refere; pregação de ideias, a que o diálogo, o exemplo alegórico, a parábola à maneira evangélica, davam relevo e alma; pregação de palavra escolhida e casta mas breve «quia verbum abreviatum fecit Dominus super terram»; a qual, como Trovadores, que iam de castelo em castelo, e cantavam a sua canção e partiam a levar a outros pontos as novas de que eram mensageiros, deviam os Frades Menores, troveiros ambulantes de Nosso Senhor, lançar às gentes que reunidas encontrassem; mas lançá-la brevemente, sem lardes de erudição despropositada, nem ambages subtis; e, logo, irem-se embora, para noutras terras e noutros países mesmo, anunciar a palavra de Deus, e só a palavra de Deus, que era a de que necessitavam os homens para se melhorarem e voltarem a Cristo.

Para conseguirem este objetivo deviam os seguidores do "Poverello", ao modo dos Profetas e de João Batista viver previamente largas temporadas no deserto de seus eremitérios e conventos, examinando e depurando, mais na oração do que na leitura dos livros, as palavras que haviam de pronunciar, e aquecê-las no amor de Cristo crucificado e no zelo de caridade para com as almas errantes.

Assim praticava Francisco e assim, exclusivamente, fizeram, os primitivos companheiros.

Acrescente-se ainda que, embora o "Poverello" fosse dotado de inteligência penetrante, de memória pronta e tenaz – testemunha-o Celano – de fácil disposição e grande curiosidade de espírito para as ciências, não quis propositadamente cultivá-las. E não quis porque via os sábios de seu tempo, clérigos e leigos – mais os clérigos ainda que os leigos -, atacados dessa inchação científica, de que nos acautela São Paulo; desviados do seu múnus sacerdotal, dados à medicina, e não poucas vezes à alquimia e suas perigosas ocupações, entregues aos jogos verbalistas do Direito, cheios de presunção e orgulho, aspirando unicamente às honras e proventos das situações rendosas, em cortes de príncipes seculares ou eclesiásticos; descuidosos da Ciência Divina, desdenhosos, quando pastores de almas, dos interesses espirituais do rebanho que eles, em vez de apascentarem e conduzirem, tosquiavam e esfolavam sem piedade nem vislumbres de temor às iras de Deus; homens sem fé, secos e áridos de caridade, que para o mundo viviam, e nele colocavam todas as suas esperanças.

Estes sábios e esta ciência é que o servo de Deus odiava, a estes perseguia, e implacavelmente excluía da sua Ordem.

«Mas os teólogos e aqueles que nos administram as santíssimas e divinas palavras devemos amar, honrar e reverenciar.»

E assim se portava ele com frei Pedro Cathanii a quem tratava de senhor, por ser homem sábio e nobre e com todos aqueles que acima da ciência colocavam a cultura da santidade.

Aproximando agora o nosso biografado do modelo de todo o Frade Menor, como de Francisco canta a Igreja: "Forma Minorum" veremos surgir diante de nossos olhos um pouco surpresos pela novidade, com que não contavam, um Santo António bastante diferente dos que a fantasia retórica tem posto a correr em vidas, biografias e lendas com que topamos a cada passo e que nos apresentam um santo que pouco tem com o histórico e real.

Dá-se com Santo António o que em outra obra vimos que aconteceu a São Francisco. Apoderaram-se deste a literatura e a arte – a lenda, a oratória, a pintura, a escultura – e fazendo caso omisso dos seus primeiros historiadores transformaram-no a tal ponto que se tornou quase impossível reconhecer no sórdido "maltez", de cara patibular e ademanes de louco, o gentilíssimo filho de Pedro Bernardone, o mãos-rotas para amigos e pobres, o cultor festejado da "gaya sciência"trovadoresca, o cavaleiro galante e generoso; enfim, o santo, sociabilíssimo, cujo trato e conversação atraíam irresistivelmente por sua perfeita urbanidade e nobres maneiras.

De Santo António também os "artistas" tomaram conta. E em que deplorável estado o puseram!

«Era ele de mediana estatura, escreve Jorge Cardoso, avultado em carnes, rosto macilento, cor pálida, nariz grosso, olhos alegres e boca rubicunda: a voz clara, sonora e inteligível, tão alta que a todos chegava e tão branda que a todos enternecia.»

O P. Manuel da Esperança diz tudo em três palavras: «Era envolto em carnes, gentil-homem e de boa estatura.»

A Legenda de Tomás de Pavia referindo-se ao esforço que o santo tinha muitas vezes de fazer para pregar, por causa das suas enfermidades, afirma que estas eram agravadas "quadam naturali pressus".

E é desta figura máscula, a ressumar força e virilidade, a acusar energias surpreendentes, que os escultores e santeiros plasmaram umas estatuazinhas amaneiradas, frustes, de feminina elegância; e os pintores delinearam uns corpos aéreos, vaporosos, a quebrarem de languidez: "santinhos" em atitudes de ator de segunda ordem!

A vasta coleção iconográfica recolhida pelo Pe. Facchinetti na sua obra por vezes citada, "Santo Antonio di Padova", é prova suficiente do que vamos dizendo. O grande meio de propaganda que é a estampa tem servido, quanto ao nosso santo – e quanto a outros muitos igualmente –, para o desvirtuar da sua genuinidade, para o falsificar, criando dele, nos espírito devotos e não devotos, um conceito que o próprio Bem-aventurado indignadamente repeliria se houvesse de pronunciar-se sobre ele.

Neste ponto, corre a mesma fortuna adversa que o Seráfico Pai, de quem foi amante filho e leal imitador, mas de quem, por acréscimo de infelicidade, historiadores de má-fé, ou mal informados, querem separar, tentando colocar os dois santos em divergência de vida e pensamento.

Contudo fácil se torna corrigir o preconceito errado, pela aproximação de factos paralelos das suas vidas.

A renúncia de Francisco às riquezas de Pedro Bernardone, ao fausto de uma vida opulenta, dissipada e alegre, às alianças com que sonhava seu pai, e que o elevariam no quadro social, onde conquistaria a nobreza que os pergaminhos lhe negavam, enche-nos de admiração bem justificada.

Fugindo a tudo isso, não vemos nós como o nobre e rico D. Fernando de Bulhões se foi esconder no mosteiro vicentino?

Prova evidente de amor para com Deus e de zelo pelas almas remidas com o Sangue de Cristo são as viagens que o Seráfico fundador empreende a terras de infiéis.

Para ir missionar em Marrocos, corta frei António por laços estreitos e caríssimos, que o prendem aos seus irmãos da Religião augustiniana; deixa a paz do seu mosteiro, abandona o prosseguimento de seus estudos; e, nota singular, estimula-o a mesma ambição de martírio, que tanto aguilhoava o "Poverello".

Já aludimos ao amor da solidão e do retiro em que ambos foram eminentes. Também notámos a facilidade com que António passava da vida contemplativa às lides agitadas do apostolado.

São Francisco fez sermão às aves. A maravilhosa e estupenda pregação que o servo de Deus, António, dirigiu aos peixes aproxima os dois santos. E se na ação do primeiro há mais poesia e ternura, na de António sobreleva a caridade, denunciando uma fé robusta e grande, das que transportam montanhas.

É a Santa Pobreza a gema que, com mais estranho brilho, fulge na coroa da santidade de Francisco. Por necessidade de fundador, mestre e exemplar de seus filhos, houve Francisco de a proclamar com extraordinário calor e insistência. A recomendá-la são inumeráveis as suas palavras, frisantes os seus exemplos.

António era aluno dessa escola, não tinha os deveres nem os direitos, que assistiam ao Seráfico Patriarca, de a encarecer aos outros. Mas, que mais se poderá exigir do fradinho pobre e desprendido, que mendiga uma cela, que, de jornada ou moradia, se contenta com um hábito ou com as palhas de uma enxerga?

Que se distanciava imensamente do de Francisco o seu modo de pregar, acusa Sabatier! Não tanto. Porque se a pregação de Francisco era profundamente evangélica, não dava António um passo sem se apoiar no Texto Sagrado.

E quanto aos seus métodos, é demasiado exigir de um homem cultíssimo, autêntico sábio, que se não utilize de seu saber e cultura e se cinja á difícil simplicidade dos que triunfam pela natural facúndia apenas. Devemos maravilhar-nos deste prodígio realizado por António: que sendo varão de tão vastos conhecimentos, frequentador de filósofos, conhecedor da alta literatura clássica, haja sabido interessar os humildes e ignorantes, descendo ao seu falar, fazendo-se compreender, sem baixar dos primores da sua cultura. E nós sabemos como as multidões se apertavam em volta do seu púlpito!

Mas basta de aproximações buscadas adrede. Os leitores terão ocasião de fazê-las espontaneamente, durante o processo desta biografia.

No que dizemos agora temos em vista reduzir ao seu valor real - que é nulo - afirmações que correm mundo e que nos parecem falhas de base histórica.

O extraordinário apóstolo, o deslumbrante taumaturgo que vai entrar em luta pelo reino de Deus, pelos direitos de Cristo sobre as almas, é um genuíno filho espiritual de Serafim do Alverne; e é-o em todas as suas modalidades interiores e em não poucas da sua vida exterior. Vamos ver, em ação, um franciscano integral, espelho em que reflete o autêntico São Francisco de Assis.

 

ImagemLucio Fontana | D.R.

Esta transcrição omite as notas de rodapé.

 

Publicado em 04.07.2016

 

Título: Vida de Santo António de Lisboa
Autor: Aloísio Tomás Gonçalves
Editora: Paulus
Páginas: 168
Preço: 10,71 €
ISBN: 978-972-301-918-6

 

 
Imagem Capa | D.R.
Quando escreveu a biografia de São Francisco de Assis, C. K. Chesterton deixou um aviso: abordar um homem pio dos séculos XII ou XIII é uma jornada intelectual que não pode ceder a duas pulsões tentadoras e incapacitantes, a pulsão laica e a pulsão devota
"A Vida de Santo António de Lisboa" tem uma vantagem sobre abordagens mais higiénicas. Não isola as ideias de Santo António em grandes chavões abstratos e regurgitáveis para o público moderno; o autor tem o mérito de seguir o rasto empoeirado das viagens de Santo António por Portugal, Itália e França
Nos dois mil anos d. C., os santos católicos têm desempenhado o papel que os profetas hebreus desempenharam nos dois mil anos a. C. – têm sido os almocreves da fé, os símbolos moventes da aliança entre Deus e o seu povo, as artérias teológicas que tentam estancar a gangrena da descrença, da violência, da "hubris"
Para espanto dos seus, o menino Fernando recusou o estatuto social e a glória guerreira, preferindo a clausura religiosa que se consubstanciou em Coimbra, nomeadamente naquela que é atualmente a "minha" igreja de Coimbra – a Igreja de Santo António dos Olivais, local histórico da ordem mendicante criada naquele tempo por São Francisco de Assis
Tendo em conta a sua profunda sapiência, podia ter procurado refúgio numa biblioteca para nos deixar a sua "Suma Teológica", mas, em vez disso, calcorreou o mundo, enfrentou hereges que o apedrejavam, debateu-se com tiranos e usurários que o ameaçavam, palestrou ao povo em gigantescos sermões que paralisavam cidades até altas horas da madrugada
Colhido de improviso, ainda esboçou uma recusa; mas o superior não lha admitiu, e mais categoricamente lhe ordenou que pregasse, sob a inspiração do Espírito Santo, «pois não julgava que ele tivesse algum conhecimento das Divinas Escrituras, e apenas lhe supunha a lição do que tocava os Ofícios Eclesiásticos, e só tinha a favor dele um indício, qual era ter-lhe ouvido falar latim ainda que muito pouco»
Não sabemos, efetivamente se alguma vez se chegaram a falar, e, portanto, que influência imediata pôde António receber de Francisco. Que ele se tenha integrado absolutamente no ideal e na vida franciscana, não temos disso a menor dúvida
Deviam os seguidores do "Poverello", ao modo dos Profetas e de João Batista viver previamente largas temporadas no deserto de seus eremitérios e conventos, examinando e depurando, mais na oração do que na leitura dos livros, as palavras que haviam de pronunciar, e aquecê-las no amor de Cristo crucificado e no zelo de caridade para com as almas errantes
Embora o "Poverello" fosse dotado de inteligência penetrante, de memória pronta e tenaz – testemunha-o Celano – de fácil disposição e grande curiosidade de espírito para as ciências, não quis propositadamente cultivá-las. E não quis porque via os sábios de seu tempo, clérigos e leigos – mais os clérigos ainda que os leigos -, atacados dessa inchação científica, de que nos acautela São Paulo
Veremos surgir diante de nossos olhos um pouco surpresos pela novidade, com que não contavam, um Santo António bastante diferente dos que a fantasia retórica tem posto a correr em vidas, biografias e lendas com que topamos a cada passo e que nos apresentam um santo que pouco tem com o histórico e real
É desta figura máscula, a ressumar força e virilidade, a acusar energias surpreendentes, que os escultores e santeiros plasmaram umas estatuazinhas amaneiradas, frustes, de feminina elegância; e os pintores delinearam uns corpos aéreos, vaporosos, a quebrarem de languidez: "santinhos" em atitudes de ator de segunda ordem
O grande meio de propaganda que é a estampa tem servido, quanto ao nosso santo – e quanto a outros muitos igualmente –, para o desvirtuar da sua genuinidade, para o falsificar, criando dele, nos espírito devotos e não devotos, um conceito que o próprio Bem-aventurado indignadamente repeliria se houvesse de pronunciar-se sobre ele
Para ir missionar em Marrocos, corta frei António por laços estreitos e caríssimos, que o prendem aos seus irmãos da Religião augustiniana; deixa a paz do seu mosteiro, abandona o prosseguimento de seus estudos; e, nota singular, estimula-o a mesma ambição de martírio, que tanto aguilhoava o "Poverello"
Sabemos que, historicamente, as Igrejas, tal como os Estados, partidos e ideologias, tiveram dificuldades com os artistas, porque de vez em quando eles fazem e dizem coisas que não estavam no programa, e seguem por caminhos que talvez não fossem os mais ortodoxos, ou mais justos, segundo o entender de quem o diz
Devemos maravilhar-nos deste prodígio realizado por António: que sendo varão de tão vastos conhecimentos, frequentador de filósofos, conhecedor da alta literatura clássica, haja sabido interessar os humildes e ignorantes, descendo ao seu falar, fazendo-se compreender, sem baixar dos primores da sua cultura
Relacionados
Destaque
Pastoral da Cultura
Vemos, ouvimos e lemos
Perspetivas
Papa Francisco
Teologia e beleza
Impressão digital
Pedras angulares
Paisagens
Umbrais
Evangelho
Vídeos